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Dinheiro Rural

O DNA do açúcar

Publicado em 01 maio 2005

Dono de uma fatia de US$ 3,1 bilhões na pauta de exportação brasileira, o setor sucroalcooleiro nacional viu sua popularidade aumentar 100% em função do Protocolo de Kyoto, que, entre outras coisas, dispõe sobre a necessidade de fontes energéticas renováveis em substituição ao petróleo, combustível de origem fóssil, considerado um dos responsáveis pelas mudanças climáticas no planeta. Neste contexto, o genoma da cana ganha uma importância ainda maior. Iniciado em 2000, a primeira parte do projeto, que custou US$ 3,5 milhões, foi concluída em 2003. Esta fase inicial envolveu 200 pesquisadores, a maioria do Estado de São Paulo, e consistiu no seqüenciamento de parte do material genético da planta. . o financiamento veio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e de diversas empresas do setor. "Foram identificados 30 mil genes. Desde aqueles relacionados ao florescimento da planta até os que respondem pela produção de açúcar e assimilação de nutrientes", declarou William Burnquist, coordenador do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), entidade financiada por diversas usinas, entre elas a Coopersucar.
Denominada Genoma Funcional da Cana, a segunda etapa do projeto, sob a coordenação c Gláucia Mendes Souza, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, teve início em agosto de 2004 e deve estar concluída até 2007. De posse dos genes identificados, o objetivo é fazer testes para conferir se a função atribuída na primeira etapa é realmente a função do gene. Para isso estão sendo construídos os microarrays, chips de genes que são colocados em lâminas de vidros e têm finalidade de identificar as estruturas r: nadas ao alto teor de sacarose na cana-de-açúcar. De acordo com a pesquisadora, "a idéia é reduzir o tempo necessário para desenvolver uma nova variedade de cana. Normalmente isso leva de 12 a 13 anos, mas a expectativa é o prazo". Além das unidades genéticas vinculadas ao acúmulo de açúcar, o projeto desvendar os genes resistentes ao estresse hídrico e também aqueles tolerantes a pragas e relacionados com a interação cana/bactérias ação de nitrogênio no solo.
O foco das pesquisas do Genoma Funcional está nos genes de 12 variedades de cana, desenvolvidas pelo CTC por meio de cruzamento espécies diferentes da planta. A meta dos pesquisadores é construir um microarray de 4.608 genes, fração genética mais relevante nos estudos comparativos, que devem ser feitos no tecido das folhas e caule em quatro períodos distintos: na pré-colheita e também no início, meio e fim de safra. Nessa tarefa, estão envolvidos cerca de 30 pesquisadores da USP São Paulo, Unicamp e Unesp Jaboticabal. Orçado R$ 1,6 milhão, o genoma funcional tem andamento do Programa de Inovação Tecnológica (PITE) da FAPESP — responsável por 50% da verba — e também do CTC e usina Centralcool, da cidade de Lucélia, os dois últimos contribuindo com R$ 800 mil cada.
Por trás das pesquisas, o interesse comercial é muito grande. "Se conseguirmos produzir mais açúcar na mesma área, vamos reduzir os custos com insumos e aumentar a quantia de álcool gerada", afirmou Burnquist. Outra vantagem é que o conhecimento de marcadores moleculares vinculados ao acúmulo de : sacarose possibilitará O desenvolvimento de plantas transgênicas, modificadas pela inserção desses genes relacionados às características procuradas. No entanto, a coordenadora do projeto salienta que não bastam os testes de estufa para comprovar a maior concentração de sacarose na cana; é necessário que a planta vá a campo. O jeito é torcer por resultados positivos, pois o setor sucroalcooleiro já movimenta anualmente cerca de R$ 40 bilhões e corresponde a 4% do Produto Interno Bruto (PIB).