Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

O contra-ataque das plantas

Publicado em 06 outubro 2003

As plantas não dependem exclusivamente da ajuda do ser humano, por meio dos caros e tóxicos pesticidas, para se defender das inúmeras pragas que atacam as lavouras. A própria natureza já se encarregou desse trabalho, dotando os vegetais de uma série de armas' químicas que não só repelem esses invasores, como são capazes até de matá-los. Entretanto, à medida que a civilização foi intensificando o seu processo agrícola, cada vez mais grandes extensões de monoculturas foram surgindo. Esse processo alterou a dinâmica normal da natureza, tomando muitas das defesas naturais insuficientes. Daí, entre outros fatores, a necessidade dos agrotóxicos. SURPRESA Foi justamente ao estudar essas defesas naturais das plantas, que dois pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o geneticista Flávio Henrique da Silva e sua aluna de doutorado Andréa Soares da Costa, se surpreenderam ao perceber que uma proteína de defesa da cana-de-açúcar (Sacharum officinalis) mostrou-se eficaz contra fungos que atacam a cana e outras plantas de valor econômico. A canacistatina, como essa proteína é conhecida, ganhou ainda a perspectiva de aplicações diretas na saúde humana. Ela é capaz de inibir a ação das catepsinas, proteínas que participam do surgimento ou da evolução de doenças como osteoporose, artrite reumatóide e mal de Alzheimer. Desse modo, essa descoberta brasileira poderá trazer inúmeros benefícios, por exemplo, para os cerca de 3 milhões de brasileiros (10 milhões só nos Estados Unidos) que sofrem de osteoporose. FUTURO Mas os futuros benefícios desse trabalho não param por aí. Ele pode ter aplicações num dos mais polêmicos processos que atinge a agricultura nacional os transgênicos - o plantio da soja transgênica acaba de ser liberado no País até 2004 por meio de uma medida provisória, que várias entidades ambientalistas estão tentando tornar sem efeito por meio de ações na Justiça. É que a canacistatina recebeu esse nome por duas razões: primeiro porque é específica da cana. Em segundo lugar, por ser a cistatina um grupo de moléculas capaz de afetar as enzimas digestivas de insetos como a lagarta Leptinotarsa decemlineata. Ela é tão poderosa que consegue afetar o crescimento da praga. Por essa razão, Silva acredita que a proteína da cana possa ser usada como um inseticida natural - um caminho em princípio mais viável, mais rápido e muito menos polêmico do que desenvolver plantas transgênicas. No caso da soja transgênica, por exemplo, as sementes foram desenvolvidas por uma única empresa, especificamente para um determinado tipo de agrotôxico, fabricado por essa mesma empresa. No Brasil, o plantio de transgênicos é proibido. Entretanto, sementes de soja transgênica foram contrabandeadas da Argentina para o Sul do País. Como o governo liberou os transgênicos na safra 2003-2004, a empresa detentora das sementes ameaça agora processar os agricultores pelo uso não-autorizado das sementes geneticamente modificadas. A substância descoberta na cana-de-açúcar é um mecanismo de defesa natural da planta contra pragas como a lagarta, podendo se transformar numa alternativa aos polêmicos organismos geneticamente modificados (transgênicos).