Notícia

Jornal do Brasil

O Craque da internet

Publicado em 27 junho 1995

Por HÉLIO MUNIZ
Um dia desses Tadao Takahashi passou por uma banca de revistas e viu a seguinte manchete num jornal sensacionalista do Rio: "Já estão comendo mulheres pela Internet". Foi aí que ele, depois de comprar o tal jornal, teve a certeza de estar fazendo um bom trabalho. Afinal de contas, hoje em dia, só se fala de futebol e Internet. E é Tadao, 44 anos, engenheiro de computação, que comanda o meio de campo dessa rede misteriosa no Brasil. Filho de japoneses, capaz de falar sobre rock, política e contar histórias engraçadas enquanto explica o que é essa danada dessa rede, Tadao Takahashi é o coordenador da RNP (Rede Nacional de Pesquisas) órgão encarregado de implantar a Internet no Brasil. Com o jeito quieto, ele ê capaz de jogadas rápidas para driblar os pesquisadores que reclamam do uso comercial da grande rede. Mas admite que vai sentir saudades dos primeiros tempos, da fase guerrilheira da Internet. "É que somos todos hippies velhos disfarçados, temos saudade de Woodstock... ", medita. É, pode ser. Mas essa mistura de hippie velho e neoliberal quer que a Internet tenha uso misto. Ou seja: possa atender tão bem aos cientistas e pesquisadores como àqueles que querem ganhar uns trocados via computador. Para isso, o projeto da RNP tem duas fases. No dia 3 de julho, o governo vai definir as regras do jogo e editar manuais que ensinarão às pessoas a mexer com essa novidade transformadora. De julho a setembro, será uma fase de treinos táticos: cursos para formar operadores de Internet, incentivo a empresas e definição de normas. O jogo para valer começa em setembro. E ai, o craque japonês garante que a tendência é o governo e a RNP saírem de cena, para deixar a bola rolar sozinha. - Por que o Brasil inteiro está falando em Internet? - É o assunto mais quente da imprensa mundial. É como o vírus Ebola, ainda não apareceu nenhum aqui, mas falamos nele toda semana porque é um tema mundial. A outra explicação, eu diria que é o momento pelo qual passa o Brasil, essa abertura para o exterior. Que não é uma abertura meramente comercial. É bom ver nos jornais essa discussão toda de quebra de monopólio de telecomunicações. E a Internet mexe com o imaginário das pessoas, todo mundo falando que é uma coisa que pode gerar negócios milionários e mudar o relacionamento das pessoas. - O que uma escola ganha ao se ligar na Internet? - Há dois tipos de uso. O administrativo, onde você pode melhorar a qualidade dos professores através da rede, ligando as escolas a centros educacionais, a órgãos do MEC ou às secretarias estaduais e municipais de educação. Só esse lado administrativo já é uma senhora revolução. Imagine o seguinte: um garoto está vendo a televisão e tem lá o capitão brasileiro preso na Bósnia. Se ele for um garoto curioso que acredita na escola, vai fazer o seguinte: vai chegar no outro dia na escola e perguntar: "Professora, onde é a Bósnia"? Na situação brasileira, a probabilidade de uma professora média, no Rio de Janeiro, saber onde é a Bósnia é quase zero. Primeiro porque o próprio ensino de geografia no Brasil é muito precário. E também porque nós não temos material atualizado. Mesmo que essa professora seja um gênio, ela aprendeu que existe um troço chamado Iugoslávia, todos os mapas que ela tem são assim. Uma rede pode ser útil para os professores acessarem serviços de apoio a ensino, com dados sobre geografia, matemática, línguas... Ai a professora acessa esse banco de dados e procura a palavra-chave Bósnia. Então surge na tela uma página sobre a Bósnia e a professora pode chegar na sala e mostrar para o Juquinha, o aluno malcriado, que ela sabe onde é a Bósnia. A idéia de que o professor do interior tenha acesso à informação e que isso custe pouco já é uma coisa preciosa. - Como o senhor vê o uso comercial da Internet? - Eu não entendo que seja função da RNP administrar uma Internet comercial. Nosso papel nesse momento é o de alavancar o uso comercial da Rede. E até, se for preciso, criar alguns protótipos de uso comercial da Internet. Nós não vamos nos perpetuar e colocar como nossa missão instalar uma infra-estrutura comercial e operacional. Isso está fora de questão, não é papel da RNP. Aliás, não é papel do governo e não interessa à gente. Mas em termos concretos, para incentivar o surgimento da Internet comercial é até possível que a RNP tenha de fomentar algumas atividades interessantes. Se começarem a surgir uma série de provedores, ou seja, uma série de empresas que queiram criar produtos para a Internet, oferecendo serviços especializados e acessíveis a uma clientela via rede, ótimo. Se não surgirem essas empresas, è o caso de ligarmos duas grandes livrarias na rede e dizermos: "Qualquer livro que você queira dessas livrarias, pode ser comprado via rede. E essas lojas estão ligadas a outras grandes livrarias no mundo inteiro, viu?" Desse jeito, nós mostramos como pode ser feito o uso comercial da Rede. Se for necessário, a gente vai pensar e induzir algumas aplicações comerciais da Net. Mas só como demonstração. O ideal seria que não tivéssemos que fazer nada. Nosso papel será o de um gigoló tecnológico. Apresentamos os interessados um ao outro, acendemos uma vela e esperamos que algo aconteça. - Qual o cenário que o senhor imagina para o Brasil em 97, quando o projeto da Internet deverá estar concluído? - Eu diria o seguinte: em 97, a gente deverá ter, pelo menos, um tronco nacional, que será o da RNP, operando em cada capital do país. Acho que vai haver uns dois ou três troncos desses, especialmente nas regiões mais desenvolvidas do país, como São Paulo, Rio, Brasília. Acredito que verei pedaços de redes, que não serão nacionais, mas que vão cumprir um importante papel regional. Do ponto de vista global, para sustentar a Internet no Brasil, a gente vai estar numa situação bastante boa, não ideal, mas bastante boa. Chuto que vamos ter um leque grande de provedores, de fornecedores de acesso de informações, incluindo grandes empresas privadas de venda de produtos por mala direta. As agências noticiosas e empresas de informações devem todas ter um serviço operando em 97. Quem não tiver vai enfrentar um problema de sobrevivência para a virada do século. Do ponto de vista do usuário final, do cidadão que vai estar assinando, eu chutaria que teremos alguma coisa da ordem de, deixa eu ver... de 100 a 150 mil assinantes. Eu escuto gente falando em milhões de assinantes e sorrio. Isso não é realista. - Muita gente não consegue programar videocassete e mexer com caixas automáticas de bancos. Será que essas pessoas vão conseguir lidar com a Internet? - Já em agosto a RNP vai fomentar cursos no país, de forma que, era 96, seja um negócio interessante ter um curso, promover a disseminação das redes. O Sebrae pode fazer isso, as universidades, o Senai e o Senac também. Os próprios cursos básicos de informática podem montar cursos de uso da Internet. Daqui a um ano, veremos anúncios no jornal de cursos no Senac, a preços baixos, que ensinarão as pessoas a mexerem na rede... - Qual será o investimento necessário para essa primeira fase da Internet brasileira? - Até 3 de julho, estamos preparando todo tipo de informações para distribuí-las a quem quiser entrar na rede ou apenas saber o que é a Internet. O grande custo começa em setembro. Porque em setembro começam a operar parte das linhas que compõem o tronco da rede que deve estar no ar. Teremos os equipamentos que foram comprados ou conveniados e ai você tem uma operação que custa em torno de US$ 2 milhões por mês. A gente tem que imaginar que ao longo de um ano a partir de setembro, a gente vai gastar algo em torno de US$ 30 milhões. Metade vai ser gasto em linhas telefônicas e o resto será empregado em computadores, programas, a operação propriamente dita. - Quem vai pagar esse investimento? - Essa é uma operação conjunta que envolve o ministério de Ciência e Tecnologia, as indústrias, o ministério das Comunicações, e por ai vai. - A Internet é um bom negócio? - Depende. Primeiro, não é um negócio tão bom quanto é nos Estados Unidos. Nos EUA, o mercado já é muito grande, você não precisa correr atrás dele. Se você fizer um bom produto, certamente pegará uma fatiazinha desse bolo. No Brasil não é assim. Ser excessivamente pioneiro aqui pode ser um problema. E tem mais: o capital inicial necessário no Brasil é maior do que nos EUA, por causa de linhas telefônicas. Lá você aluga uma linha por US$ 20 ao mês e repassa o custo ao usuário. Aqui você tem que comprar a linha e, dependendo da área, é uma coisa que custa caro. Mas, a médio e longo prazo eu acho que será um grande negócio. - Dê um exemplo de uso comercial da Internet. - Nos Estados Unidos, uma pessoa resolveu montar uma floricultura nacional. Ela tinha uma loja só, mas cadastrou todas as outras do país e fingiu que isso compunha uma floricultura. Só que tinha presença em todas as cidades americanas e fez propaganda dizendo "entregamos seu buquê em duas horas em qualquer lugar do país". E ai isso foi anunciado via Internet e foi um sucesso. O poder de uma rede é que você aumenta a audiência para a qual você quer transmitir a mensagem. - No Rio, quando chove, não se consegue falar no telefone. As companhias telefônicas estaduais não são um obstáculo para a Internet? - Isso pode atrapalhar consideravelmente. A mídia final da rede, ou seja, quando as informações saem do computador servidor e chegam até à maquina do usuário final, esse trecho tem que ser feito através de linha telefônica. E essas linhas são de qualidade precária no país. Certamente isso tem um efeito retardador. Quando eu disse um número de 100 a 150 mil assinantes em 97, isso se deve, em parte, à qualidade das linhas telefônicas. - Nos Estados Unidos, a Rede é muito usada por grupos de extrema direita. Isso pode acontecer aqui? - Pode. Grupos de esquerda, direita, pornografia... Mas isso é um sintoma de que o pessoal está se falando. Até para a gente discordar é preciso falar. Não temos nenhum mecanismo no qual todos os grupos se sintam representados. Esse tipo de radicalismo em cima da rede é inevitável, porque você vai ter todos os segmentos representados. No Brasil hoje, quem está muito atuante em rede são as ONGS, que cresceram num paradigma de resistência ao governo. E a RNP sempre achou que ONG fosse tão educacional quanto a escola. É só ver a presença do Ibase na Internet. É até possível que no Brasil, a esquerda, ou o que quer que signifique esquerda, entre primeiro na rede e ocupe espaço. Nos EUA e na Europa, os conservadores entraram primeiro porque eles vêem mais o eleitorado como mercado e percebem mais a Internet como mídia. Com a pornografia acontece a mesma coisa. É inevitável e tem até seu lado bom: significa que a rede evoluiu a esse ponto. - Dizem que a Internet vai transformar todos os negócios do mundo e todas as relações entre as pessoas. Isso vai acontecer? - Vai acontecer uma revolução que é uma seqüência de revoluções. Como o rádio, por exemplo. Eu diria que o impacto da Internet não vai ser tão grande quanto o impacto da televisão. A rede é uma conseqüência de uma soma de tecnologias. A Rede é só um fator de integração, não quer dizer que as pessoas não vão mais sair de casa, paquerar a moça da padaria, conversar na pracinha. Você sempre pode desligar aquela tralha toda. Acho que uma rede pode até exacerbar o nacionalismo. O sentimento de pertencer a um mundo totalmente globalizado \ai ser compensado pelo orgulho de ser parte de uma nação, uma região, uma aldeia. Será um mundo novo? Claro. Mas não será tão diferente desse, será uma evolução natural. Essa história de que, quando a gente usa correio eletrônico deixa de viajar, é um mito. Desde que eu comecei a usar e-mail, viajo mais. O número de pessoas que eu conheço aumentou e o número de assuntos importantes, que tem de ser decididos em reunião, cresceu também.