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Público (Portugal)

"O desemprego não é uma doença infecto-contagiosa"

Publicado em 26 março 2012

Por Ana Cristina Pereira

Agrada-lhe que os vizinhos não se tenham dado conta da sua situação crítica ao ler o PÚBLICO. "Continuo a sair e a entrar em casa como se tivesse trabalho. Neste país quem é desempregado é ostracizado. Quantas mais dificuldades temos, pior somos tratados... em qualquer lado. [Sinto- -o] todos os dias. O desemprego não é um vírus, uma doença infecto-contagiosa!"

Não é só o rendimento que vai com o emprego. "Os amigos também desaparecem", diz Sandra Fonseca, membro de outra das quatro famílias acompanhadas pelo PÚBLICO. A rapariga de 30 anos, mãe de dois miúdos, perdeu "quase tudo" com o fecho do snack-bar que explorava, perto de Faro. A família desmembrou-se. Os laços de solidariedade que julgava serem eternos desataram-se. "Procuro, desesperadamente, um novo trabalho."

Sandra ainda teve uma oportunidade: um trabalho precário numa empresa de limpezas. Ganhava pouco mais do que o ordenado mínimo, mas, com os 212 euros de pensão de invalidez do companheiro, Luciano, o orçamento familiar "compunha- -se". Três meses depois, perdeu-o.

Desempregado, o mecânico "andava muito deprimido". Um dia, Sandra sugeriu-lhe que a acompanhasse. Ela foi arrumar os quartos. Ele esperou-a perto da piscina. O calor apertava. Ele arriscou: tirou a roupa, saltou para a água. E esse "crime" resultou numa pena dura: ela foi despedida. Era Verão. Foram meses terríveis. Só há pouco arranjou umas limpezas numa fábrica a 2,80 euros por hora. "Não chego a ganhar o ordenado mínimo."

Manuela não culpa quem está à margem do mercado de trabalho, como um pedaço de comida na beira do prato. Sabe que o desemprego bateu recordes: no final de 2011, 405,5 mil pessoas estavam desempregadas há mais de um ano.

No final do ano, a taxa de desemprego atingiu os 14%. Nessa estatística cabiam 771 mil pessoas. Só que a realidade era mais dramática. Havia já então 203 mil pessoas que pretendiam trabalhar, mas não tinham procurado emprego nas três semanas anteriores ao inquérito do Instituto Nacional de Estatística (inactivos disponíveis), e 83 mil que tinham desistido de procurar por acharem que não tinham lugar no mercado de trabalho ou que não havia empregos disponíveis (inactivos desencorajados). Com eles, o número de desempregados alcançava 1,057 milhões.

À medida que o fenómeno vai afectando as várias faixas etárias nos diversos estratos sociais, Manuela sente que o estigma dá sinais de diminuir: "Nós só sabemos dar valor e ser justos quando sentimos na pele." Sérgio Aires, responsável pelo Fórum não Governamental para a Inclusão Social, partilha a teoria que a vida dela constrói, mas remete-a para o futuro.

Nos início dos anos 1980, recorda o sociólogo que dirige o Observatório de Luta contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, ser toxicodependente era "altamente penalizante". Com o tempo, o fenómeno ganhou uma dimensão tão grande que não há quem não tenha um familiar ou um amigo ou um conhecido afectado. "Começou- -se a relativizar. Com a pobreza pode acontecer algo assim. As pessoas vão perceber que não é um problema individual, que não é uma questão de más opções ou de falta de sorte; é um problema estrutural."

As notícias não são boas. Os analistas já dizem que 2011 terá sido, apenas, um aperitivo. Este ano, o Governo e a troika estão a prever uma recessão mais profunda (-3,3%, nas últimas previsões da Comissão Europeia). Adivinha-se menos consumo, menos investimento, mais desemprego.

"Nada é seguro"
A sensação "de que nada é seguro ou certo" instalou-se até na casa de José e Clara Lourenço, uma família de classe média alta residente em Coimbra. Sem cederem a luxos, viviam despreocupadamente. Agora usam a palavra "medo" para se referirem ao futuro, embora a corrijam, embaraçados. Estão sempre a conter-se nas queixas. "Por pudor."

Professores no topo da carreira, aos 57 e 59 anos têm uma noção muito clara de que são "privilegiados". Para além das duas filhas, Clara e José apoiam financeiramente uma pessoa que está desempregada há mais de um ano. Isso permite-lhes ver de perto como é destruidor o desespero de quem fica sem trabalho depois dos 45 anos, rodeado por credores insensíveis ao facto de as dívidas terem sido contraídas quando a pobreza era uma coisa que só acontecia aos outros. Perderam qualidade de vida. O corte no vencimento e nos subsídios chegou a dobrar. Não escaparam aos aumentos do IVA, como os outros, e acreditam que "o pior ainda está para vir". "O fim dos subsídios de Natal e de férias representa menos quatro ordenados no fim do ano", nota José. Vão-se adaptando. Esqueceram as poupanças e mudaram os hábitos. Trocaram produtos mais caros pelos de marca branca, o vinho pela cerveja, a ida ao restaurante pela refeição caseira, aprenderam a folhear livros sem os comprar, a espaçar a ida ao cabeleireiro e a compra do jornal desportivo... Não dramatizam, dizem que "é uma questão de disciplina".

Não foi sempre a descer. As filhas estão bem. Sofia, de 32 anos, e Inês, de 27, são mulheres confiantes, com esperança no futuro, orgulhosas das suas conquistas. Com um senão: fazem parte dos novos emigrantes. Sofia, especialista em nutrição, trabalha na Liga Dinamarquesa contra o Cancro. E a irmã, Inês, dedica-se às artes plásticas. Há um ano ainda se identificava como membro da "geração à rasca". Estava de saída para fazer o mestrado no Brasil. Acaba de ganhar uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo [FAPESP].

Souberam que o Governo apontou a porta de saída. Não lhes parece, porém, que a emigração seja um caminho que serve para todos. Não é só o trabalho, que é mais exigente, mais duro. "De repente ficamos sós e sem passado: as nossas referências, para os outros, não têm significado", descreve Inês.

Para compreender o pudor da família Lourenço, basta olhar as outras três famílias. Para o seu presente. O seu futuro?

Sandra e o namorado dormem numa barraca. Recorrem à ajuda alimentar do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA). Há pouco, responderam a um anúncio que pedia um casal para cuidar de uma quinta no Alentejo. Pediram dinheiro emprestado para a viagem. Foram à entrevista. A conversa, "aparentemente, correu bem". O proprietário daria uma resposta dentro de dias: nada.

Manuela, no Porto, encontra ainda menos oportunidades. "A idade, que pode ser uma carta mais, não é, é exactamente o inverso", insurge-se. "Se não conseguir trabalho, o que me espera? Para já, redução do tempo de vida." Alimenta-se pior. Não se trata. Consome grande parte do seu tempo a pensar na sobrevivência: "Como é que eu vou pagar isto?" O desgaste é imenso. Vai buscar uma réstia de esperança ao blogue que acaba de abrir para expor as peças que lhe saem das mãos: Mimos de Crochet (http: /mimosdecrochet.blogspot.com/). "Eu continuo a acordar todos os dias a acreditar." Umas vezes mais, outras menos, claro.

Quem sabe as voltas que a vida dá? Há um ano, Adriana Dimas, 48 anos, contemplava desolada a sua produção hortícola no Alentejo. O produto do seu trabalho fora destruído pelo excesso de chuva. Teve de vender as estufas. Ainda pensou em ir para Lisboa trabalhar, mas não foi preciso. "Encontrei uns patrões que são umas pessoas extraordinárias", recorda . Aconselharam-na a não vender as máquinas e os equipamentos agrícolas. O tempo não se pôs de feição. O anseio pela água leva-a a acordar durante a noite, sonhando talvez: "Está chovendo." Levanta-se. É só o vento a abanar a ramada das árvores. É só o vento...

Com Ana Rute Faria, Carlos Dias, Graça Barbosa Ribeiro, Idálio Revez