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Revista Amazônia

O desafio de articular a ciência e a indústria

Publicado em 27 junho 2017

Por CLaudia Izique, da Agência FAPESP

A Universidade de São Paulo (USP) reuniu destacados pesquisadores, líderes de associações ligadas à academia e à indústria e representantes de agências de fomento, entre outros, no workshop “Ciência e Indústria – Construindo Novos Caminhos em Tempos Desafiadores”, em 19 de junho, no Instituto de Estudos Avançados (IEA).

O encontro teve como objetivo identificar estratégias que tornem mais estreitas e eficientes a relação entre a USP e a indústria, considerando que essa parceria pode abrir novas oportunidades de financiamento à pesquisa básica, aprimorar a formação de alunos e promover maior absorção de egressos pela indústria.

“A USP forma anualmente 14 mil jovens que contribuem para o desenvolvimento científico e tecnológico e está entre as 100 melhores do mundo em termos de empregabilidade. E estes números impressionam”, afirmou o reitor da USP, Marco Antonio Zago. Do ponto de vista de democratização do ingresso, o percentual de alunos de escolas públicas cresceu de 28% para 37% de estudantes. “E vamos tomar decisões para ter um progresso ainda maior”, adiantou.

No que se refere à relação com o setor produtivo, ele sublinhou, a universidade conta, por exemplo, com uma agência de inovação, a Inova USP. Deu como exemplos o contrato firmado entre três unidades da USP e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e o projeto de implantação de um “laboratório sem fronteiras” multidisciplinar, que vai operar em rede para buscar “soluções inovadoras” – de games a microrganismos –, envolvendo diferentes unidades da universidade com forte interação com “o mundo fora da universidade”. Ressalvou, entretanto: “As universidades brasileiras são guetos: precisamos ouvir mais a sociedade”.

Financiamento à pesquisa

Os debates tiveram como moldura o cenário econômico e a situação de crise no financiamento à pesquisa no país. “Para aproximar a ciência e a indústria é preciso ter ciência e ter indústria”, disse Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC). No caso da ciência, o problema está na descontinuidade do financiamento à pesquisa, exceto em São Paulo, ele ressalvou, onde pesquisadores têm o apoio sistemático e constante da FAPESP. Nos estados em que faltam recursos às Fundações de Amparo à Pesquisa a situação é “dramática”. Citou o exemplo do Rio de Janeiro, onde os “laboratórios estão sendo esvaziados por falta de recursos, com pesquisadores deixando o país”.

Os números dimensionam a crise: “O orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para 2017 é de R$ 3,2 bilhões, sendo R$ 700 milhões para as Comunicações. Se compararmos com o orçamento de 2010, de R$ 9,6 bilhões, temos que os recursos atuais para a CT&I representam pouco mais de um quarto do limite de empenho de 2010. E aí está a crise”, resumiu Davidovich. “Fazer inovação com universidades com laboratórios fechados e estudantes indo embora é projeto destinado ao fracasso.”

Do lado das empresas, ele avalia, as dificuldades se revelam no baixo percentual de investimentos das empresas em pesquisa e desenvolvimento (P&D), o que acaba por comprometer a balança comercial: a participação de produtos industrializados de alta e média tecnologia decresce “sistematicamente” desde 2011.

Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), acrescentou que os marcos legais ainda dificultam o relacionamento entre universidades e empresas. Deu o exemplo do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei 13.243), sancionado em 11 de janeiro de 2016 com os oito vetos “com caráter imediatistas e visão míope” da relação entre ciência e setor produtivo, voltados apenas para uma “potencial economia de recursos”.

O senador Cristovam Buarque, da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado, advertiu: “Somos um país imediatista e ciência e tecnologia são investimentos de longo prazo”.

Inovação e competitividade

Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, atribui os baixos indicadores de inovação no país principalmente à queda da participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB). “As empresas inovam por necessidade de competição.”

Ressalvando que a cooperação entre universidades e empresas “não substitui o esforço das empresas em P&D”, Pacheco elencou formas de cooperação reconhecidas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “A principal forma de relacionamento é o fluxo de pessoas que saem da universidade para trabalhar na empresa.” Os modelos ganham mais sofisticação até chegarem à implementação de laboratórios conjuntos. “Mas o sucesso sempre dependerá de políticas de estímulo.”

A FAPESP, ele exemplificou, tem dois programas bem-sucedidos de apoio à inovação empresarial que promovem, ao mesmo tempo, a interação entre as universidades, os institutos de pesquisas e o setor produtivo: os programas Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e o Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

“O PIPE está fazendo 20 anos”, enfatizou. Nesse período, o programa aportou recursos em 1.100 empresas por meio de apoio a 1.700 projetos. “A geografia do PIPE está ligada à das universidades, ainda que o programa já esteja presente em 150 municípios.”

Os projetos apoiados cobrem áreas diversas: de controle biológico de pragas a controle de processos, passando por internet das coisas, segurança de dados, desenvolvimento de fármacos, entre outros. “A taxa de mortalidade das empresas apoiadas é baixo, de 8%, e uma parte grande está exportando”, contou Pacheco.

O PITE, por sua vez, é um projeto de pesquisa cooperativa com grandes empresas – Embraer, por exemplo – sobre temas por elas propostos. No âmbito do PITE, em parceria com a BG/Shell, GlaxoSmithKlein, Natura, entre outras, a FAPESP já criou cinco Centros de Pesquisa em Engenharia com sede em universidades selecionadas por meio de edital. “São projetos de 10 anos, com revisão no terceiro e sétimo ano, e forte participação da empresa na gestão do empreendimento.”

Em 11 de maio, durante a Feira Internacional de Máquinas-Ferramentas e Automação Industrial (Expomafe), a FAPESP lançou um convite às empresas – ou consórcios de empresas – para juntas implementarem um centro de manufatura avançada. “Fizemos um cardápio com uma relação de temas que vai de manufatura aditiva à inteligência artificial. Trata-se da primeira consulta aberta da Fundação ao setor privado”, sublinhou (Para mais informações leia agencia.fapesp.br/25278/)

O modelo adotado pela Embrapii para a promoção da inovação na indústria, em parceria com universidades e instituições de ciência e tecnologia (ICTs), também tem apresentado resultados promissores. Concebida pela Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) – movimento que reúne mais de 150 lideranças empresariais, ligado à Confederação Nacional da Indústria (CNI) –, a Embrapii foi constituída como uma Organização Social qualificada pelo MCTIC e pelo Ministério da Educação. “Os projetos de indústria são desenvolvidos por ICTs selecionadas por competência num contrato de seis anos”, afirmou Jorge Almeida Guimarães, diretor-presidente da Embrapii.

“Já somamos 140 empresas e chegaremos a 200”, ele prevê. “Temos parceria com a FAPESP, com o Senai, a Coordenação para o Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e estamos em negociação com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), já que somos uma espécie de pré-vestibular para as empresas se qualificarem para financiamentos mais altos.”

Aversão ao risco

A qualidade dos recursos humanos e da ciência produzida pelas universidades brasileiras – além da demanda da indústria brasileira por laboratórios industriais – foi fundamental na decisão da IBM de instalar no país uma unidade da IBM Research em 2010, afirmou Claudio Pinhanez, líder do Social Data Analytics Group. “Entramos para competir com as universidades pelos recursos para a inovação”, ele reconheceu.

Sete anos depois, com campus em São Paulo e no Rio de Janeiro, a IBM Research conta com 70 doutores – “contratamos um por mês nos últimos anos” –, mais de 400 papers publicados e várias patentes depositadas nos Estados Unidos.

Nesse espaço de tempo, entretanto, a situação, até então favorável, mudou. “Há movimentos cíclicos na economia. Encontramos dificuldades de trabalhar com empresas que não tinham laboratório de pesquisa e também houve redução nos incentivos governamentais. Descobrimos que não poderíamos ficar presos no Brasil”, ele afirma. Hoje, a IBM Research Brasil trabalha com empresas em Portugal, Espanha e Canadá.

“E por que é difícil vender ciência para empresas no Brasil?”, ele indagou. “Falamos com mais de 200 empresas e aprendemos: a competição aqui é baixa e o incentivo à inovação é limitado. Poucas grandes competem globalmente. O que mais dificulta é o custo do juro”, afirmou Pinhanez, salientando que a falta de estímulo para investimentos está mais relacionada à aversão ao risco do que à demora para recuperar o investimento. “Existe um problema cultural no nível executivo que é o excesso de foco no curto prazo e no retorno do investimento. E projeto de inovação não funciona assim.”

Agência FAPESP