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Globo Rural

O Brasil é líder em fecundação in vitro: São cerca de 130 mil embriões bovinos a cada ano

Publicado em 01 abril 2007

A morte da vaca filara, em 2004, poderia ser o prenúncio de queda nos ganhos de seus proprietários. Da matriarca nelore que gerou cerca de 170 descendentes - ente eles dezenas de campeões - ao longo de 21 anos de vida, não havia uma gota sequer de material genético guardado. Mas, para Felipe Picciani, um dos donos do animal, o lamento deu lugar a um lampejo inspirador. O criador reuniu três filhas de Bilara, todas com mais de dez anos, e encomendou clones de cada animal a uma empresa. "Era algo novo e incerto, mas não queríamos correr novamente o ris co de perder as boas características da linhagem" diz.
A empreitada não tardou a se mostrar lucrativa. A metade da réplica da vaca Bilara 7 (uma das três filhas da matriarca morta) foi vendida por 1,04 milhão de reais, no fim de 2006. A primeira negociação de um clone no país, além de um marco para a pecuária, tornou-se um divisor de águas para a clonagem comercial no Brasil.
Nos últimos 15 anos, o país vem costurando experiências de grande relevância na área de multiplicação animal. A evolução partiu inseminação artificial, passou pelo bezerro de proveta e culminou na obtenção do primeiro mamífero clonado da América Latina, em 2001. Era a bezerra Vitória, fruto de um trabalho desenvolvido pela Embrapa.
Para Rodolfo Rumpf, coordenador de projetos de reprodução animal na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o índice de sucesso da técnica ainda é baixo. Vai de 1% a 5%, quando o doador é urna fêmea, e de 11% a 12%, se for macho. "Mas se há necessidade de repor o estoque genético de animais de elevado mérito ou fazer regeneração de material perdido, todo esforço se justifica" diz Rumpf, membro da equipe que criou Vitória.
Uma das pioneiras nacionais na venda de clones é a Vitrogen, que iniciou o trabalho há quatro anos. "Desde então, todo o dinheiro que ganhamos foi em pregado na área de pesquisa e compra de materiais" diz Yeda Watanabe, diretora de pesquisas e sócia da Vitrogen. Hoje, o cu médio para se conseguir indivíduos geneticamente iguais fica em torno de 50 mil reais. "O que encarece o processo são as barrigas de aluguel, pois há muitos abortos" afirma. A expectativa, porém, é de que cinco anos o serviço se tome mais acessível, com melhores índices de gestação.
Se a clonagem ainda busca se firmar por aqui, outra forma de multiplicação animal já alçou o país à condição de número um: a fecundação in vitro, conhecida pela sigla FIV. "O Brasil responde por 48% do movimento desse mercado, produzindo in vitro 130 mil embriões bovinos por ano" diz João Henrique Viana, Presidente da Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões e pesquisador da Embrapa Gado de Leite.
No início da década de 1990, a FIV já era pesquisada em diversas instituições públicas. E foi por meio da Unesp - Universidade Esta dual Paulista, de Jaboticabal, que se obteve o nascimento do primeiro animal através dessa técnica. Yeda, que na época desenvolvia sua tese de mestrado na entidade, participou da iniciativa. Foi com o conhecimento adquirido, somado à oportunidade que teve logo após administrar um laboratório de biotecnologia da USP, que a bióloga re solveu montar seu próprio negócio, em 1999. Juntaram-se a ela sua prima Michele Watanabe, que fazia iniciação científica, e o veterinário André Dayan. Com o crescente interesse pela FIV e, mais recente mente, pela clonagem, a empresa decolou. E já exporta tecnologia em genética animal para Colômbia, Venezuela, Uruguai e México.
Um dos fortes impulsos ao avanço da biotecnologia no país emergiu no fim dos anos 90, por meio da Fapesp, agência paulista que investe em pesquisas. A entidade fez um diagnóstico sobre produção científica e concluiu que, em todas as áreas, o Brasil estava em pé de igualdade com outros países (quando não melhor) - exceto em engenharia genética. Surgiu então a idéia de escolher um organismo de interesse
econômico ao país e usá-lo para difundir a atividade - à época, fervilhavam os seqüenciamentos de genomas no mundo. A opção recaiu sobre a bactéria Xylella fastidiosa, causadora do amarelinho em plantios de laranja, fruta em que o Brasil é líder mundial de produção: 350 milhões de caixas ao ano.
Para o estudo, denominado Projeto Genoma, formou-se uma rede de laboratórios com mais de 200 pessoas, dentre elas Jesus Ferra "Não sabíamos como fazer aquilo, era tudo muito novo. Tivemos que aprender na prática afirma. Finalizado o trabalho, em 2000, houve ampla divulgação dos resultados, inclusive pela revista Nature, importante meio de difusão da ciência no mundo, O conhecimento adquirido fez nascer nos pesquisadores o desejo de criar produtos. Este anseio e a percepção de que ciência e indústria podem ser aliados, e não competidores, eram novidades por aqui. "No passado, se um cientista pensasse em sair da universidade para levar ao mercado sua descoberta, isso seria considerado sacrilégio", diz Ferro.
Para um grupo de cinco participantes do Projeto Genoma, a oportunidade de quebrar o antagonismo entre ciência e mercado veio em forma de convite, feito pela divisão de Novos Negócios da Votorantim, um fundo de capital de risco de um dos mais poderosos grupos econômicos brasileiros. Em 2002, um aporte inicial de 30 milhões de dólares forneceu as bases para a criação da Alellyx - inversão quase exata do nome da bactéria seqüenciada, a Xylella.
A empresa resolveu estudar culturas em que o Brasil é líder e nas quais as multinacionais não estavam focadas, como laranja, eucalipto e cana-de-açúcar. Por conta do boom do etanol, projetos com essa última planta viraram prioridade. Além da pesquisa de uma variedade resistente à seca, a Alellyx busca uma cana com maior teor de sacarose, O composto é fundamental na obtenção de açúcar e no processo de fermentação, durante a fabricação do álcool. "Com a elevação da produtividade, cairia a demanda por novas áreas de cultivo, preservando regiões de mata virgem e ecossistemas importantes" afirma Ferro um dos diretores da Alellyx. Em testes feitos em casas de vegetação, chegou-se ao nível de 60% a mais de saca rose. Se metade dos resultados se repetirem no campo, o produto já será viável.
Os pesquisadores da empresa também realizam um melhoramento voltado ao aumento da biomassa na cana, tomando-a mais fibrosa, com vistas à produção de álcool a partir do bagaço. O rendimento normal da planta em São Paulo é de 85 a 90 toneladas por hectare; a cana-energia, como está sendo chamada, pode chegar a 200 toneladas por hectare. Na laranja, a Alellyx investiga estratégias contra o virus causador da leprose dos citros; no eucalipto, a redução de custos e do impacto ambiental da produção de celulose. Grandes indústrias da área de tecnologia agrícola, como Basf e Bayer, já procuraram a AIellyx em busca de par cenas. Potencial a empresa já provou que tem: possui mais de dez patentes, em diferentes fases de aprovação.
O interesse de estrangeiros por produtos de biotecnologia gerados no Brasil se estende a atividades não tão high-techs, mas igual mente vigorosas, como as biofábnicas. Exemplo disso é a Bug Agentes Biológicos.
A empresa atua num mercado sui-generis, exportando ovos de insetos para laboratórios europeus. O produto é insumo para a obtenção de insetos utilizados, principalmente, cont pragas do milho, A produção de inimigos naturais de pragas ganhou forte impulso, nos últimos anos, pois veio ao encontro da tendência pela busca de soluções ecologicamente corretas. "Hoje, há uma grande pressão da sociedade por alimentos com menos resíduos químicos" diz Danilo Pedrazzoli, diretor da Bug. O bolso do agricultor também obtém vantagens: o controle biológico costuma ser mais barato do que os tratamentos tradicionais.
A biofábrica foi constituída com o auxílio do programa Pipe da Fapesp, que apóia pesquisas inovadoras a serem executadas por pequenos negócios. O projeto envolvia transferência de tecnologia da USP de Piracicaba para a Bug (na época, Danilo e seu só cio, Diogo Carvalho, eram estudantes de pós-graduação na instituição). Com a "fabricação" de insetos em escala comercial, a empresa engrossou um novo mercado no país. "A produção costumava ser feita apenas em pequena escala por universidades, sendo muitas vezes doada", diz Danilo Pedrazzoli. Hoje, ele e o sócio criam cerca de 50 milhões de ovos por dia, e estudam elevar o volume para melhor atender à crescente demanda, especialmente por trichogrammas e cotésias.
Estima-se que em todo o mundo sejam tratados com as vespinhas trichogrammas mais de 18 milhões de hectares de milharais e canaviais. A eficiência desses insetos está no fato de que matam os ovos das pragas, evitando danos vultosos na cultura. As cotésias, por sua vez, atuam quando a lagarta já entrou na planta. Ao utilizá-las, o objetivo é diminuir a população da praga em anos seguintes. Hoje, o maior programa de controle biológico é o que se faz com a broca da cana no Brasil: as cotésias são liberadas em um milhão dos 5,6 milhões de hectares cobertos pela cultura.
Apesar da magnitude que a biotecnologia vem ganhando no país, existem ainda pesados entraves. Embora haja profissionais capacitados, as indústrias brasileiras absorvem poucos cientistas. A conseqüência é que muitos acabam migrando para países desenvolvidos. A Lei da Inovação, promulgada em 2005, deu um passo inicial ao estabelecer medidas de incentivo à pesquisa tecnológica no ambiente produtivo, mas não avançou substancialmente, Há ainda reivindicações para um maior estímulo à desoneração de tributos para a atividade. "Se temos de importar um aparelho que custa 350 mil dólares, pa gamos mais 150 mil só de imposto" diz Ferro.
Para Alexandre Nepomuceno, da Embrapa Soja, os obstáculos jurídicos e ideológicos que paralisam a pesquisa e aplicação de transgênicos também atrasam o desenvolvimento do país. Ficamos seis anos num imbróglio para a liberação da soja geneticamente modificada e os produtores gaúchos a plantaram ilegalmente, trazendo doenças da Argentina e variedades não adaptadas às nossas condições, tudo por que estavam perdendo competitividade" diz.
Dados do CIB - Conselho de Informações sobre Biotecnologia, dão conta de que os agricultores brasileiros poderiam ter acumulado 4,6 bilhões de dólares na última década, com a adoção de soja transgênica. Mas o valor não passou de 1,5 bilhão de dólares - aquém dos concorrentes Estados Unidos e a Argentina, que avalizaram o produto há mais tempo.
Nepomuceno salienta que a biotecnologia é apenas mais uma ferramenta para o sucesso da produção e deve se aliara praticas de manejo agronômicas. Por essa razão, não se torna interessante utilizar todos os anos uma mesma planta tolerante a um herbicida, como o glifosato na soja, pois com o tempo podem surgir ervas daninhas resistentes.
Tendo isso em vista, a Embrapa estuda a criação de uma variedade do grão resistente a outra molécula, a imidazolinona, que deve estar no mercado em até três anos. "A alternância de variedades, inclusive com não-transgênicas, pode levar à redução de custos e ao menor impacto ambiental' diz Nepomuceno, que também é membro da CTNBio - Comissão Técnica Nacional de Biossegurança.
A soja e o algodão são os transgênicos liberados no país. Mas outras dez variedades aguardam autorização de plantio comercial. No mês passado, uma medida provisória que reduz o quorum necessário para a liberação pela CTNBio passou pelo Senado e seguiu para sanção presidencial. E mais um episódio que trará in quietação aos ambientalistas e esperança aos cientistas. "Temos que avaliar cada produto com cuidado, mas não podemos ficar para trás" avalia Nepomuceno.