Notícia

Dinheiro Rural

O Brasil só vai ter carro movido a álcool

Publicado em 01 julho 2005

Por Fabiane Stefano

Entrevista
Governador diz que a cana ainda vai crescer muito em São Paulo, sem prejudicar a pecuária e as outras culturas

O governador Geraldo Alckmin é um velho entusiasta do campo. O médico, filho de veterinário, viveu em fazendas até os 16 anos. Já foi um pequeno produtor de leite em Pindamonhangaba. Como governador do maior estado industrial do País, Alckmin acredita que o agronegócio está na base da economia paulista e aposta na cultura de cana-açúcar como a grande locomotiva do setor. "Em poucos anos, todos os carros brasileiros serão bicombústíveis", diz. "Na prática, rodarão com o álcool que é mais barato". Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista à Dinheiro Rural.

Dinheiro Rural — O estado de São Paulo é reconhecido por sua força industrial. Como é a participação do agronegócio em São Paulo?
Geraldo Alckmin - É muito importante. O agronegócio é o negócio de São Paulo. A economia paulista nasceu e cresceu através do agronegócio. Foi a cafeicultura, a força do café no passado, que criou a base da economia de São Paulo, inclusive para a implantação industrial e sua expansão. Mas é impressionante a força do agronegócio em todo o estado. E muita produtividade e competividade. Hoje, o setor sucroalcooleiro é aquele que mais contribui para o PIB agrícola. O estado é o maior produtor mundial de açúcar e álcool. Acabamos de assinar um protocolo com a coreana CJCorp, que fará uma nova planta industrial em Piracicaba. Será a terceira fábrica de lisina a partir da cana, onde se produzirá um aminoácido para ração animal. A construção da fábrica começa no segundo semestre.

DR — E qual o impacto da indústria canaveira na agricultura do estado?
Alckmin — Em 2005, mais de 50% dos automóveis fabricados já serão bicombustíveis, o chamado flexfuel. Em poucos anos, o Brasil não vai ter mais carro a gasolina, nem carro a álcool. Só flexfluel. O consumidor fica com a faca e o queijo na mão. Subiu o álcool, coloca gasolina. Subiu a gasolina, coloca álcool. Mas na prática vai ser a volta do carro a álcool, porque o álcool é mais barato. Isso já está tendo reflexos em todo o estado. No pontal do Paranapanema, já estão sendo planejadas novas usinas. Neste 'momento, temos mais de 10 usinas em construção no estado de São Paulo. São grandes investimentos.

DR — Essa forte expansão não pode levar o estado à monocultura, o que não poderá se tornar um problema no futuro?
Alckmin - Não. São Paulo tem uma agricultura muito diversificada. Além da cana, também somos o maior produtor mundial de suco de laranja, setor que também está tendo uma grande melhora. Está crescendo a cafeicultura de qualidade no estado, com selo e certificação. Há sacas de café sendo vendidas por mais de R$ 1,1 mil. E o café gourmet. O leite também melhorou um pouco. O estado também é o maior exportador de carne bovina, embora não tenhamos o maior rebanho. Trabalhamos a carne para a exportação. Enfim, temos grãos, frangos, suínos. Ou seja, temos uma agricultura bem diversificada.

DR — E como o sr. avalia a citricultrua paulista?
Alckmin — Hoje, os preços estão melhorando. Mas o setor vem de uma fase multo difícil. Tivemos o amarelinho, a morte súbita, o cancro cítrico. Uma doença seguida da outra. Mas está melhorando. Há três meses, estive com o governador da Flórida, Jeb Bush, e disse para ele que precisavamos parar de brigar. São Paulo e a Flórida são os maiores exportadores do mundo de suco de laranja. Ao invés de brigarrnos, deveríamos trabalhar juntos por terceiros mercados. Tem muito mercado que pode ser explorado.

DR — E é possível se associar ao maior concorrente?
Alckmin - Ao menos, dá para não brigar.

DR — Hoje, ocorre grande migração de áreas de pecuária para culturas como cana. Como o senhor vê isso?
Alckmin — Realmente, a cana vive preços melhores, mas isso não é eterno. A rentabilidade do setor sucroalcooleiro é maior e o preço da carne está mais baixo. Com o real sobrevalorizado, os setores com menos rentabilidade sofrem mais. Esse é o caso da pecuária. Mas isso é transitório.

DR — Mas como se agrega valor nesses setores?
Alckmin — Ao invés de exportar o couro do boi, vendemos sapato, bolsas e cintos. Essa deve ser a lógica. Por isso, é importante reduzir impostos para o agronegócio. No álcool, por exemplo, houve uma redução de 25% para 12%. No setor couro-calçadista, caiu de 18% para 12%, já que temos três importantes pólos no estado, Jaú, Franca e Birigüi. E agora já enviei para a Assembléia um novo projeto de lei que reduz de 7% para zero a taxação sobre trigo,farinha de trigo, pão, macarrão e bolacha popular. Isso ajuda a tirar a carga tributaria do setor produtivo.

DR — Estados como o Mato Grosso e Rio Grande do Sul estão sofrendo mais com a crise na agricultura. E São Paulo?
Alckmin — Nós também tivemos algumas regiões afetadas pela seca. Ela não foi tão grave quanto a do Rio do Grande do Sul. Mas tivemos problemas nas regiões de Assis, Cândido Mota e São José do Rio Preto. Hoje, o estado está menos atingido nessa crise. Mas estamos ajudando os agricultores em dificuldades.

DR - O que o estado está fazendo?
Alckmin - Através da Nossa Caixa, estamos prorrogando em um ano o financiamento do crédito agrícola. E é a menor taxa de juros, 4% ao ano. Essa foi a medida que nós tomamos para ajudar o agricultor, principalmente o pequeno e o médio. Outra medida importante foi o crédito para o Moderfrota Paulista, na Agrishow de Ribeirão Preto. O programa ajuda o financiamento de tratores novos e usados, com dois anos de carência, prazo de cinco anos para pagar e juros de 4% ao ano.

DR — O que mais prejudica o campo: juros ou impostos?
Alckmin — E uma combinação terrível. A terceira questão é o câmbio. O real sobrevalorizado é uma conseqüência da taxa de juros. Quando a taxa de juros está lá em cima, entra uma enxurrada de dólares especulativos aqui e o câmbio conseqüentemente vai lá para baixo. O quarto problema é a falta de infra-estrutura. Estive em Sinop, no norte do Mato Grosso. A BR 163, que liga Cuiabá a Santarém, estava com buracos enormes na pista inteira e uma fila de caminhões sem parar.

DR — Hoje, o Porto de Santos está evidentemente sobrecarregado. Há alguma alternativa portuária à Santos?
Alckmin - O Porto de Santos é o maior da América Lati na e por isso estamos melhorando o acesso. Já duplicamos a Imigrantes, há o projeto estadual do Rodoanel, tem o projeto federal para construir a Perimetral, há também a dragagem do canal do porto. Mas, além do Porto de Santos, temos o Porto de São Sebastião, que é operado pelo estado e está sendo ampliado. Com a aplicação, navios com 225 metros de comprimento já podem atracar em São Sebastião. De lá, está sendo exportado gado vivo. E no projeto de PPP de São Paulo, o grande projeto é esse corredor de exportação: Campinas-São José dos Campos-São Sebatião. Duplicando a rodovia dos Tamoios e construindo um novo pier em águas profundas, com 14 metros de calado. Aí teremos o melhor calado entre Buenos e Aires e o México. E São Sebastião é o porto do álcool.

DR — Essa infra-estrutura ajuda o produtor paulista ou, por exemplo, o produtor do Mato Grosso que utiliza São Paulo como passagem até o porto?
Alckmin — Os dois são beneficiados. Além da malha estadual, estamos ajudando o produtor paulista recuperando estradas vicinais, através das prefeituras. Os demais estados também se beneficiam da infra-estrutura de São Paulo. A ponte rodoferroviária sobre o Rio Paraná, ligando São Paulo e Mato Grosso do Sul, só foi viabilizada porque o estado colocou R$ 500 milhões. O Rodoanel vai levar as auto-estradas que chegam a São Paulo até o Porto de Santos. Isso vai beneficiar aqueles que buscam o maior porto da América Latina.

DR — Que tipo de subsídios São Paulo oferece hoje?
Alckmin — Há basicamente três programas aqui. Um é o seguro rural e nós fomos pioneiros. Para o pequeno produtor, nós pagamos metade do prêmio do seguro, da parcela do seguro. O segundo é o crédito subsidiado, com juros de 4% ao ano. São 26 culturas financiadas. E o terceiro é o projeto de microbacias. Há 471 cidades no programa, envolvendo 2,4 milhões de hectares para conservação de solo.

DR — Esse subsídio pode ser questionado na OMC?
Alckmin — Não. E para o pequeno agricultor e familiar. O que interessa para o grande agricultor é reduzir a carga tributária. O Brasil com 38% de carga tributária, a maior dos países emergentes, e com 14% de juros real ao ano, o maior do mundo, não há competitividade que consiga resistir a isso. E fundamental reduzir a carga tributária e a taxa de juros para estimular quem produz a gerar renda e trabalho. Nós não temos esse instrumento da macroeconomia. Mas aqui no estado estamos tentando ajudar o agronegócio.

DR — São Paulo tem uma forte agroindústria, com grandes companhias e grandes produtores. Mas o que tem sido feito pelo pequeno agricultor?
Alckmin - Estamos tentando agregar valor a esse pequeno produtor. Já autorizei 87 galpões do agronegócio nos municípios do estado. São galpões de 2 mil metros quadrados de área construída. E praticamente uma incubadora de microempresas. Quem produz frutas, por exemplo, pode vender doces. Já quem faz leite pode fabricar o queijo, e assim por diante.

DR — Hoje, a Fapesp é tão importante quanto a Embrapa em termos de pesquisa no setor agropecuário. Quanto o estado investe em pesquisa?
Alckmin - O São Paulo é um dos únicos estados que coloca 1% do seu ICMS em pesquisa. Nós investimos R$ 1,5 milhão por dia em pesquisa — inclusive sábado, domingo e feriado. Isso dá R$ 500 milhões por ano só em pesquisa. Além disso, a Fapesp trabalha com muitas parcerias. Por exemplo, a pesquisa do genoma do Nelore é uma parceria entre a Fapesp e a Central Bela Vista, do empresário Jovelino Mineiro. A idéia é sequenciar o DNA do boi para buscar maior precocidade do animal, maior resistência a doenças e conseguir melhor maciez da carne. Metade do dinheiro vem da Fapesp e metade da iniciativa privada. A Fapesp já tinha participado do sequenciamento do genoma do amarelinho da laranja, da cana-de-açúcar, do eucalipto e agora o do boi.

DR — O senhor pessoalmente investe no campo?
Alckmin - Até os 16 anos de idade, nunca havia morado na cidade. Meu pai era veterinário. Por isso, sempre vivemos em fazendas. Tenho um sitiozinho em Pindamonhangaba, onde eu produzia leite. Cheguei a tirar 240 litros de leite por dia, em cinco alqueires. Parei quando assumi o governo do estado, porque isso exige muita presença. E eu trabalhava no sítio. Não era lazer, não. Acordava às 5 horas da manhã para fazer o controle leiteiro. Também fazia silagem e aplicava a vacinação. No dia que puder, volto a criar gado, especialmente o Jersey. Gosto muito da raça.