Notícia

Jornal da Unesp

O buraco é mais em cima

Publicado em 01 março 2000

Ao contrário do que diz o velho ditado, no caso da camada de ozônio o buraco pode não ser apenas mais embaixo, na Antártida. mas também aqui mesmo, sobre o Estado de São Paulo. Pelo menos é o que foi detectado durante uma campanha de lançamento de balões estratosféricos, realizada em 1997 pelo Grupo de Lançamento de Balões do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da UNESP, câmpus de Bauru. O objetivo do trabalho, coordenado pelo físico Ngan André Bui Van e que vem sendo realizado desde 1995. é medir a concentração do gás clorofluorcarbono (CFC) da atmosfera da região tropical do Estado. Os resultados surpreenderam. "Os dados coletados mostram que as concentrações do CFC são 20% a 25% maiores na região de São Paulo do que no sul da França, um país industrializado", revela Bui Van. "'Entre 15 km e 32 km de altitude, as concentrações do CFC medidas na França, em 24 de junho de 1998. variaram entre 150 a 200 partes por bilhão (ppb). enquanto em São Paulo esse índice chegou a 250 ppb. em medição feita seis meses antes, em 30 de novembro de 1997." A diferença de tempo, segundo o físico, é necessária para que as aferições ocorram na mesma estação do ano. As causas dessa diferença ainda não são totalmente conhecidas. "Por enquanto, as explicações são especulatórias", reconhece Bui Van. "O que se sabe, com certeza, é que no hemisfério Norte se concentra uma maior quantidade de indústrias, que podem ser responsáveis pela injeção de CFC na atmosfera. Assim, o que se cogita é que o CFC produzido no hemisfério Norte possa estar sendo transportado pela circulação global em direção à Antártida. onde se encontra, na primavera, o maior 'buraco de ozônio' do mundo, podendo estar passando sobre a região de São Paulo." OZÔNIO DO MAL É justamente para esclarecer essas suposições que a União Européia realizará, com a participação da UNESP, vôos de balões pelo mundo. O objetivo é determinar a distribuição de ozônio entre 20 e 30 km de altitude. O trabalho é importante, pois o aumento nas concentrações do CFC na atmosfera, principalmente acima de 15 km de altitude, onde atua o sistema de circulação global, destrói a camada de ozônio, que protege a Terra contra as radiações, principalmente a ultravioleta, que causa câncer. Mas não há motivo para alarme - ainda. "Não existe na região tropical de São Paulo a formação de alta concentração de CFC", tranqüiliza Bui Van. De qualquer forma, o cientista lembra que nem todo ozônio é benéfico. "Aquele presente na superfície, por exemplo, produzido principalmente pela queima de combustível, é maléfico: pode provocar, a curto prazo, problemas respiratórios e irritações nos olhos e garganta. A longo prazo, pode desencadear o câncer de pulmão." As pesquisas do Grupo de Lançamento de Balões do IPMet, que foram financiadas pela União Européia e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), contando também com a colaboração de diversas instituições científicas da Europa e dos Estados Unidos, fazem parte de um programa extensivo de meio ambiente para monitorar a concentração de ozônio na atmosfera, incluindo sondagens a bordo de balões estratosféricos, de aviões comerciais e por meio de satélite.