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Ciência na rua

O desastre climático chegou e não irá embora sozinho

Publicado em 12 agosto 2021

Novo relatório do IPCC reafirma a necessidade urgente de medidas para mitigar o aquecimento global

O novo relatório do grupo de trabalho 1 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado no início da semana, reforça as conclusões de sua versão anterior e traz mais detalhes. Sem uma redução drástica e urgente de emissões de gases de efeito estufa, a temperatura da superfície do planeta continuará subindo, com resultados trágicos, como já se pode observar nas recentes inundações na Alemanha e na China, na seca prolongada em partes da América do Sul, nos recordes de temperatura no Canadá e na Itália. Pior: algumas alterações climáticas causadas pela ação humana não serão revertidas por séculos ou milênios.

O que o IPCC faz é basicamente compilar milhares de trabalhos sobre mudanças globais publicados ao longo dos anos para explicar o que está acontecendo com o clima e o que é preciso fazer para melhorar a situação. Para isso, conta com centenas de pesquisadores de alto nível (explicamos melhor nessa reportagem de 2019). Esse grupo de trabalho se concentra no estudo das bases científicas físicas das mudanças climáticas. Há ainda o grupo 2, que aborda impactos, adaptações e vulnerabilidade, o grupo 3, que trata de mitigação das mudanças climáticas, e uma força-tarefa que busca subsidiar os inventários nacionais de emissões de gases de efeito estufa, como explica o pesquisador Jean Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), na abertura dessa conversa promovida pela Agência FAPESP.

Logo em seu início, o sumário para tomadores de decisões (em PDF aqui), uma versão condensada de 40 páginas do relatório, afirma peremptoriamente: “é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra”. Em um trabalho acumulado de décadas realizado coletivamente por pesquisadores do mundo inteiro, baseado em probabilidades abordadas de forma muito cuidadosa, o termo “inequívoco” salta aos olhos e não deixa margem para relativizações negacionistas, que, embora persistam, não podem mais ser levadas em consideração por quem quiser tratar o tema de forma séria.

O sumário começa abordando o estado atual do clima. A concentração de gases de efeito estufa na atmosfera vem aumentando desde 1750 por ação da humanidade. De 2011 (cujas medições constam no relatório anterior) para cá, essa concentração seguiu aumentando. A temperatura em cada uma das quatro décadas passadas foi sucessivamente maior do que em qualquer década antes de 1850. Atualmente, a temperatura média do planeta está 1,1 °C acima do registrado em 1850 (mais ou menos quando começa a Revolução Industrial), mas sobre os continentes ela já está 1,6 °C mais alta, ou seja, acima do limite estabelecido como aceitável e utilizado como referência no Acordo de Paris (que fala em manter o aquecimento abaixo de 2 °C, e se possível abaixo de 1,5 °C). E isso com a poluição de aerossóis emitidos também pela humanidade mascarando em 0,5°C o real aumento, como destacou no vídeo mencionado o pesquisador Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e autor líder do sexto capítulo do relatório. Os aerossóis refletem parte da radiação solar, atenuando sua influência no efeito estufa – a quantificação desse mascaramento é uma novidade do atual relatório. Vale lembrar que o efeito estufa é uma espécie de cobertor que permite que o calor entre na atmosfera e não saia, o que permitiu que a Terra tivesse um clima propício à vida – o problema é que, desde que começamos a queimar carvão e petróleo, a temperatura passou a subir demais.

Ainda na primeira parte, o documento segue descrevendo como a ação humana, com diferentes graus de probabilidade (provável, muito provável ou quase certo) alterou os regimes de chuvas, o derretimento de geleiras, a temperatura e o nível dos oceanos, além de empurrar as zonas climáticas cada vez mais para perto dos polos.

A seguir, temos outra informação assustadora: a escala e a velocidade das mudanças recentes no sistema climático como um todo e o estado atual de muitos de seus aspectos não têm precedentes ao longo de muitos séculos ou muitos milênios. O documento destaca, entre outras coisas, que as concentrações de dióxido de carbono (CO 2)em 2019 estavam mais altas do que em qualquer momento dos últimos 2 milhões de anos, e as concentrações de metano (NH 4) e óxido nitroso (N2O) eram as mais altas em 800 mil anos. De 1970 para cá, nenhum período de 50 anos teve temperatura média tão alta nos últimos 2 mil anos. A quantidade gelo no oceano Ártico é a menor desde 1850. Já o aumento do nível do mar, de 1900 para cá, foi o mais rápido em 3 mil anos. E a acidez dos oceanos nos últimos 2 mil anos aumentou de forma inédita e contrária à tendência de diminuição dos últimos 50 milhões de anos. Vale dizer que todos os dados mencionados neste texto do Ciência na Rua estão classificados pelo IPCC como de alta ou muito alta confiança, ou seja, obtidos com estimativas bastante precisas – explicitaremos caso algum dado de tenha confiança média ou baixa.

A alteração climática causada pela humanidade, prossegue o sumário, já está afetando muitos extremos climáticos e meteorológicos pelo globo. As evidências de mudanças nesses extremos e, em especial, da influência humana neles, se fortaleceram desde o relatório anterior. Desde os anos 1950, ondas de calor se tornaram mais frequentes e mais intensas, enquanto ondas de frio ficaram mais raras e mais suaves. A frequência e a intensidade de chuvas pesadas também cresceram desde os anos 1950 sobre continentes e ilhas, provavelmente tendo a ação humana como fator responsável por mais de 50% dessas alterações.

O grupo de trabalho projetou cinco cenários para o futuro com diferentes taxas de emissão de gases de efeito estufa. No pior deles, as emissões dobrariam até 2050; no melhor, começaríamos a retirar esses gases da atmosfera pouco depois de 2050. Mesmo no cenário com menos emissões, a temperatura seguiria aumentando até o meio do século e, em 2100, totalizaria um aumento entre 1 °C e 1,8 °C, tendo 1,4 °C como melhor estimativa (sempre tendo o período de 1850 a 1900 como referência). Nos outros quatro cenários, a melhor estimativa superaria o limite 1,5 °C até 2100 e, em três deles, muito provavelmente superaria os 2 °C.

Essas estimativas deixam clara a urgência da necessidade de reduzirmos significativamente as emissões de gases de efeito estufa para evitar um estrago ainda maior. Todo aumento na temperatura tem impactos nos extremos climáticos, explica o documento. Por exemplo, a cada 0,5 °C, crescem a intensidade e a frequência de ondas de calor, chuvas fortes e secas em algumas regiões.

Outra previsão importante no relatório é que, em cenários com emissões crescentes de CO 2, o oceano e o solo, que até aqui têm segurado a velocidade da acumulação do gás na atmosfera, passarão a ser menos efetivos na captura de carbono.

Uma das mais impactantes constatações presentes no sumário é de que muitas mudanças causadas por emissões passadas e futuras de gases de efeito estufa são irreversíveis por séculos ou milênios. O nível médio do mar, por exemplo, seguirá aumentando mesmo no cenário projetado com menos emissões, como se vê na figura d (até 2100) e na figura e (até 2300) da imagem abaixo.

O documento traz ponderações sobre como fatores naturais modularão as mudanças causadas pela humanidade, em especial em escalas regionais e de curto prazo, questão importante a se levar em conta para nos planejarmos para a toda a gama de alterações possíveis. Entre 1998 e 2012, por exemplo, variações na radiação solar e erupções vulcânicas (refletindo a radiação) mascararam o efeito da ação humana, que seguiu firme. Com base em dados paleoclimáticos, é provável que ao menos uma grande erupção aconteça neste século. Os fatores naturais podem também amplificar os efeitos da ação humana.

Outra previsão notável é que todas as regiões experimentarão mudanças múltiplas e simultâneas, e quanto mais aumente a temperatura, mais os efeitos se espalharão pelo globo. Há ainda um alerta de que as mudanças consideradas pouco prováveis – mudanças abruptas na circulação oceânica e colapso de camadas de gelo, por exemplo – não podem ser descartadas e se tornam mais prováveis de acordo com o aumento da temperatura. Eventos naturais raros e imprevisíveis, como uma sequência de erupções vulcânicas, não foram considerados no relatório.

Por fim, o sumário passa à questão de limitar a mudança climática futura, embora este grupo de trabalho não proponha políticas específicas, limitando-se a explicar o que está acontecendo, o que deve acontecer e o que é necessário fazer em termos físicos (“é preciso diminuir a emissão” é diferente de “é recomendável retirar de circulação todos os automóveis com motor a combustão em cinco anos”). Nesse sentido, o documento afirma que limitar o aquecimento global induzido pela humanidade requer a limitação de emissões cumulativas de CO 2 para que chegue perto de zero e a redução de outros gases de efeito estufa, destacando que a redução de forma rápida, forte e continuada de emissões de CH 4 também limitaria o aquecimento proveniente de poluição de aerossois e melhoraria a qualidade do ar.

Uma novidade interessante desse relatório é um atlas interativo, em que se pode simular cenários com diferentes variáveis em várias regiões.

Perto do fim da conversa realizada pela Agência FAPESP, Paulo Artaxo brinca que a data limite para começarmos a reduzir as emissões “na verdade, foi ontem”, defendendo que estamos 20 anos atrasados na implementação e que isso depende dos tomadores de decisão. Da parte da ciência, o alerta já foi dado, repetido e gritado aos quatro ventos. Eles continuarão trabalhando, claro, há muito a avançar no quesito formas de mitigação, por exemplo. Mas a bola agora está de fato com os gestores de todo o mundo e com a sociedade como um todo.

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