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Audi Magazine

O elo perdido

Publicado em 01 setembro 2010

Por Por André Viana

Em julho passado, a edição de número 7.304 da Nature, uma das mais importantes revistas científicas do mundo, relembrou em seu editorial os dez anos do sequenciamento genético da Xylella fastidiosa, bactéria responsável pela "praga do amarelinho", doença que ataca laranjais e causa aos produtores brasileiros prejuízos anuais que beiram os US$ 100 milhões. Primeiro fruto do Projeto Genoma brasileiro, o artigo científico, assinado por 116 pesquisadores, foi publicado originalmente na edição 6.792 da revista, em 13 de julho de 2000. Era a primeira vez em 131 anos de existência que a Nature estampava em sua capa um trabalho científico realizado no Brasil. O feito, principal responsável pelo boom da biotecnologia no país, teve como mentor o biólogo paulistano Fernando de Castro Reinach.

Na época, Reinach ainda assinava como professor titular do Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo, onde se formou em 1978. Não assina mais. Doutor pela Universidade Cornell de Nova York em 1984, quando recebeu o prêmio de melhor tese do ano por suas pesquisas sobre contração muscular, Reinach, aos 54 anos, é uma espécie rara de cientista, que migrou do conforto de um emprego público como professor universitário para as inconstancias da iniciativa privada. "No Brasil, sempre existiu uma muralha da China idiota entre a universidade e a indústria", afirma a geneticista Lygia da Veiga Pereira, conhecida por seus estudos com células-tronco embrionárias. "Graças a sua inteligência para os negócios, Fernando rompe essa barreira e se torna um elo importante entre conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico."

O primeiro passo dessa evolução aconteceu em 1990, quando fundou com Marcos, um de seus cinco irmãos, e outros dois sócios a Genomic, empresa pioneira no Brasil em exames de DNA. Em 1999, com o sequenciamento da Xylella já em estágio final, Reinach abriu, em parceria com o economista Pérsio Árida, um dos pais do Plano Real, o .ComDomínio, um data center com serviço de hospedagem de sites. O sucesso dessas empresas somado ao reconhecimento público do Projeto Genoma chamaram a atenção do grupo Votorantim. Foi assim que, em 2001, Reinach pediu as contas da universidade e se tornou diretor-executivo da Votorantim Ventures, braço do grupo voltado para o capital de risco, com aporte de US$ 300 milhões direcionados para novos negócios. Em 2003, graças à criação de empresas como Allelyx (Xylella ao contrário) e Canavialis, dedicadas a pesquisa e melhoria genética de laranja, eucalipto e cana-de-açúcar, Reinach foi eleito pela revista Scientific American um dos 50 principais responsáveis pelo desenvolvimento tecnológico no mundo, ao lado de nomes como o de Steve Jobs e de corporações como a Intel.

Mas não é só pelo empreendedorismo que Reinach deve ser visto como um elo. Desde 2004, o biólogo mantém uma coluna às quintas-feiras no jornal O Estado de S. Paulo na qual transforma pesquisas científicas cascudas em saborosas crônicas sobre a vida na Terra. No primeiro semestre deste ano, parte desses textos foi compilada no livro A Longa Marcha dos Grilos Canibais (Companhia das Letras). Em junho, com o encerramento de suas atividades na Votorantim Ventures, é no trabalho de aproximar a ciência do cotidiano das pessoas que Reinach agora pretende direcionar seus conhecimentos. Para a nova empreitada, alugou até um pequeno escritório a uma quadra de casa, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Foi lá, entre plásticos bolha e móveis que pertenceram a Guimarães Rosa (herança de sua mulher, a epidemiologista Beatriz Tess, neta de dona Aracy, viúva do autor de Grande Sertão Veredas) que o cientista-empresário-escritor inaugurou sua máquina de café espresso com o repórter da revista Audi durante a entrevista que segue.

Como você virou cronista?

Gosto do jeito simples como escrevem cientistas como Oliver Sacks e Stephen Jay Gould. Também leio muito artigos científicos. E sempre pensava: "Puxa, se as pessoas pudessem entender isso aqui. É tão interessante...". Para muita gente, a ciência é algo incompreensível, o que é uma pena. O cientista se preocupa com detalhes da vida que dizem respeito a todos nós, mas os estudos vêm revestidos de uma linguagem tão técnica que ninguém entende o alcance universal daquilo. Meu objetivo é mostrar que a ciência é um modo interessante de enxergar a vida.

Como anda o ensino de ciência nas escolas?

De modo geral, ela ainda é lecionada de forma dogmática, com o professor despejando fórmulas e teorias como se a ciência fosse uma espécie de religião. O bom professor precisa estimular o aluno a duvidar.

Você tem projetos para ajudar a corrigir esse ensino?

Há anos, muitos professores me perguntam se podem usar minhas crônicas para despertar o interesse dos alunos por ciência. Foi aí que tive a ideia, junto com a Companhia das Letras, de fazer workshops com professores da rede pública. Apresentei a proposta ao Instituto Votorantim, que cedeu o dinheiro, preparamos uma tabela de crônicas e agora a editora está organizando os encontros. Começaremos por Goiás e Rio de Janeiro. Essa é minha agenda para os próximos meses.

E pretende escrever algo maior do que crônicas?

Tenho vontade de escrever um livro sobre a história da relação do homem com a natureza. Este escritório é para isso. Faz um mês e meio apenas que saí da Votorantim. De 2001 para cá, criamos empresas de pesquisa genética bem-sucedidas que, no fim, foram vendidas. Devolvemos o dinheiro para os acionistas e eles acharam que não era o caso de fazer outro round de investimento. E assim acabou.

Sua carreira como cientista-empreendedor começou há 20 anos, quando criou a Genomic. Segundo a geneticista Lygia da Veiga Pereira, você conseguiu transpor "uma muralha da China" existente entre a universidade e o setor privado. Quem subiu essa muralha? Ela é universal. Quem desenvolve tecnologia geralmente acha que o cientista é um sujeito que delira. O cientista, por sua vez, acha o tecnólogo um intelectual de segunda classe, que só pensa em dinheiro. No Brasil, houve um fator agravante que foi a ditadura militar. Naquele período, a universidade se tornou um centro de resistência intelectual e, no processo, terminou se isolando do mundo. Criou-se, assim, um conflito ideológico que só agora começa a ser desmontado. Desde que criei a Genomic, fiquei transitando um bom tempo entre a universidade e o setor privado.

E o que fez você se decidir pela segunda opção?

No mesmo dia em que publicamos o sequenciamento da Xylella fastidiosa na Nature, abrimos o site do projeto para quem quisesse baixar os dados. Durante três dias, monitoramos os IPs de acesso, para saber quem faria download da sequência. Todas as grandes multinacionais farmacêuticas baixaram o arquivo. No Brasil? Ninguém se interessou. Semanas antes da publicação na Nature, eu havia escrito um artigo intitulado "Despreparados para o sucesso" [Folha de S.Paulo, 22/6/2000]. Nele, eu dizia que o Brasil corria o risco de produzir pesquisas científicas importantes sem usufruir dos benefícios econômicos disso simplesmente porque o país não tinha empresas de tecnologia que transformassem pesquisas científicas em produto. Meses depois, a Votorantim me propôs montar o tal fundo de capital de risco. A ideia caiu como uma luva no que eu acreditava.

A primeira crônica do seu livro fala dos efeitos do crescimento populacional. Como a tecnologia agrícola pode amenizar o impacto do homem sobre a Terra?

A população mundial cresceu três vezes nos últimos 50 anos. A previsão é que ela ainda duplique até 2050. A pressão mundial para produzir alimento vai sobrar para o Brasil, por causa da dimensão e de seus recursos naturais. Vejo três saídas. Uma é dizer "dane-se o mundo, vamos produzir apenas o possível". Outra é dizer"dane-se a floresta" e aumentar a área agrícola. Ou então, e é nessa saída que acredito, intensificar a tecnologia agrícola para produzir mais na mesma área. E isso quer dizer: investir em genética clássica, em transgênicos, em adubação química. Tudo o que as pessoas não gostam. Eu também prefiro comer um tomate orgânico em vez de um plantado com agrotóxico. Mas isso é um tipo de luxo. É como usar uma Montblanc em vez de Bic. E essa, definitivamente, não é uma questão para países superpopulosos como a índia, por exemplo.

Qual seria uma solução quando chegar a hora de o Brasil abastecer o mundo?

Para começar, o governo deveria criar uma só pasta para cuidar da agricultura e do meio ambiente. Se a gente fosse sério, teria só um ministro para isso. Porque o grande desafio é conciliar essas duas atividades. Hoje, fica uma pasta brigando com a outra. E não é bom pra ninguém que um dos dois vença.

Nos seus textos, você alterna otimismo e pessimismo em relação ao futuro da humanidade. Por quê?

Em uma das crônicas, mostro que perto de 100% das espécies que já viveram na Terra estão extintas. Então a chance de que a nossa também se extinga um dia é grande. Na melhor hipótese, o Homo sapiens surgiu há 1 milhão de anos. A história da vida no planeta tem 3 bilhões de anos. Isso quer dizer que surgimos há pouco tempo. Houve ser vivo que existiu durante 10 milhões de anos e depois se extinguiu. A gente não é especial, a gente não é nada. Não acho que isso seja pessimismo. É a realidade. Os mais catastróficos pensam que a próxima geração está condenada. Mas não vai ser assim. Muito se fala em aquecimento global atualmente. Mas, quando se olha pra trás, vemos que já houve vários aquecimentos globais. Hoje, acreditamos que é por causa da nossa atividade de queimar petróleo.

É ou não?

Que a Terra está aquecendo, todo mundo concorda. Que o CO2 está aumentando, também. Se a relação desses fatores é direta, ainda há polêmica. Em ciência, é muito difícil provar as relações de causa e efeito. É preciso fazer experimentos. No caso do aquecimento global, uns defendem que se deveria parar inteiramente a emissão de CO2 para ver se é ele mesmo a causa do aquecimento. Outros falam que só o fato de termos começado a aumentar a emissão de CO2 de dois séculos para cá já é o experimento.

Recentemente, uma revista de economia brasileira publicou uma reportagem extensa sobre os atuais parâmetros das grandes empresas. Segundo ela, o novo perfil do executivo é aquele capaz de se adaptar bem a qualquer lugar - e não adaptar o lugar a seu estilo. O curioso é que a palavra "adaptação" é um termo darwinista. Até onde é possível usar Darwin para falar de negócios? Muita gente na área de economia e sociologia aplica a teoria da seleção natural. Na analogia, empresas e grupos competiriam entre si tentando ocupar nichos de mercado da mesma forma que os animais o fazem. O paralelo, obviamente, não faz muito sentido. Entre os animais, existe uma base genética que rege tudo. Nas empresas não. Lá existem pessoas com vontades, histórias, consciências distintas. Um princípio básico que diferencia os humanos dos outros animais é a moral. Você não pode querer que o leão sinta culpa por ter comido a zebra. Usar os princípios do darwinismo nas relações profissionais seria pressupor que não existem regras nem moral, o que justificaria até matar e escravizar. Agora, se não levar a sério todas essas analogias, elas até podem ser úteis.

Como?

Eu acharia válido um curso sobre evolução para um administrador de empresas. As regras que regem as espécies são muito interessantes. Entre as abelhas, por exemplo, uma só se reproduz e todo o resto trabalha unicamente para o bem de todos. Para isso, abdicam da realização pessoal. O resultado é que a colmeia é um modelo muito bem-sucedido de sociedade. Já pensou a gente seguir esse modelo? [Risos. ] Agora vamos ver entre os leões: o mais forte manda. E mata se for preciso. É fácil perceber que não são mecanismos sociais aplicáveis aos humanos. Mas entender a diversidade das espécies abriria a mente das pessoas.

Não existe uma história de que você estava no seu sítio (em Piracaia) quando teve uma, digamos, sacada que resultou no sequenciamento da Xylella fastidiosa?

De certa forma. Na época, 1996 para 1997, havia uma discussão na Fapesp [Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] estimulada por José Fernando Perez, então diretor-científico, de que se deveria melhorar a área de biologia molecular no Brasil. Mas não se sabia ainda como fazer isso. Eu realmente estava no meu sítio quando veio a ideia de sequenciar um genoma. Na mesma hora, liguei para o Perez. Na época, essa história de sequenciamento genético ainda estava bem no início. O Craig [Venter, biólogo e empresário norte-americano, famoso por seu trabalho pioneiro de sequenciamento do genoma humano] já havia sequenciado duas ou três bactérias, e só.

Qual a novidade hoje em relação ao genoma humano?

Antes de mais nada, o genoma humano não existe. O termo é uma abstração. O que existe é o genoma de cada um. O primeiro genoma humano sequenciado era feito com o DNA de várias pessoas. O exercício atualmente é sequenciar indivíduos. Hoje, nos Estados Unidos, custa cerca de US$ 5 mil sequenciar o genoma de uma pessoa.

Qual vai ser a utilidade disso?

Sequenciar um genoma não quer dizer que você entenda o que está ali. E mais ou menos como eu entregar a você um livro com a receita da felicidade. O livro está nas suas mãos, mas, quando você abre, ele está escrito numa língua incompreensível. Estamos nessa fase em relação ao genoma humano. O esforço para entender o que cada gene quer dizer está longe de acabar. E, mesmo quando isso acontecer, nada vai ser definitivo. Porque somos um produto dos nossos genes misturados à ação do meio ambiente. No futuro, provavelmente sequenciaremos o genoma da pessoa assim que ela nasce, e descobriremos, por exemplo, que ela tem propensão a diabetes. Sabemos que existem fatores externos que podem desencadear esse problema de saúde. E aí serão feitas as recomendações. E só. Muita gente acha que vamos sequenciar o genoma de alguém e prever todo o seu futuro, mas não vai ser nada disso.

Existe uma grande busca da ciência hoje em dia?

Estamos chegando numa fase de humildade. Os cientistas começam a entender que não vamos ser eternos. Digamos que esteja havendo uma tomada de consciência de que não dá para escapar do determinismo biológico. Não existe nenhuma vantagem evolutiva você viver mais do que o tempo necessário para seus filhos ficarem independentes. Agora estamos entrando numa fase de reconhecimento e conformidade em ter uma vida melhor até o fim. E isso vem muito da compreensão do corpo humano a partir da genética.

Você conta em uma crônica da sua primeira experiência da morte, com 8 anos de idade. Saber que a vida é passageira incomoda você?

Não tenho nenhuma crença de que existe algum tipo de vida depois da morte. Acredito mesmo que não sobra nada. E por isso às vezes me dá certa pena em pensar que a gente acumula um monte de informação, de experiências e que tudo isso um dia vai desaparecer. É certa sensação de inutilidade existencial. Me pergunto: para que juntar tanta coisa? Agora mesmo estou montando uma enorme biblioteca em casa. E penso que posso ler tudo aquilo, mas no fim o que vai sobrar mesmo são os livros. Assim é a vida.