Notícia

Jornal do Brasil

O corte das bolsas de pós-graduação

Publicado em 19 novembro 1997

Por SEGEN FARID ESTEFEN*
O anunciado corte de bolsas de ensino e pesquisa na pós-graduação, no âmbito do pacote de ajustes das finanças do governo, coloca em situação vulnerável os avanços obtidos pelo país na pós-graduação desde a década de 60. A reconhecida liderança nacional no âmbito da América Latina no ensino e pesquisa de pós-graduação está diretamente associada a um eficiente sistema de bolsa gerido pela Capes e pelo CNPq. Este sistema tem propiciado a formação de recursos humanos e o desenvolvimento de pesquisas, em regime de dedicação integral, que representa para a sociedade melhor qualificação dos que ingressam nos quadros docentes das universidades e nas empresas públicas e privadas, garantindo para o país um nível mínimo de competitividade, que o coloca no bloco dos países que ainda podem almejar uma inserção futura entre as nações mais desenvolvidas. Neste momento torna-se fundamental relembrarmos alguns exemplos dos benefícios que o investimento na pesquisa científica trouxe ao país, como os resultados obtidos na exploração de petróleo em águas profundas, colocando-o próximo da auto-suficiência em petróleo e gerando uma economia em divisas ao Brasil de mais de US$ 100 bilhões. Um trabalho pioneiro que começou há mais de 20 anos, através de uma parceria firmada entre a Petrobrás e a Coppe/UFRJ. O progresso do setor agrícola, por exemplo, também contou com o apoio da pesquisa científica. Um trabalho conjunto de pesquisadores da UFRJ e Embrapa propiciou ao Brasil tornar-se um dos maiores produtores de soja do mundo, além de viabilizar a produção agrícola no cerrado, o que permitiu o desenvolvimento de inúmeras regiões do país. Todavia, deve-se ter certeza que a pós-graduação no Brasil ainda não está consolidada. O corte de bolsas trará como conseqüência imediata a redução do número de pesquisas afetadas pela interrupção da entrada de novos bolsistas. Trata-se de uma medida que não se restringe apenas à diminuição das atividades de pós-graduação, mas causa enorme prejuízo para a nação devido à perda dos investimentos previamente realizados nas linhas de pesquisa em andamento. A perda de continuidade nas atividades de pós-graduação não pode ser tratada no bojo de uma recessão temporária. A interrupção abrupta de algumas atividades de pesquisa, representa, de fato, a renúncia do país à busca do conhecimento e à capacidade de acompanhar o acelerado ritmo do avanço científico e tecnológico no mundo. Injetar novamente o recurso interrompido não significará voltar ao patamar atual. A perda é irrecuperável. Portanto, os US$ 100 milhões almejados pelos cortes das bolsas de ensino e pesquisa representam, de fato, desperdiçar os esforços e recursos já investidos, da ordem de bilhões de reais, além de jogar o país na contramão da competição internacional. * Diretor acadêmico da Coppe