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O Chafariz de 1790 e seu Aqueduto

Publicado em 04 junho 2021

Por Neila Barreto

Das fontes de abastecimento de água de Cuiabá-MT, a mais antiga, ou pelo menos aquela a que mais referência possui é o Chafariz do Rosário, hoje Praça do Rosário, Igreja do Rosário e São Benedito, concluído em 1790, no Governo do Capitão General João de Albuquerque.

Para Carlos Alberto Rosa (1998), beirando o fim do século, em 1790, possíveis pressões de moradores abastados das ruas de Baixo (1777) – 1º de Dezembro (1825) - Rua Direita (1850) – 1° de Março (1871 – 1874 -1890 e, atual Rua Galdino Pimentel (2005), e Rua do Oratório, atual 7 de Setembro, chamada de Oratório por causa do Oratório da Igreja do Senhor dos Passos, é que levaram à construção do primeiro chafariz, ao pé da ponte da Igreja do Rosário, alimentado pelas águas da Fonte do Ernesto, proprietário de um sitio nas redondezas, trazidas por meio de tecnologia gravitacional (aqueduto) para dentro da cidade, num aqueduto.

“(...) o Aqueduto de madeira localizado na cabeceira oriental do Prainha era claramente apoiado em terreno murado em taipa coberta com telhas, conforme pode ser verificado em “Prospecto da Villa do Bom Jesus do Cuiabá...”; Cuiabá – 1790, autor não identificado (talvez Joaquim José Freire ou José Joaquim Codina); feito durante a “Viagem Filosófica” de Alexandre Rodrigues Ferreira, acervo do Museu Bocage, Lisboa, em Nestor Goulart Reis Filho, em imagens de vilas e cidades do Brasil colonial. São Paulo, Edusp/Imprensa Oficial/FAPESP, 2000, quando manipulada eletronicamente.

Esse acontecimento ficou registrado nos Anais da Câmara da Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, em relato referente ao ano de 1790, assim: “ No ano de 1790 se irigu hu chafaris no largo que fica para cá da ponte do Rozario conduzindo-se ágoa para a mesma bica denominada o arnesto e principiou a correr a mesma ágoa no chafaris no fim de agosto cuja obra he a mais útil, e bem comum do povo”. O ano de 1790 pode ser tomado como emblemático, na ativação da vida urbana na Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Nesse ano, comemorou-se longa e ostensivamente o aniversário do Juiz de Fora Diogo de Toledo Lara Ordonhes, à época ocupando interinamente o cargo de ouvidor.

As festas públicas realizadas em homenagem ao magistrado estenderam-se de 6 de agosto a 11 de setembro. Em 15 de agosto de 1790, um domingo, foram apresentadas na Praça Real (denominado Largo da Mandioca, do período de 1777 a 1874, depois Conde de Azambuja de 1890 a 2005, “seis contradanças, passapiés de dois e a quatro, minuetos simples, a quatro e figurados, minuetos da corte”. No domingo seguinte, 22 de agosto, mais danças (“minueto, contradança comprida, bem sabida e trabalhosa, pelos pulos ou quartos que faziam”); na segunda-feira, 23, apresentaram os “dançantes” do dia “antecedente”; em 29 de agosto, outro domingo, “dançaram a Tirana”; e na terça-feira, 31 de agosto, “muitas árias, que executaram bem, pois eles todos, os pardos são curiosos na cantoria, além de que a dama que fazia o papel de Honória é músico de profissão, de voz e estilo. (...) principiou e acabou a ópera por um coro (...). ” Como o chafariz do Rosário começou a funcionar no fim de agosto é possível supor que o início de suas atividades tivesse algo a ver com as comemorações natalícias de Diogo de Toledo Lara Ordonhes. Essa possibilidade é reforçada pelo fato de Joaquim da Costa Siqueira, íntimo de Ordonhes, estar por sua vez presidindo a Câmara, também interinamente. A quase nenhuma atenção dada pelos Anais da Câmara da Vila Real à construção do chafariz do Rosário e, particularmente, o silêncio sobre a construção do aqueduto sobre o Prainha, resultou em mais de dois séculos de invisibilidade desse equipamento urbano – nos estudos da história da Vila Real. Esse longo esquecimento contribuiu também para que aqui, como em outras partes do Brasil, a longa história das águas urbanas continuasse uma história ainda pouco conhecida.

A manutenção de fontes públicas na Vila Real mostra existência, mesmo que deficiente de sistema de abastecimento público de água potável. Das fontes às casas, a água era transportada por escravos. Algumas residências tinham poços nos quintais. Tudo leva a crer que das águas do córrego Prainha não se bebia: “a presença de algum azougue (mercúrio) das lavagens do ouro, além de lixo, tornava perigosa sua água. Aparentemente a prática de jogarem-se dejetos em córregos e outros locais dentro ou próximos do centro urbano era recorrente, - apesar das posturas e das ações da Câmara: “dejetos eram jogados nos córregos e em lugares impróprios”. Essa não utilização das águas do Prainha para ingestão atravessou séculos. Em 1872, por exemplo, testemunhas juramentadas em processo judicial declararam ser prática comum, embora transgressiva, pessoas satisfazer necessidades físicas nas margens e no leito do Prainha. Como essas testemunhas, praticamente toda a população da cidade devia estar advertida sobre a contaminação das águas do Prainha.

Em fins do século XVIII representantes da Coroa portuguesa na capitania eram incentivados a indicar jovens estudantes para cursos universitários, custeados com dinheiro da Fazenda Real. Dentre esses cursos, merece destaque aqui o de engenharia hidráulica, por estar relacionado com o sistema de abastecimento de água.

Em 1808, há referências a um Chafariz na Mandioca. Por volta de 1817, o governador e capitão-general João Carlos Augusto de Oeynhausen Gravenburg, depois Marquês de Aracati, reassumiu o projeto de canalização das águas do Mutuca (estrada da Chapada dos Guimarães-MT), não mais apenas para lavagens de mineração no Jacé, hoje nas proximidades do bairro Carumbé, mas também para “encaminhamento d’água do ribeirão Mutuca, para o abastecimento da Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá.

(*) NEILA BARRETO é Jornalista. Mestre em História. Membro da AML e atual presidente do IHGMT.