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Esquerda Online

O Coração Rebelde de Maradona

Publicado em 03 dezembro 2020

Por Esquerda Online

Encontro com o povo de Nápoles

Infância pobre e sucesso no futebol argentino

Diego Armando Maradona cresceu em Villa Fiorito, uma favela de Buenos Aires, onde não havia asfalto, água potável e esgoto. Ele foi o quinto filho de Dom Diego Maradona e Dalma Salvadora Franco. A numerosa família morava em uma pequena casa, que em breve ganharia novos membros. O craque contou que nunca passou fome, embora às vezes pudesse haver menos comida disponível na mesa. Nessas ocasiões, a sua mãe simulava que estava com dor no estômago para não comer e as crianças poderem se alimentar melhor. Também acontecia de um irmão reduzir o seu consumo em prol de outro, especialmente faminto. Por essa razão, acreditava que a gente daquele reduto miserável tivesse uma dignidade superior. Maradona já afirmou que, inicialmente, as suas duas maiores motivações como atleta eram conseguir uma nova casa para os pais e não ter de voltar a morar em Villa Fiorito. De fato, a diretoria do Argentino Juniors alugou para o futebolista de apenas 15 anos uma habitação mais espaçosa (que hoje é um museu), a 10 minutos do estádio que seria rebatizado com o seu nome. De 1976 a 1981, Diego marcou 116 gols (quase um por partida) com a camisa de cor vermelha daquele clube fundado por anarquistas e socialistas, o que explica a identidade operária da agremiação (GONZÁLEZ, 2019). Enquanto era vinculado ao Argentino Juniors, ocorreram a sua estreia pela seleção argentina principal (em 1977, aos 16 anos) e a conquista do Campeonato Mundial Juvenil da FIFA de 1979, em Tóquio, tendo sido o capitão da “albiceleste” e o melhor jogador do certame. Há os que defendem a ideia de que o seu estilo de jogo altamente aguerrido e competitivo foi moldado pela experiência da pobreza extrema, que o levou à responsabilidade de melhorar o padrão de vida de seus familiares quando ainda era um adolescente.

O segundo time pelo qual jogou foi o Boca Juniors, da região portuária de Buenos Aires, símbolo da população pobre, dos trabalhadores, dos artistas e dos imigrantes da capital. Essa realidade contribuiu para a sua forte identificação com o clube, dono de uma das melhores equipes da Argentina em 1981, ao lado do River Plate, que lhe oferecera um contrato mais vantajoso do ponto de vista financeiro, justificando a sua alcunha de Los Millonarios. Porém, para reafirmar a sua identidade xeneize, Maradona declarava que se interessava mais pela glória do que pelo dinheiro. O jogador se despediu do Boca em 1982, pelo qual conquistou o Campeonato Argentino de Futebol no ano anterior e marcou 28 gols em 40 partidas, feitos que fizeram dele um dos maiores ídolos da torcida em todos os tempos, apesar da curta duração do seu empréstimo ao clube. Treze anos mais tarde, “El pibe de oro” cumpriu a promessa de voltar ao seu time de coração, onde ficou por mais duas temporadas, sem o sucesso de outrora. Dessa vez, assinalou sete tentos em um total de 29 partidas.

Frustração na Catalunha

Batalha do Bernabéu, briga generalizada na última partida pelo Barcelona.

Maradona foi contratado por US$ 7,2 milhões pelo Barcelona, que o transformou no jogador de mais caro do mundo. A compra de seu passe se relacionava com o projeto catalão de tomar do Real Madrid a hegemonia do futebol espanhol. Mas a experiencia do jovem craque na Catalunha foi por ele mesmo caracterizada como desastrosa. Inicialmente, o astro contraiu uma hepatite viral; em seguida, fraturou o maléolo fibular do tornozelo esquerdo e o ligamento colateral, em decorrência de uma falta cometida por Goikoetxea, conhecido como o “açougueiro de Bilbao”; e, finalmente, iniciou uma batalha campal na final da Copa do Rei, em 1984, chamada de “A Batalha do Bernabéu”. A sua atitude foi motivada pelo aborrecimento com a perda do título em casa para o Atlético de Bilbao, pelas entradas desleais praticadas por aquele mesmo jogador que quase encerrara a sua carreira no ano anterior, e pela provocação perpetrada por Miguel Ángel Sola, que ecoou os insultos xenófobos vindos da arquibancada (STEIN, 2015). Até a grande imprensa espanhola tratava Maradona como “sudaca”, uma expressão pejorativa para os sul-americanos em tal país.

Segundo o craque, esse preconceituoso procedimento dos jornalistas contribuía para a normalização da violência de que era vítima nos gramados. Apesar de ter visitado o Rei Juan Carlos para lhe pedir desculpas pelo episódio, em uma ação nada rebelde para tentar reabilitar a sua imagem junto à opinião pública, a Real Federação Espanhola de Futebol o suspendeu pelo período de três meses. Essa punição foi determinante para a sua despedida da Espanha, pela porta dos fundos. Se dentro de campo respondeu aos insultos xenófobos dos adversários com socos, pontapés e joelhadas, fora dele a não conformidade com o tipo de comportamento previsto para atletas de alto rendimento foi vista no seu aproveitamento da noite barcelonense. Sobre esse assunto, disse aos repórteres que continuaria a fazer o que quisesse, em resposta às críticas do presidente do clube que o contratara a peso de ouro. Maradona marcou 38 gols nos 58 jogos que disputou com a camisa do Barcelona, e conquistou uma Copa do Rei, uma Copa da Liga Espanhola, e uma Supercopa da Espanha, em 1983, todas elas competições de menor expressão no país ibérico.

Encontro com o povo de Nápoles

Apresentação de Maradona no Estádio San Paolo, em 5 de julho de 1984.

Sem dinheiro devido à punição recebida na Espanha, o astro foi parar no Napoli, com o objetivo declarado de encontrar a paz nesse clube fundado no Sul da Itália, a região mais desprovida do país. A sua equipe era limitada e se mantinha com dificuldade na primeira divisão do Campeonato Italiano de Futebol. Tratava-se da contraditória presença do mais caro jogador em uma modesta instituição desportiva. O presidente Corrado Ferlaino teve de mobilizar a população e os políticos locais para realizar a sua contratação pelo valor recorde de US$ 10,48 milhões. Os intelectuais criticaram o dirigente porque havia muita pobreza em Nápoles e aquela operação financeira parecia injusta. Mas Maradona foi recebido com festa por 65 mil pessoas que mal acreditavam na presença dessa estrela mundial no estádio San Paolo (que vai ser rebatizado com o nome do futebolista). Ele percebeu que o povo da cidade o amava e vivia com a prioridade de assistir aos jogos do time nos domingos. Houve o especial encontro entre o atleta que se identificava com as camadas menos favorecidas, dada a sua própria história de vida, e a pobre população sulista, que acreditava ser quase impossível vencer as equipes do Norte rico e industrializado.

O passado de dificuldades de Maradona ganhou novo sentido naquela província cujos habitantes eram alvo do preconceito das populações das regiões desenvolvidas do país. Na percepção do craque, os napolitanos eram os africanos da Itália, e isso o levou a defender com orgulho o seu clube diante dos ataques promovidos pelos nortistas. Faixas estendidas nas arquibancadas denunciavam que os Partenopei eram chamados de o “Esgoto da Itália” pelos torcedores da Inter de Milão, e de “Portadores de cólera” pelos fãs do Milan. Se não bastasse, enquanto os seguidores da Juventus pediam “Apartheid”, os do Verona recomendavam aos seus rivais sulistas: “Lavem-se”. O jogador sentia que representava uma desprezada parte da Itália, e essa luta contra a injustiça o incendiava dentro de campo. Dizia que as torcidas do Norte eram todas racistas e qualificava esse comportamento como “asqueroso”. A vitória do Napoli sobre a poderosa Juventus, de Turim, em novembro de 1985, depois de um jejum de sete anos sem vencê-la, foi intensamente comemorada em Nápoles. Até a Física teria dificuldade para explicar o gol de falta de Maradona nessa partida, que foi um marco da idolatria ao futebolista em Nápoles (BONSANTI, 2016). O time dessa cidade terminou a temporada 1985-1986 em uma honrosa terceira posição, ao passo que, na anterior, alcançara a oitava colocação, também com o bom desempenho do seu protagonista.

Glória nos gramados mexicanos

A fama do argentino foi potencializada na Copa do Mundo de 1986, no México. A lenda de Maradona foi em grande parte tributária do jogo eliminatório contra a Inglaterra, válido pelas quartas de finais, em que marcou os dois gols mais famosos de sua carreira: o primeiro com o uso da mão, em uma improvável disputa pelo alto com o goleiro inglês, e o segundo em jogada individual iniciada na altura do círculo central do campo. Um tento ficou associado à expressão “A mão de Deus”, inventada pelo próprio atleta, enquanto o outro foi batizado de “O gol do século”, com a contribuição da Federação Internacional de Futebol (FIFA). A partida em questão se revestiu de especial sentido devido à recente derrota da Argentina na Guerra das Malvinas para aquele país britânico. O craque confessou que o seu gol feito com a mão lhe rendeu uma “linda” sensação, por significar uma revanche simbólica contra os ingleses. Era como se tivesse roubado a carteira de um inglês, disse certa vez, com ironia. Mais tarde, o príncipe Charles até tentou conhecê-lo, mas o argentino não aceitou apertar aquela mão “suja de sangue”, em suas próprias palavras, ditas a Emir Kusturica, que o enfocou em uma cinebiografia de 2008.

Essas frases não autorizam a conclusão de que Maradona entrou em campo em nome de um nacionalismo estéril que o impedia de questionar as razões de um conflito bélico incentivado pela então decadente ditadura argentina, que pretendia recuperar o prestígio junto a sua base social mais sensível ao discurso patriótico. Isso porque o técnico Carlos Bilardo comunicou aos seus atletas que eles deveriam jogar em memória daqueles que haviam sido enviados para morrer na guerra, um discurso cujo sentido crítico foi entendido pelo craque, que o repetia em entrevistas.

Mas a multidão que recepcionou a seleção argentina no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, tratava Maradona como o salvador na nação. Tratar-se-ia de um “cabecita negra”, como tal oriundo da miséria, que lutou contra as adversidades do cotidiano e conseguiu vencer, transformando a sua realidade e a de todo um país. O citado termo de origem racista, no qual se misturam significados de cor da pele e de origem social, era geralmente reivindicado por Maradona quando tentava explicar por que a elite argentina não o levava a sério. Seja como for, o seu incrível talento e a sua engenhosidade haviam possibilitado o triunfo de um país altamente endividado sobre potências econômicas mundiais, lembrando que a final foi disputada contra a Alemanha. Nesses tempos, a sua grande influência política foi o colega de seleção Jorge Valdano, levando-se em consideração que até então o maior ídolo do futebol argentino pouco se manifestava em tais termos (RODRIGUES, 2020).

Era de ouro na Itália

Exaltado como o melhor jogador da Copa do Mundo, e já considerado superior a Pelé pelos seus conterrâneos, Maradona continuou a conquistar títulos importantes na Itália. A sua transformação em um semideus de Nápoles foi possibilitada pela mudança que operou na mentalidade local, no sentido de que vencer os clubes ricos no Norte ainda era pouco diante do objetivo de vencer o Campeonato Italiano de Futebol. E na primeira vez que o Napoli o conquistou, na temporada 1986-1987, o povo levou às ruas da cidade uma comemoração que durou cerca de dois meses. Para resumir os sentimentos transbordados em tal ocasião, uma faixa foi estendida na entrada do cemitério, com os dizeres: “Vocês não sabem o que perderam”. O jogador argentino se tornou um personagem sagrado naquela província em que as tradições e as crenças religiosas estão presentes. Muitos habitantes tinham uma foto do craque na colada na parede, acima da cama e próxima à imagem do santo de devoção. Em uma pintura feita por populares, o patrono da cidade, San Gennaro, embalava o futebolista como se faz a um bebê. O caso mais impressionante foi o de uma enfermeira que colheu o seu sangue para um exame e depois o levou em uma ampola para ser exposto na Igreja de San Gennaro, em uma referência ao milagre da liquefação do sangue, que caracteriza o culto ao tal padroeiro.

Na temporada em que ganhou pela primeira vez o tão festejado Scudetto (1986-1987), Maradona também foi campeão da menos prestigiada Copa Itália. Ele ainda venceu a Copa UEFA (1988-1989), de dimensão continental, e o Campeonato Italiano de Futebol pela segunda vez (1989-1990). Maradona ficou sete anos no time napolitano, período em que marcou 115 gols, mas também viveu momentos pouco gloriosos ali. Em 1989, o craque manifestou a Ferlaino a sua vontade de sair do Napoli, mas não foi atendido pelo dirigente, que garantiu ter recebido propostas do Milan, da Juventus e do Olympique de Marseille, cujo presidente teria oferecido um cheque em branco para comprar o astro (LOBO, 2017). Faltava-lhe motivação esportiva após tantas conquistas, para além do fato de que a sua relação com a cidade estava saturada, tendo em vista a idolatria dos fãs, que afetara o seu comportamento, e a perseguição dos paparazzi, com os quais vinha entrando em conflito. Por fim, estava cada vez mais difícil esconder a dependência da cocaína, fornecida pela Camorra (organização criminosa aliada à Máfia Siciliana).

O chefe Carmine Giuliano tratava de não deixar o sul-americano se cansar da cidade e do clube, e isso incluía lhe fornecer drogas, prostitutas e presentes caros, como relógios de ouro. Mas à medida que recebia favores da Camorra, também se tornava propriedade dela, sendo obrigado a comparecer aos seus eventos, aos quais emprestava o seu prestígio. A vida de Maradona ficou ainda mais tensa depois da Copa do Mundo de 1990, disputada na Itália, em que a Argentina eliminou os anfitriões em jogo disputado justamente em Nápoles, e parte de sua população apoiou o seu maior ídolo contra os atletas do seu próprio país. Aproveitando-se daquela bobeada da Federação Italiana de Futebol, o jogador, que sabia muito bem utilizar a mídia a seu favor, pediu para que os napolitanos torcessem para os argentinos, lembrando que na maior parte dos anos eles não eram considerados italianos. A sua ousadia foi condenada pela opinião pública majoritária do país, e ocorreu a abertura da temporada de caça a Maradona, que foi associado ao demônio (o mal supremo no imaginário cristão) na grande imprensa. Esse parecia ser o momento mais adequado para a ação dos dirigentes esportivos que haviam engolido durante anos as suas insinuações quanto à existência de esquemas escusos para prejudicar o Napoli, cujas vitórias estariam incomodando os poderosos cartolas da região Norte, os donos do espetáculo.

Maradona já estava no radar da polícia por sua relação com a Camorra. Escutas telefônicas registraram ligações do argentino para uma prostituta agenciada pela organização mafiosa, pelas quais foi indiciado. Em fevereiro de 1991, foi acusado de posse de drogas, e no mês seguinte testou positivo para cocaína no exame antidoping. Décadas mais tarde, o presidente do Napoli revelou que a urina do artilheiro da equipe era frequentemente trocada pela de outros atletas quando havia risco de ele ser flagrado nos testes. A suspensão por 15 meses determinada pela Federação Italiana significou o fim da Era Maradona. Afetado pela dependência química, e com dificuldades para entrar em forma, a suas experiências posteriores como jogador de futebol ficaram muito aquém da sua lenda. Na temporada de 1992-1993, tentou retomar a carreira no Sevilla, pelo qual marcou quatro gols em 25 jogos. A nova aventura espanhola foi abreviada após a descoberta de que vinha sendo seguido por um detetive contratado pelo mandatário do clube. O segundo esforço de reabilitação esportiva se deu entre 1993 e 1994, no News Old Boys, o então time da moda da Argentina, mas não conseguiu marcar gol nos sete jogos que disputou. A sua última demonstração de genialidade ocorreu na Copa do Mundo daquele ano, disputada nos EUA, em que fez duas partidas em alto nível, responsáveis por colocar a seleção de seu país entre as favoritas do certame. No entanto, foi flagrado no exame antidoping, que acusou a presença em seu organismo da substância efedrina, utilizada para acelerar o processo de emagrecimento.

Rebeldia dentro e fora dos gramados

A trajetória profissional de Maradona evidencia o papel do rebelde no futebol, ou a do jogador-problema, que se recusa a aceitar passivamente a verdade legitimada do futebol-força, de forma a “explicitar a vontade de poder que a produzia e habitava e que ela buscava ocultar para se situar acima dos conflitos que eclodiam no gramado de jogo” (FLORENZANO, 2003, p. 32). Processada na virada da década de 1960 para a de 1970, essa modernização europeia no esporte sujeitou o saber do atleta à comissão técnica, que passou a moldar o seu corpo e a governá-lo dentro do jogo, tendo contribuído para essa realidade a potencialização dos papéis atribuídos ao médico e ao preparador físico (ibid, p. 31). Expoente do futebol-arte, Maradona primou pelo talento em detrimento da força, e se pautou pelas práticas de liberdade no esporte. Na Itália, que então era o maior mercado do futebol mundial e promovia uma variante mais veloz e fisicamente exigente, ele se negou a correr em alta velocidade com provável prejuízo a sua técnica, tendo acelerado o seu tempo de tomada de decisões para entrar no jogo – conforme afirmou ao cineasta Asif Kapadia, autor de um revelador documentário sobre o craque, lançado em 2019. Esse afirmava que o futebol se ganha com o pensamento e não com os músculos; por isso caracterizava esse esporte como o jogo do engano, em que o objetivo é ir para um lado, enquanto o adversário vai para o outro.

Quanto ao seu senso de justiça, garantiu que a origem estava relacionada com a sua observação do mundo, com as leituras da obra de Che Guevara e com o estudo da História de Cuba, onde, aliás, passou longas temporadas para a realização de tratamentos de desintoxicação nos anos 2000. Não obstante, dedicou o prêmio concedido pela FIFA de “Melhor jogador do século” ao povo cubano e a Fidel Castro, cuja figura foi tatuada em sua perna esquerda (ao passo que a imagem de Che era vista em seu braço direito). Via o ex-presidente cubano como um segundo pai, o maior da História vigente e já se definiu como “fidelista até a morte” (RODRIGUES, 2020). Maradona criticava acidamente os dirigentes esportivos mais poderosos do mundo, como o brasileiro João Havelange e o suíço Joseph Blatter, ambos ex-comandantes da citada entidade máxima do futebol. E se dedicava a desqualificar Julio Grandona, ex-comandante da Associação de Futebol da Argentina (AFA). No seu entender, os três cartolas seriam corruptos e mafiosos. Acreditava que a FIFA realizava campanhas com o objetivo de prejudicá-lo, por ser viciado em cocaína e assumir essa realidade. E dava como exemplo o suposto complô para retirá-lo da Copa de 1994, depois que a sua presença foi utilizada para promover a competição. Não obstante, recusara-se a apertar a mão de Havelange pela certeza de que a Argentina fora prejudicada na final de 1990, vencida pela Alemanha com um gol de um pênalti marcado de forma irregular (PETROCILO, GABRIEL, 2020).

“El pibe de oro” também problematizou a sua relação com Pelé quando esse se aproximou de Havelange, e passou a ver o brasileiro como um protegido da FIFA. Em um filme dirigido por Javier Vasquéz, em 2008, o ídolo argentino qualificou como “nojento” o comportamento do ex-atleta do Santos e da seleção canarinho, no que diz respeito ao uso de uma gravata estampada com a bandeira dos EUA, em 1994. Também não perdoava o encontro de Pelé com o então presidente americano, Bill Clinton, em uma favela carioca, em 1997, com quem simulou jogar futebol. Além de tudo, havia entre os dois a disputa simbólica a respeito de quem teria sido o melhor jogador de todos os tempos. Em postura oposta, Maradona vestiu em 2005 uma camisa com a figura de George W. Bush, acompanhada da inscrição: “criminoso de guerra”. A hostilidade contra o homem que era o chefe de Estado dos EUA o levou a liderar um protesto contra a sua presença na Cúpula das Américas, em Mar Del Plata, Argentina, tendo como aliados Hugo Chávez, a essa altura presidente da Venezuela, e Evo Morales, que se colocava como postulante ao cargo presidencial da Bolívia. O ídolo da seleção albiceleste também inventou palavras de ordem como “Bush Assassino” e “Lixo humano” para combater esse político, que propunha o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), recusado pela maioria dos governos latino-americanos.

Esse foi o seu reencontro com a política argentina, após o desgaste do governo de Carlos Menem, cuja candidatura contara com o seu apoio, em uma nota menor de sua trajetória política, apesar de ter afirmado na ocasião que não era menemista e sim peronista, movimento político híbrido com correntes mais conservadoras e outras progressivas (FARINELLI, Victor, 2020). O seu histórico peronista o fez defender os governos de Nestor e Cristina Kirchner, que contaram com uma base de apoio integrada por setores de esquerda. Depois, Maradona se opôs às políticas neoliberais de Mauricio Macri, seu desafeto dos tempos em que esse era presidente do Boca Juniors. Não obstante certas contradições, considerava-se “completamente esquerdista: de fé e de cérebro” (RODRIGUES, 2020).

De forma idealizada, o já citado Kusturica afiançou em sua cinebiografia sobre Maradona que esse teria sido um revolucionário, se não tivesse optado pela carreira de jogador. Mas não deixa de ser uma imagem honrosa para encerrar este texto sobre a trajetória do mais famoso rebelde do futebol mundial.

Bibliografia citada

BONSANTI, Bruno. O inexplicável gol de Maradona que decidiu uma vitória do Napoli sobre a Juventus de Platini. Trivela, São Paulo, 2016.

FARINELLI, Victor. Na política, Maradona sempre defendeu governos de esquerda e movimentos sociais. Fórum, Santos, 2020.

FLORENZANO, José Paulo. A democracia corinthiana: práticas de liberdade no futebol brasileiro. São Paulo: FAPESP; EDUC, 2010.

LOBO, Felipe. Ex-presidente do Napoli: “Maradona custou o dobro do que Cristiano Ronaldo custaria hoje”. Trivela, São Paulo, 2017.

PETROCILO, Carlos, GABRIEL, João. Maradona viveu entre ‘tapas e beijos’ com Grondona e chamou Havelange de ladrão. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2020.

RODRIGUES, Bruno. Admirador de Fidel e Che, Maradona morreu convicto com a esquerda. Folha de São Paulo, São Paulo, 2020.

STEIN, Leandro. A pancadaria entre Barça e Athletic na final da Copa do Rei provocada por Maradona. Trivela, São Paulo, 2015.

Filmes consultados

KAPADIA, Asif. Diego Maradona. Altitude Film Entertainment, 2019.

KUSTURICA, Emir. Maradona by Kusturica. Pentagrama Films, Telecinco Cinema, Wild Bunch, Fidélité Films, 2008.

LA Historia Del Club Atlético Boca Juniors. Colleccion Deportes (DVD 2), 2010.

MARADONA – A Vida de um Gênio do Futebol. Placar – Coleção Grandes Craques, 2003.

VÁSQUEZ, A Javier M. Amando a Maradona. Image Entertainment, 2008.

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