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O dia em que Hitler salvou o Brasil de ser invadido pelos EUA

Publicado em 13 janeiro 2019

A visão dos livros de História sobre o Brasil na Segunda Guerra chega a ser infantil e esquizofrênica, Getúlio Vargas foi pressionado pelos EUA para se aliar contra Hitler, com direito a americanos afundando navios brasileiros para incriminar a inocente Alemanha, chega a ser cômico autores de esquerda passando pano para Vargas E Hitler, ambos inimigos ferrenhos do comunismo, mas a raiva dos EUA era maior.

Por isso os livros descrevem Vargas como um simpatizante do nazismo, o que ele era, mas a situação foi muito, muito mais complexa do que isso. Durante a Década de 1930 a Alemanha era o maior parceiro comercial do Brasil1, nós vendemos milhões de toneladas de algodão, borracha, alimentos, e quando os alemães começaram a pagar em deutschmarks inconversíveis foi estabelecido um sistema de trocas onde recebíamos produtos alemães como pagamento.

Isso não quer dizer que Getúlio abriu as portas do Brasil para Hitler, ele tinha prioridades, nazistas eram uns malucos lá do Sul que odiavam comunistas e acabavam colaborando com o governo, Vargas fez uma boa limpa e ganhou pontos com a Alemanha, identificando e deportando células subversivas (convenientemente) compostas por estrangeiros, em geral judeus e poloneses2.

O Governo Vargas como um todo tinha um projeto de selecionar a imigração, segundo os mais elevados ideais da Eugenia, isso significava limitar a entrada de raças indesejáveis. Inicialmente eram os japoneses mas depois passaram a mirar todos os grupos não-brancos e não-arianos, a idéia era promover o “branqueamento” da população brasileira3, “o imigrante ideal era branco, católico e apolítico”. Durante a Segunda Guerra estima-se que mais de 16 mil vistos tenham sido negados a judeus europeus, e os que conseguiam tinham que cumprir exigências como fazer um depósito polpudo no Banco do Brasil, para filtrar judeus endinheirados, o que compensaria miscigenar a nobre raça brasileira.

Sim, que conste nos autos que Getúlio Vargas era um filho da puta.

Dito isso, ele tentou manter uma política murista, negociando com a Alemanha E os Estados Unidos, mas não gostou quando percebeu que os nazistas haviam se tornado uma força considerável principalmente no Sul, Berlim despejava rios de dinheiro, havia mais de 1000 jornais pró-nazistas publicados no Brasil na época.

A rede de espiões alemães era enorme, havia várias funcionando em paralelo, raramente eram descobertos mas tinham suas baixas, o chefe de uma delas desistiu de ser nazista, se amasiou com uma mulata e sumiu. JURO, É VERDADE! Está documentado4.

Havia, sim, certa simpatia no governo Vargas para com Hitler, nossa doutrina militar e equipamentos eram majoritariamente alemães, e a oposição que faziam aos Estados Unidos os tornava bem-vistos nas forças armadas, mas a recíproca não era verdadeira, e o xodó de Hitler era mais embaixo, no caso a Argentina, que seria a grande beneficiada com a vitória germânica.

Os planos incluíam eliminar do mapa vários países, resumindo a América Latina a Brasil, Argentina, Chile, Nova Espanha e Guiana Francesa, como apurado em documentos obtidos em Buenos Aires pela espionagem brasileira. Sim, Clarice, tínhamos altos esquemas de espionagem também!

Mapa recolhido pela Inteligência Brasileira em Buenos Aires

A graça dos Nazistas acabou em 1938 quando o Governo proibiu o Partido Nazista de exercer suas atividades no Brasil. OK, a rigor ele proibia qualquer estrangeiro de exercer atividade ou se manifestar politicamente, e quando a Alemanha reclamou, Vargas explicou que não era nada contra nazistas especialmente, valia pra todos.

Nessa época o país vinha sofrendo bastante pressão de todos os lados, a Alemanha tinha dificuldade em comerciar com a gente, e os Estados Unidos queriam usar o Brasil como base avançada, quando a Guerra espirasse pro lado de cá do Atlântico. Fora Oswaldo Aranha ninguém aqui estava muito interessado em se aliar com os Estados Unidos, e a simpatia com a Alemanha por sua vez era só teórica, cada vez mais corroída por causa da espionagem, mas não corroída o suficiente.

Plano R de Romeu, digo, Rubber

Em Washington não havia nenhuma certeza de que o Brasil ficaria do lado dos mocinhos, e isso era essencial, um dos planos primordiais dos Estados Unidos, o Plano Rainbow apresentado em em 1939 previa o uso de bases no Nordeste para patrulhar o Atlântico e garantir o acesso à África, além de proteger o Atlântico Sul e abrir uma segunda passagem para o Pacífico.

Em 21 de Dezembro de 1941 foi apresentado o Joint Basic Plan for the Occupation of Northern Brazil [Joint], Serial 737, o Plano Rainbow, para invadir o Nordeste, uma região na época descrita como “Pobre, ignorada pelos políticos e virtualmente desprotegida5“, ainda bem que isso mudou!

O plano previa invadir com uma força aeronaval o aeroporto de Natal, além de tomar Salvador, Belém e Fernando de Noronha. Fortaleza e Recife também estavam na lista. Parte da Frota do Atlântico seria mobilizada para a operação, incluindo o encouraçado USS Texas e o Porta-Aviões USS Ranger.

USS Texas

A invasão contaria com tropas da 5a e 1a Divisões de Fuzileiros, da 1a Divisão de Infantaria e da 9a Divisão do exército, ensaios foram feitos em Janeiro de 1942, quando uma invasão em escala real foi testada em Cabo Henry, na Virgínia, que era bem semelhante geograficamente ao litoral brasileiro.

Foi um desastre.

A costa do Nordeste era péssima pra invasões. Para chegar em Belém teriam que atravessar quilômetros e quilômetros de rio, vulneráveis à artilharia nas ilhas próximas. Fortaleza não tem esse nome à toa e Recife não foi batizada assim por causa das florestas de sardinhas que cercam a região. Natal também não era nenhum presente, as praias eram ótimas pra desembarque mas bloqueadas por recifes que só o pessoal da região conhecia bem.

Uma força de invasão teria que desembarcar longe da costa, durante os ensaios os barcos de desembarque se perderam, vários afundaram e as tropas chegaram em terra dispersas, cansadas e miseráveis. Na avaliação final as tropas foram repelidas mesmo tendo uma vantagem de 4:1 em relação às forças defendendo a praia. Definitivamente o Dia B não seria tão bem-sucedido quanto o Dia D.

O Brasil por sua vez tinha 60 caças (biplanos) e 46 bombardeiros, velhinhos mas capazes de causar estrago na frota americana, que também não era topo de linha. O mais preocupante eram eras tropas de terra, somando as regiões que seriam invadidas o Brasil tinha mais de 17000 soldados, fora o que poderia ser mobilizado rapidamente do Rio de Janeiro e São Paulo, e com mais 24 ou 48 horas, do Sul, onde o grosso da tropa estava, vigiando os hermanos.

Em paralelo ao Plano Rubber, corriam negociações diplomáticas, e em Dezembro de 1941 mesmo os EUA conseguiram mandar 150 fuzileiros, disfarçados de mecânicos para garantir a segurança dos aviões americanos que pousavam em Recife Natal e Belém. Vargas topou, o que deu a Roosevelt a chave do enigma:

Ditadores detestam parecer perdedores, precisam sempre ter a última palavra e sair por cima. Isso resultou na Política de Boa Vizinhança, onde o Brasil era exaltado pelos Estados Unidos. Mais ainda, Vargas que não era bobo, sentiu pra que lado os ventos da Guerra estavam soprando, e mesmo mantendo-se neutro, ficou neutro do lado americano.

A Alemanha por sua vez começou uma campanha que tornaria nossa neutralidade insustentável. Em 22 de Março de 1941 atacam no Mediterrâneo o cargueiro Taubaté, resultado em 13 feridos e um morto. Em 13 de Junho o Siqueira Campos é alvejado por um submarino, que o aborda, inspeciona, fotografa documentos e o libera.

Em 28 de Janeiro de 1942, depois de muita negociação o Brasil rompe relações diplomáticas com o Eixo, o que está longe de ser uma declaração de guerra, mas não para Hitler. A temporada de caça estava aberta.

Em 16 de Fevereiro a Alemanha afunda o cargueiro Buarque, dia 18 é o Olinda, 25 o Cabedello, 7 de Março o Arabutan. 8 de Março o Cayró afunda com 53 mortos. Os U-Boats caçavam quase impunemente no Atlântico. Getúlio protelou até 22 de Agosto, mas a Alemanha continuou com os ataques, e a opinião pública exigia uma reação, e finalmente a Guerra foi declarada.

Aqui cabe um parêntese. UM MONTE de gente idiota ou mal-intencionada, em geral os dois repete a lenga-lenga de que os EUA afundaram navios brasileiros para forçar nossa entrada na Guerra. Isso é uma bobagem sem-tamanho. A documentação é extensa, os nazistas eram nazistas nessa coisa de registrar tudo, os diários de bordo batem, os comunicados interceptados conferem, as anotações da Kriegsmarine confirmam, as testemunhas que sobreviveram aos ataques confirmam, assim como os marinheiros alemães capturados7.

Espalhar teorias conspiratórias idiotas é um desrespeito aos 34 navios afundados e 1081 mortos, que na época não eram só números mas sim parentes, filhos e amigos.

Essa conspiração aliás nem era necessária. Desde Dezembro de 1941 os EUA já faziam patrulhas anti-submarino saindo de Natal, isso é 3 dias depois do ataque a Pearl Harbor. O Brasil já estava inclinado a apoiar os Aliados, e ao protelar ao máximo o comprometimento, Vargas conseguiu dos americanos o equivalente moderno a US$4,9 bilhões em empréstimos, investimentos e equipamentos militares6.

Não havia realmente ganho prático pro Brasil entrar oficialmente na Guerra, mas Hitler se precipitou. Se tivesse insistido na linha diplomática conseguiria protelar a construção das bases aeronavais americanas, e talvez até conseguisse que o Brasil limitasse as atividades ofensivas partindo do nosso território.

Para azar dele, Hitler decidiu que “este país mestiço e corrupto” não valia o esforço e liberou o ataque a navios brasileiros mesmo o país sendo neutro. As únicas embarcações seguras eram as argentinas e uruguaias. No final das contas 11 submarinos do Eixo foram afundados nas costas brasileiras, inclusive o infame U-507, que mandou pra vala 20 navios aliados, 6 deles brasileiros.

Conclusão

A entrada do Brasil na Guerra era totalmente desnecessária. Poderíamos perfeitamente viver uma falsa neutralidade pró-Aliados, do mesmo jeito que a Argentina vivia uma falsa neutralidade pró-eixo, mas Hitler, em sua incapacidade de enxergar a longo prazo, se precipitou, e com isso não só evitou uma invasão ianque no Nordeste, como convenceu Getúlio Vargas, um dos caras mais errados de todos os tempos, a fazer a coisa certa.

Fontes:

Análise econômica da parceria Brasil – Alemanha no contexto das relações entre o Mercosul e a União Européia – Frederico Lamego de Teixeira Soares – Rev. bras. polít. int. vol.43 no.2 Brasília July/Dec. 2000A ‘conspiração’ judaico-comunista no Brasil de Vargas: um episódio de perseguição aos judeus progressistas – Gustavo Barreto – Dois séculos de imigração no Brasil pela imprensaOs indesejáveis – Carlos Haag – Revista Pesquisa FAPESP – Edição 201, nov. 2012Crônica de Uma Guerra Secreta – Sergio Corrêa da Costa – Editora RecordThe Tango War: The Struggle for the Hearts, Minds and Riches of Latin America – Mary Jo McConahayIn Search of the Amazon: Brazil, the United States, and the Nature of a Region – Seth GarfieldAlemanha afundou o Shangri-lá – Ricardo Bonalume Neto – Folha de são Paulo, 5/8/2001