Notícia

Jornal do Brasil

O Brasil há 7 mil anos

Publicado em 27 junho 2010

Sempre se considerou que uma das funções principais dos sambaquis estava relacionada a rituais funerários. Mas estudos recentes sugerem que eles eram também marcadores territoriais, servindo de aviso a forasteiros.

Uma das descobertas recentes mostra que estes povos primitivos, que habitavam o litoral brasileiro do Nordeste ao Sul entre 7 mil e mil anos atrás, eram sedentários, o que exigia um maior grau de organização. Antes, se supunha que eles eram nômades.

Seus membros também eram mais numerosos do que se pensava. Estima-se que havia milhares pela costa brasileira e os grupos interagiam entre eles, como indicam os rituais funerários que eram partilhados por mais pessoas do que caberia em uma única comunidade.

Essa característica levou à hipótese de os sambaquis servirem como marcadores territoriais. O estudo foi coordenado por Paulo Antônio Dantas de Blasis, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP Desde 2005, pesquisadores coletam informações de sítios arqueológicos catarinenses sobre as sociedades que construíam os sambaquis, palavra que significa monte de conchas em tupi guarani. Covas rasas eram feitas na areia para depositar os mortos. Os restos de comida eram depositados sobre os corpos que, depois, ficavam sob conchas.

Esses túmulos eram construídos lado a lado, recebiam mais corpos em novas camadas e, por fim, eram agrupados em um único monte.

O material encontrado pelo estudo evidencia grandes festas funerárias que reuniam várias comunidades sambaquianas.

Os pesquisadores fizeram escavações minuciosas, além de lançar mão de recursos como radares de superfície e instrumentos de datação de objetos com o método de carbono 14 e da luminescência oticamente estimulada.

Uma das principais conquistas da pesquisa, segundo Blasis, foi a realização de mais de cem datações, o que permitiu detalhar o desenvolvimento destas sociedades e a construção de uma cronologia. A equipe escolheu Santa Catarina por ser o local onde se encontram os maiores sambaquis remanescentes.

"Havia sambaquis de cerca de 70 metros de altura. A maioria foi destruída", lamenta Paulo Blasis. A cal extraída dos sambaquis serviu de matéria-prima para a construção civil entre os séculos 17 e 19.

Entre as hipóteses para o desaparecimento destas sociedades está a miscigenação com povos de outros costumes. Um mistério que eles pretendem decifrar.

Fábio Reynol (Agência FAPESP)