Notícia

Agência C&T (MCTI)

O desafio de estar pronto para o futuro

Publicado em 01 janeiro 2008

Cetea comemora 25 anos. Neste período, o Centro de Tecnologia de Embalagem tornou-se referência na pesquisa de embalagem na América Latina e participou de forma decisiva para elevar o padrão do mercado brasileiro de embalagem.

A semente desta frutífera instituição de pesquisa, que faz parte do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), de Campinas (SP), foi preparada quando um pesquisador do instituto, Luis Fernando Ceribelli Madi, foi fazer seu mestrado na Escola de Embalagem da Universidade de Michigan, nos EUA, tornando-se o primeiro mestre em embalagens do País.

Na ocasião, Madi entrou em contato e tornou-se o coordenador de um projeto que visava à implantação de um centro de pesquisa em embalagens no México. Paralelamente, Madi elaborou um projeto semelhante ao mexicano para o Brasil, que começou a ser implantado em 1982, com a construção da área que abriga atualmente o Cetea, em Campinas (SP). "A experiência em Michigan ajudou muito, trouxemos professores e mais de 50 consultores para o Brasil, eu fiquei algum tempo como professor adjunto em Michigan, nossos pesquisadores acabaram sendo treinados em vários países do mundo, tudo isso representou uma boa abertura para a inovação", contou Madi sobre esse início.

Desde então, já são 35 anos. "Eu entrei no Cetea, que ainda não tinha esse nome, em 2 de janeiro de 1973. Eu saí em junho de 1999 quando atuava como coordenador, para assumir a diretoria do Ital, meu cargo atual, e continuo como secretário do conselho do Cetea até hoje", explica.

Neste momento em que o instituto completa 25 anos, Madi encara o grande desafio de ajudar a prepará-lo para as futuras demandas do setor de embalagem, seus usuários e consumidores.

O projeto Cetea 2015 faz uma projeção das necessidades futuras dos setores produtivo e usuário de embalagem, e do governamental, com o intuito de antecipar-se ao mercado e criar infra-estrutura condizente com as pesquisas de ponta que estão sendo realizadas em áreas como a nanotecnologia, meio ambiente e mesmo biotecnologia. A importância estratégica da embalagem aumenta continuamente e para atender as exigências da demanda interna e a necessidade de inserção competitiva das embalagens e produtos brasileiros no mercado internacional, é preciso se reestruturar.

A revista embanews conversou com Luis Madi para conhecer um pouco mais sobre as realizações do Cerea, e saber sobre a condição da pesquisa no Brasil. Ele é também presidente da ABIPTI - Associação Brasileira das Instituições de Pesquisas Tecnológicas, há 4 anos.


Embanews: O que mudou nestes 25 anos de existência do Cetea para o setor de embalagem no Brasil?

Luis Madi: Vivendo há praticamente 35 anos dentro do setor de embalagem, e acompanhando o seu desenvolvimento, que era bastante limitado em 1970, observamos um crescimento muito forte em vários segmentos da embalagem, como o de embalagens plásticas, de papelão ondulado, laminadas, metálicas, vidro. Posso dizer que em quase todos os campos houve uma relevante participação do Cetea. O instituto desenvolveu junto à ABPO toda uma série de embalagens de papelão ondula do para hortaliças e frutas in natura. A garrafa de cerveja, foi desenvolvida pela equipe do Cetea para todas as cervejarias, e hoje tem uma segurança muito maior do que no passado. Acompanhou todo o desenvolvimento da lata eletrossoldada, a identificação do verniz mais apropriado para a vida útil do produto. A parte de embalagem plástica, nem se fala, o PET, a multicamada, a flexível termo processada. Na área ambiental, o Cetea é a única instituição do país que tem um projeto de análise do ciclo de vida com eu banco de dados nacional.

Um outro modo de se observar estes 25 anos é através da composição da indústria de embalagem no Brasil. Havia naquele início um componente nacional muito forte, que hoje ainda tem presença razoável, porém, temos também um vetor internacional que aumenta de forma crescente, aproximando o Brasil do mercado global. Outro componente importante para a atual feição da indústria de embalagem, que no entanto o Cetea não trabalha diretamente, é o design, e em especial, o desenho gráfico. A criatividade do design brasileiro representou um avanço fantástico, vide os prêmios que o Brasil vêm conquistando em várias premiações internacionais.


Embanews: E para o Cetea, o que mudou?

Luis Madi: Toda essa evolução vivida pelo setor de embalagem acabou por gerar um sistema muito mais complexo do que o existente no passado, e dentro dele, acredito que o Cetea foi uma das poucas instituições que conseguiu focar uma área tecnológica e trazer para sua esfera os novos desenvolvimentos, a inovação, em um modelo de gestão também inovador. A implantação do Modelo Associativo e do Conselho Consultivo, em 1988, foi um marco, porque não se falava nisso à época. O Modelo Associativo permitiu a consolidação e formalização da participação do setor produtivo na manutenção do Centro e o Conselho Consultivo possibilitou criar um elo oficial entre o Cetea e entidades governamentais estaduais e federais, as associações e as empresas dos setores fabricante e usuário de embalagem.

Mas, eu não tenho dúvidas de que até 2015, 2020 esse modelo terá que ser transformado se quiser mos ainda estar na ponta. Por isso, foi criado o projeto Cerca 2015, com o objetivo de fortalecer o suporte tecnológico à inovação dentro da indústria de embalagem no Brasil, e consolidar a integração com as empresas de embalagem, as entidades setoriais e o governo.


Embanews: No que consiste o projeto Cetea 2015? Ele irá contemplar as necessidades futuras da indústria de embalagem e de seus usuários?

Luis Madi: O projeto Cerca 2015 é dividido em três partes: visualiza o atual atendimento, que tem poucos gargalos. Os atendimentos futuros, não tão complexos, que ainda conseguiremos suprir com alguns ajustes, e atendimentos mais estratégicos, por exemplo, em nanotecnologia, meio ambiente, e até biotecnologia, que se tornarão verdadeiros gargalos se não começarmos a nos preparar agora.

O Cerca 2015 contempla as futuras necessidades, mas sua implantação não depende apenas do próprio instituto. Estamos falando em investimentos de porte, e envolve uma série de áreas governamentais, como Finep, Fapesp, CNPQ, governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Agricultura. É uma mudança que a Secretaria de Desenvolvimento do Governo do Estado de São Paulo, através do secretário-adjunto de Desenvolvimento, Carlos Américo Pacheco, já está discutindo. As perspectivas são positivas, pois temos uma boa experiência; o próprio Cetea nasceu de um projeto assim, integrado.


Embanews: O Cetea trabalha a capacitação dos profissionais e pesquisadores do setor?

Luis Madi: O Cetea irá realizar oito eventos em 2008, em diversos segmentos, além dos treinamentos para pequenos grupos de pessoas de determinada empresa, chamado in-company, realizados no Irai e no Cetea. A área de capacitação e treinamento é considerada muito estratégica, e é aquela que mais tem crescido como demanda espontânea no Ital.


Embanews: Houve um aumento de recursos para a pesquisa no Brasil?

Luis Madi. Muito pouco, apesar de que vale aqui uma consideração especial, no nosso caso, em 2008, o Ital/Cetea vai obter pela primeira vez em muitos anos um investimento do governo do Esta do de São Paulo para a modernização institucional e de infra-estrutura laboratorial. O Cetea já sai na frente por ser a única instituição, a única unidade da Secretaria da Agricultura a ter a ISO 17025 (laboratorial), acreditada pelo Inmetro.


Embanews: Quais são ainda os desafios a serem vencidos pelo Cetea como instituição?

Luis Madi: O principal desafio é consolidar a integração das entidades setoriais e das empresas privadas nas atividades do Cetea, principalmente via Modelo Associativo e Conselho Consultivo. Um outro ponto estratégico é ter um modelo jurídico administrativo, não só do Cetea, como também de nossos institutos de pesquisa, que sejam mais adequados à demanda. E o terceiro, é continuar sendo líder, porque ser líder é uma coisa, e permanecer líder é outra diferente, ainda mais por vários anos seguidos; isso é um desafio. O Cerca, de 2000 a 2007, duplicou o seu tamanho cm volume de trabalho e arrecadação. Se ele triplicar esses números, a administração vai se tornar mais complexa, na gestão de pessoas, de equipes e tudo o mais.


Embanews: Acredita que a questão ambiental deverá mudar a maneira como a indústria de embalagem vai passar a trabalhar?

Luis Madi: Eu não tenho dúvidas de que sim, que a conscientização ambiental vai modificar não somente a indústria de embalagem, mas também a indústria de alimentos, de insumos, e sua relação com o consumidor, além de nossos hábitos alimentares, usos e costumes.


Embanews: Quais devem ser as principais mudanças que a questão ambiental deverá acarretar para a indústria de embalagem?

Luis Madi: O grande aspecto aí é a preservação de recursos materiais, de energia, água, a reutilização, a reciclagem. O que está sendo chamado de embalagem mais adequada ao meio ambiente é algo que a indústria de embalagem já fazia, por um outro motivo: a redução de custo. Hoje, ela faz isso não apenas visando o menor custo, mas buscando também menor consumo de água, de energia, de geração de resíduos, uma série de outros fatores que causam impacto sobre a sociedade no sentido de melhorar sua percepção sobre determinada embalagem em relação ao meio ambiente.


Embanews: A embalagem brasileira está preparada para atender o aumento das exportações de produtos manufaturados no Brasil?

Luis Madi Acredito que o Brasil conta com um parque industrial bastante versátil na área de embalagem e essa versatilidade também se estenda para a matéria-prima utilizada e para as diversas empresas de diferentes áreas que atuam no mercado brasileiro. É possível fazer a embalagem mais sofisticada, mas o problema é o custo.

Quando se consegue melhorar o padrão social, a renda per capita da população, o mercado passa a solicitar embalagens mais sofisticadas. E com isso, atingimos também um patamar compatível com os níveis de exigências para a exportação, que é o quadro atual em que se move a embalagem brasileira.


Embanews: Como o senhor vê a evolução do setor de pesquisa no Brasil?

Luis Madi. O governo do Estado de São Paulo propôs um crescimento na área de pesquisa de 30% para 2008 em relação a 2007. Se olharmos para os investimentos que estão sendo feitos na área de pesquisa e tecnologia, acredito que o Brasil tenda a conquistar uma consolidação muito boa neste campo. A questão é preparar as instituições para que estejam atualizadas quando chegar o momento. Essa necessidade de atualização é considerada um ponto crítico para muitos institutos, porque sem isso, tendem a perder sua relevância dentro do cenário nacional.

Embanews: O que é necessário para que isso não aconteça?

Luis Madi: É complexo. É preciso que se preparem em termos organizacionais, na colaboração das equipes participantes, é preciso que busquem parcerias estratégicas junto a outras instituições e outros órgãos. Nós estamos debatendo no Ital para nos prepararmos para os próximos anos.