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Esteta

O cinema ‘escrito’ (e falado) na época do cinema mudo

Publicado em 31 agosto 2014

Por Manuel Alves Filho

Assim que chegou ao Brasil, no final do século XIX, o cinema despertou imediatamente a atenção de diversos cronistas, que passaram a escrever sobre o entretenimento em jornais e revistas. O realismo das imagens em movimento era, ora aceito estritamente, ora questionado por esses literatos. Influenciados pela novidade, alguns deles chegaram até mesmo a adotar características da semântica cinematográfica em seus textos. Estes e outros aspectos da relação entre o cinema e a literatura surgem esmiuçados na tese de doutorado da pesquisadora Danielle Crepaldi Carvalho, defendida recentemente no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. O trabalho, que também apresenta um anexo contendo as crônicas analisadas acompanhadas de comentários da autora, foi orientado pela professora Miriam Viviana Gárate.

Graduada em Letras e com mestrado em Teoria e História Literária pela Unicamp, Danielle conta que sua pesquisa concentrou-se na produção de cronistas cariocas entre os anos de 1894 e 1922, período que coincide com o desenvolvimento tanto do cinema como da cidade do Rio de Janeiro. “O cinema chega ao Brasil em 1894, através do kinetoscópio, que na verdade ainda não era cinema. Era uma máquina inventada por Thomas Edison, que permitia que apenas uma pessoa de cada vez pudesse observar imagens em movimento”, explica a pesquisadora. Naquele instante, o invento era exibido em pequenos salões na Rua do Ouvidor, espaços alugados para a apresentação de variedades, como fonógrafos, bandas de música, bonecos de cera, órgãos humanos e outras “bizarrices” ao público.

No início, conforme Danielle, esse primeiro cinema era frequentado, sobretudo, pelas classes populares. A elite o desdenhava, classificando-o como entretenimento menor. “Entretanto, desde o princípio as imagens em movimento chamaram a atenção de algumas camadas mais letradas, os cronistas em particular. Inicialmente, o tema foi tratado em textos esparsos. Depois, surgiu com maior frequência nas crônicas, gênero que, circulando na imprensa cotidiana, se debruçava sobre os acontecimentos do dia a dia da cidade. Escritores destacados como Olavo Bilac, Arthur Azevedo, João do Rio e Lima Barreto, entre outros, trataram do assunto em seus textos”, destaca a autora da tese de doutorado, que utilizou como fontes fundamentais da sua pesquisa os acervos físicos do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp e da Biblioteca Nacional (BN), além da Hemeroteca Digital da BN.

O primeiro texto sobre o kinetoscópio localizado por Danielle data de 1894, poucos meses antes da chegada da máquina ao país. Depois que os brasileiros travaram contato com a engenhoca, mais e mais escritores passaram a falar dela em suas crônicas. Bilac foi aparentemente o primeiro. Em texto assinado com o pseudônimo de Fantásio, o poeta adotou um tom crítico a respeito das possibilidades oferecidas pelas imagens em movimento. “Usando a máscara do falso bobo da corte saído da pena de Musset [Alfred Louis Charles de Musset, poeta, novelista e dramaturgo francês do século XIX], Bilac disse que o kinetoscópio era uma ameaça à literatura, pois com ele era possível eternizar em imagens o sorriso e os gestos da mulher amada. Na opinião dele, ao repetir à exaustão as imagens de situações tão especiais, estas acabariam por perder o encanto”, relata Danielle.

Em sua investigação, a pesquisadora descobriu que entre os pioneiros a abordar o cinema – ou melhor, o kinetoscópio – na literatura estava uma mulher, a poetisa Elvira Gama, desconhecida do público de hoje, mas cuja carreira jornalística e literária estava em franca ascensão naquele tempo. Na pele de Edisonina – pseudônimo adotado em homenagem a Edison, inventor do kinetoscópio –, ela escreveu uma crônica com a qual dialogava com o texto de Bilac, citando “o amigo Fantásio”. Ela criou toda uma série cronística ainda nos tempos da máquina individual do inventor norte-americano, quando a histórica primeira sessão pública do cinematógrafo dos irmãos Lumière ainda não havia acontecido em Paris - o que se deu somente em dezembro de 1895. Edisonina fazia-se de “pequenininha” – como eram as imagens exibidas pelo kinetoscópio – para melhor criticar os políticos, protestar contra o jogo do bicho e chamar atenção para a epidemia de cólera.

Uma das características das crônicas que tinham o cinema como objeto de reflexão, diz a autora da tese, é que seus conteúdos também se aproximavam muito das questões urbanísticas, por causa das reformas executadas, a partir de 1903, pelo prefeito do Rio, Francisco Pereira Passos. “Com o passar do tempo, surgiu uma tentativa de usar o cinema para a construção de uma imagem moderna e desenvolvimentista do Rio, nos moldes do que ocorria na Europa, particularmente em Paris. Com a inauguração dos cinematógrafos, instalados na Avenida Central aberta por Pereira Passos, esses espaços passaram a produzir seus próprios filmes. As imagens fechadas mostravam belas mulheres passeando pela cidade e os melhores ângulos da reforma urbanística. Na minha proposição, isso criou uma espécie de continuidade simbólica, como se o Rio fosse Paris, embora não fosse realmente. Ou seja, o cinema contribuiu para a construção de uma imagem positiva da cidade”, destaca Danielle.

Tal estratégia, de acordo com ela, não era uma novidade. No período de seis meses em que passou em Paris, cumprindo o programa de um doutorado sanduíche, a pesquisadora frequentou a Cinemateca Francesa e leu inúmeros jornais e livretos do início do século XX, publicados na Europa. “Um livreto londrino do início dos anos de 1910 sugeria que se filmassem a alta sociedade e o máximo de pessoas possível, com o objetivo de levá-las ao cinema para se verem na tela. A montagem cinematográfica, picada e decupada, contribuía para atingir o objetivo almejado. De certa forma, a crônica também fazia isso aqui no Brasil. Esse aspecto aparece claramente nos textos de João do Rio [pseudônimo do escritor Paulo Barreto]. Em outras palavras, a cidade se pintava e se criava tanto a partir do cinema quanto da literatura. Assim, é possível afirmar que o realismo presente na tela e nos textos dos jornais e revistas também foi, em boa medida, inventado”, analisa.

Diálogos

A relação entre cinema e literatura foi tão estreitada entre o final do século XIX e o início do século XX que alguns dos cronistas analisados por Danielle recorreram à semântica cinematográfica para construir seus textos. É o caso de um autor que se intitulava Jack, que escrevia para a Revista Careta e cuja verdadeira identidade a autora da tese não conseguiu elucidar. “Certas narrativas dele se assemelhavam aos enredos de filmes, transformando o Rio de Janeiro numa espécie de Hollywood. Ele descrevia passeios pela cidade e criava diálogos com as moças da época nos quais a cena cinematográfica aparecia espelhada.”, pontua a pesquisadora.

Outro ponto importante tratado por Danielle na tese diz respeito ao diálogo que os cronistas brasileiros travavam com seus pares estrangeiros. Os textos produzidos em outras plagas chegavam ao país e eram repercutidos pelos autores nacionais. “O João do Rio, por exemplo, dialogava com alguma frequência com escritores de fora. Ele observou com cuidado os primeiros ‘filmes de arte’ que chegaram à cidade em 1909, influenciado muito provavelmente pelo escritor italiano Edmondo de Amicis, que pouco antes havia publicado em seu país um conto chamado ‘Cinematógrafo cerebral’. Foi um dos primeiros a perceber, por aqui, as características artísticas do cinema e como ele conectava o público de uma forma diferente do teatro. Em 1909, João do Rio escreveu o livro ‘Cinematógrafo’, uma recolha das crônicas que publicou em jornais cariocas ao longo de anos. Além de se aprofundar em aspectos técnicos do cinema e em questões referentes à sua fruição, o autor submeteu o livro a uma organização semelhante à do espetáculo cinematográfico de então [quando apresentavam-se, numa mesma sessão, fitas de tons e temáticas variados]”, informa a pesquisadora.

Em seu trabalho, Danielle também faz uma reflexão sobre a linguagem empregada pelo cinema mudo. A pesquisadora questionou a afirmação, reiterada por muitos escritores, de que o público entendia naturalmente as histórias contadas na tela, visto que a mímica supostamente constituiria uma linguagem universal. Ao se debruçar sobre inúmeras publicações do período, ela percebeu que a literatura, mais uma vez, estava próxima da cinematografia e que oferecia suporte indispensável à compreensão do espectador. “Identifiquei que jornais e revistas publicavam resumos muito detalhados de cada filme. Uma série como ‘Os Mistérios de Nova York’, com a atriz Pearl White, por exemplo, saiu no jornal ‘A Noite’ como folhetim romanesco, antes de ser exibida nos cinemas. Os textos praticamente decupavam o que apareceria na tela. A graça de ir ao cinema não estava, então, em descobrir o tema, mas o filme em si, pois a história era conhecida previamente do público. No Brasil, desde o começo, a literatura aparece muito colada ao cinema”, reforça.

Além do arcabouço teórico, a tese de Danielle também é constituída por um anexo de 520 páginas, no qual ela apresenta 210 textos e 20 imagens selecionadas do material que analisou. “Devo este trabalho à minha orientadora, professora Miriam Gárate, com quem cursei em 2009 uma disciplina fundamental sobre o cinema silencioso e a literatura do período. Miriam apontou a inexistência de uma pesquisa e compilação do que se escreveu sobre cinema na imprensa brasileira de fins de 1890 e começo do século XX. Além do texto claramente teórico, que buscou mostrar como os cronistas viram o realismo no cinema nas primeiras décadas desse entretenimento, optamos também pela preparação da antologia anotada. Procuro fazer comentários relativos a cada uma das crônicas, numa tentativa de contextualizar o que dizem seus autores, hoje tão recuados de nós”, esclarece a pesquisadora, que contou com bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e de doutorado-sanduíche da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência vinculada ao Ministério da Educação.

Excertos

Kinetoscópio

(...) “Não te lembras, às vezes, com uma saudade e um gozo inenarráveis, do gesto brando e amoroso com que dous braços femininos um dia te chamaram, cheios de promessas?

Pois bem! Hoje, com o Kinetoscópio, terias perpetuado esse apaixonado movimento de braços, fotografando-o numa placa metálica. E bastar-te-ia mover uma pequena manivela, e fazer agir sobre a placa uma corrente elétrica, para que visses, mas positivamente visses, a tua amante estender-te os braços e chamar-te... E imagina que horror: o gesto amoroso repetido ao infinito, durante uma, durante cem horas, cem semanas, cem anos!

Acabarias naturalmente por achar cômico o que hoje te parece divino: e, em vez de chorar com a evocação do delicioso momento, desatarias a rir, desgraçado mortal, mísero desiludido! (...)

Ah! Isto é o fim de um mundo, meus amigos! Ide ver o kinetoscópio! Ide ver uma briga de galos, uma dança serpentina, uma briga entre yankees, pilhadas em flagrante, fixadas fotograficamente para toda a eternidade, — e dizei-me se ainda tendes ilusões que vos povoem um sonho, e rimas que vos enfeitem um soneto.”

Fantásio

Fantásio (pseudônimo de Olavo Bilac). Kinetoscópio. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17 dez. 1894, p. 1.

O Teatro

(...) “Na segunda parte do espetáculo figurou um cinematógrafo com fotografias coloridas, talvez o mais perfeito que ainda se viu nesta capital. O engenhoso aparelho exibiu uma interessante pantomima fantástica, intitulada Viagem à lua, inspirada no romance de Júlio Verne. Conto que essa pantomima, inventada e composta com uma fantasia admirável, leve ao São Pedro todas as crianças do Rio de Janeiro. O quadro representando a lua no espaço, figurada por uma cara risonha e gaiata, que aumenta progressivamente à medida que se aproxima do espectador, é de um grande efeito cômico. Não há quem resista à careta da lua quando um obus, levando no bojo meia dúzia de astrônomos, penetra e fica encravado num dos olhos daquela cara. Tem, realmente, muita graça”. (...)

A. A.

A. A. (Arthur Azevedo). O Teatro. A Notícia, Rio de Janeiro, 9-10 abr. 1903, p. 3.

Publicação

Tese: “Luz e sombra no écran: realidade, cinema e rua nas crônicas cariocas de 1894 a 1922”

Autora: Danielle Crepaldi Carvalho

Orientadora: Miriam Gárate

Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Financiamento: Capes e Fapesp

Jornal da Unicamp