Notícia

Jornal Brasil

O "caipira" na Academia Paulista de Letras

Publicado em 08 setembro 2015

Tomou posse na Academia Paulista de Letras (APL), na quinta-feira (03/09), José de Souza Martins, professor emérito e titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), que integra o Conselho Superior da FAPESP.

Martins ocupa a cadeira 22, sucedendo Inezita Barroso, eleita para a posição em 2014 e que morreu antes de tomar posse. Inezita, que, entre outras atividades dedicadas à cultura popular brasileira, apresentou o programa de TV Viola Minha Viola de 1995 a 2015, foi antecedida na APL pela contista e romancista Ruth Guimarães.

“Com larga e honrosa generosidade de votos, a Academia acolheu meu nome como o de sucessor de Inezita e Ruth, as mais recentes titulares da cadeira 22. Inezita deveria estar tomando posse a essa hora e, portanto, fazendo elogio literário de sua antecessora, Ruth Guimarães, como é da tradição. Não tendo ela podido fazer, peço a essa academia que a considere empossada junto comigo”, disse Martins.

“O perfil multifacetado do novo acadêmico é um leque de caminhos instigantes revelando a imagem de um ser generoso movido a curiosidade. Peregrino de várias áreas, seus passos o levaram da vila de operários na cerâmica São Caetano a Cambridge, para lecionar brasilidades. José de Souza Martins vê a vida com olhos de poeta, cérebro de sociólogo, espírito de historiador e inquietação de jornalista”, disse Paulo Bomfim, poeta e decano da APL, que fez a saudação a Martins na cerimônia de posse.

Gabriel Chalita, secretário municipal de Educação de São Paulo e presidente da APL, destacou a conciliação das trajetórias acadêmica e literária de Martins.

“Trata-se de um grande antropólogo, uma pessoa que tem uma visão da história brasileira de uma forma muito lúcida, um homem com uma experiência acadêmica e ao mesmo tempo uma linguagem profundamente literária. A gente aqui vive de chegadas e partidas: partiu a Inezita, que não teve a oportunidade de tomar posse, e antes dela Ruth Guimarães, uma grande escritora, folclorista, contista, e agora entra esse homem caipira, como ele diz, mas com uma vertente científica e uma profundidade da palavra muito grande. Para nós é uma honra recebê-lo aqui”, disse à Agência FAPESP.

Martins foi introduzido na cerimônia por Celso Lafer e Mafra Carbonieri. A chegada do novo acadêmico também foi saudada por José Goldemberg, presidente da FAPESP e membro da APL.

“É um privilégio ter uma pessoa do nível de José de Souza Martins entre nós. Ao tomar posse, ele fez um depoimento histórico do papel dos seus antecessores, que é a tradição, mas levantando aspectos que a grande maioria das pessoas não conhece e colocando-se como um representante do caipira na literatura, uma característica eminentemente brasileira. Isso contribui imensamente para a diversidade e a riqueza que temos aqui.”

Um caipira na Academia

José de Souza Martins nasceu em São Caetano do Sul, em 1938. Iniciou sua trajetória acadêmica no curso de Ciências Sociais da USP em 1961 e, na mesma instituição, obteve os títulos de bacharelado, licenciatura, mestrado, doutorado e livre-docência. Foi professor na Cátedra Simón Bolívar (1993-1994) da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos (1983), e no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em Portugal (2000).

É autor de 34 livros, muitos deles dedicados ao Brasil rural e à compreensão da sociedade brasileira, como O Cativeiro da Terra(1979), O poder do atraso (1994) , Fronteira - A degradação do Outro nos confins do humano (1997), Exclusão social e a nova desigualdade (1997), A sociabilidade do homem simples (2000), A sociedade vista do abismo (2002), O sujeito oculto (2003),Sociologia da Fotografia e da Imagem (2008), José de Souza Martins [Fotografia] (2008), A Política do Brasil Lúmpen e Místico(2011), Uma Arqueologia da Memória Social (2011) e A Sociologia como Aventura (2013).

Em seu discurso de posse, destacou aspectos da trajetória dos seus antecessores na cadeira 22 da APL que exaltam o modo de vida do caipira brasileiro, de quem se disse representante.

“Pouco mais de um século separa o modo de pensar o mundo de João Monteiro, patrono da cadeira 22, e Inezita Barroso, penúltima eleita para ocupá-la. Seis pessoas antes de mim tiveram a mesma honra. A história dessa travessia rumo ao Brasil profundo, caipira e sertanejo, do nosso eu, passou por aqui, pelo coração e pela mente dos que ao longo dos anos foram titulares da Academia, dentre eles Ruth Guimarães e Inezita, mas também Valdomiro Silveira, Otoniel Mota, Amadeu Ataliba Amaral, Monteiro Lobato, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Alceu Araújo, Oracy Nogueira”, lembrou.

Ainda homenageando outros membros da APL, Martins falou da importância da língua nheengatu, que incorpora a fala dos índios tupi, na formação do dialeto caipira – que, lamentou, ainda é alvo de preconceito.

“Destaco também Plínio Airosa, professor de tupi na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), língua da qual o português se nutre na formação do dialeto caipira, que é sumo e sumário de um falar proibido no século 18, até hoje estigmatizado mais por ignorância e preconceito do que por conhecimento e sabedoria. Um falar que insiste, persiste e resiste.”

A exaltação do caipira brasileiro seguiu com apresentações de modas de viola executadas por Ivan Vilela Pinto, professor da Faculdade de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

“Como já deu para desconfiar, com a minha posse, o caipira está de volta à Academia Paulista de Letras”, disse Martins.

Fonte Agência FAPESP