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Carlos Romero

O cientista que também era grande compositor

Publicado em 17 janeiro 2021

Por Flávio Ramalho de Brito

Descendente de imigrantes italianos, ele nasceu em São Paulo, em 1924. Formou-se em Medicina pela USP, em 1947. No ano seguinte, foi para os Estados Unidos, onde fez o doutorado em Zoologia na renomada Universidade de Harvard. De volta ao Brasil, vinculou-se ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), onde trabalhou pelo resto da sua vida, mesmo depois de ter se aposentado.

Por cerca de 30 anos, o cientista, que se chamava Paulo Emílio Vanzolini, dirigiu o Museu de Zoologia da USP, instituição que possui um dos maiores acervos zoológicos do mundo, com mais de dez milhões de espécies preservadas. O museu funciona, também, como importante centro mundial de pesquisa da biodiversidade. Sua biblioteca tem cerca de cem mil exemplares, um quarto deles originários da doação que Vanzolini fez de sua biblioteca particular.

Paulo Emílio Vanzolini era reconhecido como um dos maiores zoólogos do mundo, autor de vários livros sobre a matéria e com artigos publicados nas mais conceituadas publicações científicas internacionais. Ele dizia já ter nascido zoólogo:

“A vida do zoólogo é a melhor vida do mundo. Deus, quando me fez zoólogo sabia o que estava fazendo. Viajei o Brasil inteiro coletando espécimes. Inteiro mesmo. Vinte e um estados. Coletava réplica de anfíbios. A grande vantagem do zoólogo é essa, viajar pelo Brasil e pelo exterior sem gastar nada. No nosso trabalho, é importante que você veja os lugares. Por isso percorri onze mil quilômetros de rios na Amazônia.”

Vanzolini era herpetólogo, especialista em répteis e anfíbios, tendo contribuído para a comprovação prática da Teoria dos Refúgios, que trata do surgimento de espécies na Amazônia e na Floresta Tropical, teoria que foi elaborada pelo geólogo alemão Jurgen Haffer. Existem vários táxons (classificação científica de seres vivos) que foram registrados por pesquisadores em homenagem a Vanzolini, com a utilização do seu nome, tais como Alpaiada vanzollinii, Alsodes vanzollinii, Hylodes vanzollinii e Anolis vanzollinii.

O zoólogo era um grande contador de causos relacionados com as suas expedições científicas. Um deles, acontecido no rio Solimões, envolvia um barqueiro, nascido em Patos, na Paraíba, que lhe ensinou versos que ele nunca esquecera. As quadras referiam-se ao conflito ocorrido nos meses anteriores à deflagração da revolução de 1930, em Princesa, na Paraíba, entre o chefe político local, José Pereira, e as forças da polícia estadual do governo de João Pessoa.

“Imaculada de Tavares / Município de Princesa / Bala matou tanta gente / Que foi horror e tristeza / A mortandade foi crua / Sangue correu pela rua / Que chega foi correnteza”.

Paulo Emílio Vanzolini foi um dos idealizadores da FAPESP, a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo, uma das principais instituições de apoio e fomento à pesquisa científica no país. O governador do Estado da época encarregou-lhe de redigir a lei de criação da Fundação. Paulo Vanzolini, como era comumente conhecido, recebeu o título de professor emérito da Universidade de São Paulo.

Além dos atributos como grande cientista, Vanzolini tinha também a ciência do samba, para ele um mero passatempo, mas que o levou a se tornar um dos mais importantes compositores da música popular do Brasil, mesmo sem tocar nenhum instrumento, nem mesmo uma simples caixa de fósforos — como ele próprio dizia.

O cientista contava que se encontrava na região Norte do País fazendo pesquisas, quando a sua primeira música fez sucesso popular:

“Depois de três meses eu volto do Amazonas e no domingo ao meio dia ligo a Bandeirantes na parada de sucessos — pela terceira semana consecutiva 'Volta por Cima' — foi a maior surpresa que eu já tive na minha vida”.

A gravação original de Volta por Cima foi feita pelo cantor Noite Ilustrada. A música tem várias regravações, entre as quais as de Jorge Aragão, Beth Carvalho e Maria Bethânia.

Chorei, não procurei esconder Todos viram, fingiram Pena de mim, não precisava Ali onde eu chorei Qualquer um chorava Dar a volta por cima que eu dei Quero ver quem dava Um homem de moral não fica no chão Nem quer que mulher Venha lhe dar a mão Reconhece a queda e não desanima Levanta, sacode a poeira E dá a volta por cima

“Volta por Cima”, uma das canções mais conhecidas de Paulo Vanzolini, obteve tal sucesso que levou a expressão “dar a volta por cima”, criada por ele para a letra da música, a ser inscrita no Dicionário de Português de Aurélio Buarque de Hollanda, como sinônimo de “superar uma situação difícil”.

Vanzolini teve a sua primeira música gravada em 1953, de forma casual. Ele acompanhava sua amiga e cantora Inezita Barroso em uma gravação no Rio de Janeiro. Havia a necessidade de uma música para completar a gravação e, para gravá-la, era exigida a autorização escrita do compositor. Foi, então, utilizada uma canção de Vanzolini que a cantora conhecia.

A música gravada casualmente por Inezita Barroso é considerada uma das composições mais bonitas de Vanzolini e uma espécie de hino da cidade de São Paulo. Entretanto, a canção passou mais de duas décadas inteiramente despercebida. Somente em 1977, numa magistral gravação da cantora Márcia, a cancão intitulada Ronda veio a ocupar o seu devido lugar entre as grandes composições brasileiras. Vanzolini, um cronista do cotidiano, contava que “Ronda” surgiu em suas andanças nas noites paulistanas:

“Cansei de ver mulher chegar na frente do bar, olhar para dentro como se procurasse alguém e ir embora. Não foi uma só que vi. Escrevi sobre isso”.

De noite eu rondo a cidade A te procurar sem encontrar No meio de olhares espio, Em todos os bares Você não está Volto pra casa abatida Desencantada da vida O sonho alegria me dá Nele você está [...] Porém, com perfeita paciência Volto a te buscar Hei de encontrar Bebendo com outras mulheres, Rolando um dadinho Jogando bilhar E neste dia, então, Vai dar na primeira edição Cena de sangue num bar Da Avenida São João.

Em depoimento, Paulo Vanzolini contou ainda que:

“A única música minha que deu dinheiro foi 'Volta por cima'. Com 'Volta por cima' eu fiz um banheiro novo na diretoria do museu. Eu não queria levar dinheiro de música para casa, porque era um dinheiro muito incerto. No mês que vem a mulher pergunta: 'Cadê o dinheiro?' Então, eu guardava o dinheiro numa gaveta no museu e gastava em pequenas despesas, não era muita coisa, pequenas despesas do museu. Precisava comprar isso, vai lá e compra. E inventaram o negócio de Fundação Volta por Cima. Gozação comigo. Um dia, apareceu o doutor Conrad, da Fundação Rockefeller, querendo conversar comigo. Falei: pois, não. 'É que nós soubemos da sua Fundação [...]'"

Vanzolini fez a maioria das suas músicas sem parceiros, sozinho, apesar de não saber distinguir um tom maior de um menor, como dizia o seu amigo, o violonista Paulinho Nogueira. A qualidade de Vanzolini como letrista é destacada por Antônio Cândido, um dos maiores críticos literários do país.

"Como autor de letra e música ele é o oposto da loquacidade, porque não espalha, concentra [...] tem a capacidade de achados verbais que fazem a palavra render o máximo. Vanzolini é um mestre de muitas faces".

Dois exemplos do que Antônio Cândido escreveu sobre as letras de Paulo Vanzolini são Boca da Noite, parceria dele com Toquinho, e Samba Erudito:

Cheguei na boca da noite, parti de madrugada Eu não disse que ficava nem você perguntou nada Na hora que ia indo, dormia tão descansada Respiração tão macia, morena nem parecia Que a fronha estava molhada [...] O vento vai pra onde quer, a água corre pro mar Nuvem alta em mão de vento é o jeito da água voltar Morena, se acaso um dia tempestade te apanhar Não foge da ventania, da chuva que rodopia, Sou eu mesmo a te abraçar.

Andei sobre as águas Como São Pedro Como Santos Dumont Fui aos ares sem medo Fui ao fundo do mar Como o velho Picard Só pra me exibir Só pra te impressionar Fiz uma poesia Como Olavo Bilac [...] Mas você nem ligou Para tanta proeza [...] E então, como Churchill Eu tentei outra vez Você foi demais Pra paciência do inglês Aí, me curvei Ante a força dos fatos Lavei minhas mãos Como Pôncio Pilatos

Além das suas canções, Paulo Vanzolini ainda fez uma letra definitiva para Pedacinho do Céu , o belíssimo choro de Waldir Azevedo. A letra original não estava à altura da qualidade da música, e, nas palavras de Vanzolini:

“Levei 25 anos para fazer. Letra de choro não é fácil, porque tem que ser muito exata, coincidindo com a pinicada da palheta do bandolim ou do cavaquinho. A exatidão que você tem de ter na contagem da sílaba e onde cai o acento é um trabalho de ourives, é uma mão-de-obra danada”.

Em 2009, o cineasta Ricardo Dias, também biólogo, ex-aluno do zoólogo-compositor, e que já havido filmado expedições científicas de Vanzolini, realizou, em sua homenagem, o documentário Um Homem de Moral , com a participação de grandes nomes da música popular brasileira: Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Miúcha, entre outros.

Paulo Vanzolini faleceu em 2013, com 89 anos. No refrão da sua última composição, Quando Eu For Eu Vou Sem Pena , ele foi, mais uma vez, certeiro:

Quando eu for, eu vou sem pena Pena vai ter quem ficar”