Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

O contrato de Javé com o povo escolhido

Publicado em 01 outubro 2009

"A partir do capítulo 12 do Gênesis, o contrato entre o criador e as criaturas se definirá na narrativa pela decisão do destinador de escolher um sujeito individual, concretizado no discurso pelo ator Abrão/Abraão, para representar o sujeito coletivo "povo hebreu", ao realizar a performance de cumprir a vontade divina. No programa de manipulação, o sujeito será seduzido pelo objeto-valor "terra prometida", símbolo maior da busca incessante dos povos nômades ou seminômades, como eram os hebreus: Javé disse a Abraão: "Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Eu farei de você um grande povo, e o abençoarei; tornarei famoso o seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra serão abençoadas." (Gn 12, 1-3)

Esse homem foi escolhido para representar "todas as famílias da terra", mas a palavra do criador pressupõe que os homens, por causa desse contrato, serão divididos daí em diante entre "abençoados" e "amaldiçoados", ou seja, somente os que fizerem parte do grande povo, formado pelos descendentes de Abrão, receberão as bênçãos divinas. Uma decisão estranha e incoerente com o papel temático de criador da humanidade, mas definitiva. A competência e a performance do sujeito, de ora em diante, serão "modalizadas pela paixão do poder": até o final do percurso narrativo do sujeito "povo escolhido por Deus", nos últimos livros do Antigo Testamento, haverá uma sucessão de programas de guerra entre esse povo e seus adversários, aqueles que habitavam a terra prometida, pois ela já tinha dono quando a promessa foi feita. Tratava-se, portanto, de um programa de invasão da propriedade alheia." (Mendes, M. B. T. No princípio era o poder. São Paulo, Annablume / FAPESP, 2009, p. 91-92).

Resolvi começar minha resposta ao pastor Gilson com a citação de um trecho do meu livro, que ele "talvez" não tenha lido. E não é uma atitude ética, entre intelectuais responsáveis, criticar uma obra publicada sem conhecer o seu conteúdo, como foi muito bem colocado pelo jornalista Rodrigo Ferrari, na matéria do JC de 20/09/09. Esse mesmo pastor já havia se manifestado sobre minhas considerações em 2006, quando saiu a primeira matéria sobre a minha análise do Antigo Testamento, e continua batendo nas mesmas teclas, ou melhor, nos mesmos versículos bíblicos. Naquele momento, a única atitude ética foi a do monsenhor Almir Cogiola, ao dizer que a Diocese de Bauru não faria nenhum comentário antes de ver a matéria publicada (JC, 03/12/06). E, realmente, nenhum membro da Igreja Católica se manifestou a respeito até hoje.

O que o pastor Gilson parece não perceber é que há muita diferença entre "exegese" e análise narrativa, discursiva e literária do texto bíblico. Mas também me parece (o objeto de estudo da teoria semiótica é sempre o "parecer do sentido") que esse pastor, que não conheço pessoalmente, está querendo desafiar, ou desacreditar, a minha competência para analisar o discurso bíblico. Aceito o desafio e proponho que façamos um debate público, em local neutro, com alguns interessados no assunto, sob a coordenação de uma pessoa acostumada a lidar com intolerâncias de qualquer tipo. Seria muito instigante e me daria muito prazer, pois gosto de trocar idéias com quem não pensa como eu. E não seria jamais "perda de meu precioso tempo", já que todos poderiam adquirir novos conhecimentos e alguns esclarecimentos.

A autora, Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, é pesquisadora doutora da Unesp