Notícia

Gazeta Mercantil

O casamento ciência-empresas

Publicado em 01 abril 1997

A escolha do local deveu-se, é claro, não só ao fato de ser ali a sede da BSA, mas também ao prestígio internacional do MIT, da própria cidade de Boston como centro avançado de ciência e tecnologia e ao tema. Debateu-se, afinal, como melhorar o aproveitamento para o desenvolvimento da economia brasileira, dos investimentos que estão sendo feitos, pelo governo na sua maior parte, e também por algumas empresas privadas, na formação, no exterior, de especialistas de alto nível. Uma das revelações feitas no encontro pode até parecer surpreendente. O Brasil investe em bolsas de estudo e na capacitação de especialistas universitários proporcionalmente mais do que os EUA, cerca de 1% do seu PIB, ante 0,7% daquele país e 0,3% dos chamados "tigres" asiáticos. No entanto, na área de engenharia, por exemplo, enquanto aqui se formam cerca de 14 mil estudantes por ano, na Coréia, com população equivalente a um terço da brasileira, saem 30 mil engenheiros por ano das escolas. Este é apenas um dos sinais de que a quantidade de recursos alocada para esta finalidade não é por si só uma garantia de suficiência ou de bons resultados. O que motivou uma das conclusões dos debates no sentido de que é preciso planejar melhor, coordenar de maneira mais objetiva e disseminar de modo mais racional os recursos alocados. E estamos falando somente da formação de pessoal, certamente a mais importante finalidade dos investimentos em educação qualificada, uma vez que se trata de gerar massa crítica de inteligência científica e tecnológica para a sociedade brasileira. Mas, além disso, é necessário também investir no desenvolvimento de pesquisa pura, na pesquisa aplicada dentro das próprias empresas produtivas brasileiras, no desenvolvimento de projetos e produtos. E isso significa amparar o trabalho dos nossos Ph.D. com recursos técnicos, financiamentos e condições salariais ou de renda satisfatórias. Já está mais do que comprovado, no mundo todo, que as atividades empresariais mais dinâmicas e mais rentáveis se concentram hoje em dia, não por coincidência e em escala crescente, no contingente de empresas que mais investem internamente em ciência e tecnologia (C&T) e no pessoal necessário. No Brasil mesmo muitas empresas já adotaram esse caminho, mas ainda é um movimento incipiente, e, durante longo tempo, esteve travado pela instabilidade da nossa economia e pela inflação. Cremos que a maioria dos empresários brasileiros não duvida do valor objetivo dessa política. Mas a dificuldade de prever concretamente o retorno dessas aplicações, aliada à pouca segurança sobre os resultados e à necessidade imediatista de "fazer caixa", imposta pelos anos de inflação alta, desestimulou em muito o esforço naquela direção. Conforme resumiu durante a conferência o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, "o investimento em C&T tem que virar PIB". A longo prazo, isso de fato acontece, do ponto de vista macroeconômico. Mas, no plano microeconômico, da vida das empresas, isso precisa acontecer em prazos mais previsíveis e seguros. A divulgação ampla de quantos e quais estudantes brasileiros estão se especializando no exterior e internamente, em que áreas, com que objetivos e, mais ainda, a criação de um centro coordenador da "procura de cérebros" por parte de empresas privadas brasileiras, e do que elas oferecem, certamente viriam acelerar e melhorar o aproveitamento desse material humano. A fase que atravessamos, sem dúvida, é oportuna, pois, de um lado, a estabilidade monetária permite políticas empresariais mais decididas nessa direção e, de outro, a integração competitiva com a economia internacional na verdade exige crescentes investimentos em tudo o que possa significar maior presença no mercado mundial.