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O belo, o cômico, e o descalabro

Publicado em 28 junho 2012

A palavra inovação em meio a verbetes tais como acessibilidade, sustentabilidade e outros conceitos obsessivos em alta no capitalismo global entraram na moda. Porém, o que é novo não significa a mesma coisa para cada falador. Novo, como desconhecido, lembra o inconsciente que deixa de sê-lo uma vez integrado ao universo do consciente.

O novo não garante o bem e o bom, apenas é original. No entanto, no rolo midiático perde-se de vista que o novo não assegura um antídoto contra a depressão, a angústia, a tristeza e o mal.

Lembro-me do meu entusiasmo quando, em palestra na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), o poeta Carlos Vogt apregoava a necessidade de inovação, e, até mais do que isso, a necessidade de inovar a inovação (na oportunidade, Vogt presidia a Fapesp).

Imediatamente enalteci a assertiva dele, aqui, nesta página do DCI. Também recentemente, em São Paulo, no tradicional encontro de negócios (25°) da Duke Energy com seus stakeholders, o engraçado Luciano Pires discorreu por aproximadamente uma hora, para trezentos executivos, sobre a Fórmula da Inovação. Seu primeiro e humorado ensinamento foi o de que otimização não é inovação.

Disse, em seguida, abordando inovação como processo, que inovação é busca sistemática, organizada e contínua por novas oportunidades. A palavra contínua é pouco lembrada, e de fato mereceu destaque para Luciano Pires. O mérito de Pires, entre tantos, é observar pessoas que não sabem o que é impossível. Relatou um caso de um pedido milionário de produtos, recebido por uma fábrica que demandava uma peça torneada de 14,5 mm. No entanto, a empresa, ouvindo seus engenheiros, sentiu-se incapacitada de tornear acima de 12,5 mm. Portanto, a encomenda seria descartada. No entanto, um metalúrgico, por conta e risco seus, mexeu alguns parafusos e levou a peça desejada com os ativos disponíveis. Ele não aceitava o impossível.

Daí Pires deduz: "Inovação deve ser entendida de forma compreensiva". E avança ao indicar que o inovador deve estar pronto e preparado para muitas e fortes adversidades. O fato é que a inovação é tanto mais relevante quanto mais simples - e, não raramente, óbvia. Portanto, o inovador que se prepare. Cito a pensadora brasileira Suely Rolnik (PUC-SP), em seu célebre livro Cartografia do Desejo, produzido com o falecido filósofo da Escola de Paris Felix Gattary.

O inovador será, pela sua singularidade revolucionária, infantilizado, segregado e culpabilizado. Em sua apresentação na Duke Energy, Pires reproduz o filósofo educador brasileiro Rubem Alves: "Rotinas e repetições paralisam o pensamento. Inteligência se alimenta de desafios. Sem desafios ela murcha, encolhe. O conhecimento só se inicia quando o familiar deixa de ser familiar, quando nos espantamos diante de um enigma: Uau!".

Inovar não é mesmo para qualquer um. Diz Pires que "num mercado competitivo, ser mediano, jogar pelas regras, é ser invisível". E fornece sete regras para a inovação:

1) faça diferente; 2) crie um ambiente favorável para a inovação; 3) desenvolva habilidades para a inovação; 4) crie expectativas não razoáveis; 5) faça uma definição elástica de seu negócio; 6) defenda uma causa, não um negócio; e, 7) recompense. Pires considera inovação uma disciplina prática por meio do uso imaginativo -e não genial- de conhecimentos ao alcance de todos (novas maneiras de fazer velhas coisas).

A literata emérita da Universidade de São Paulo (USP) Leyla Perrone-Moisés, em Altas Literaturas, ensina o verdadeiro valor do novo. Ele pode conter o inventivo, o surpreendente, o imaginário, o original... mas não assegura o nirvana, o céu e que tais. Há que ser crítico. Em políticas públicas assiste-se a descalabros de toda ordem - históricos e geográficos - direcionados para a inovação. Eis alguns exemplos:

A) Cobra-se de cada consumidor de energia elétrica um encargo sobre sua fatura mensal. O dinheiro arrecadado deve ser destinado, em parte, à Pesquisa e Desenvolvimento das empresas concessionárias de geração, distribuição e transporte de energia. No entanto, há mais dinheiro (mais de R$ 1 bilhão anual) do que projetos. Por quê? Simplesmente porque o encargo, que onera a todos, não emergiu das bases da sociedade e das empresas do setor. Foi imposto de cima para baixo.

B) Eis um caso de omissão: diminuem-se impostos sobre a cadeia produtiva automotiva. Mas não se demanda a introdução de progressos tecnológicos do setor;

C) Falta isonomia: obrigam-se fabricantes a capturar e redirecionar seus produtos depois de usados (pela Lei dos Resíduos Sólidos). No entanto, uma parte substantiva dos resíduos sólidos em pauta procede de importações que até desindustrializam segmentos no Brasil. E não há qualquer isonomia de custos entre os produtores nacionais e as quinquilharias concorrentes internalizadas no País;

D) Estimulam-se carros flex elétricos, que nada têm a ver com o Brasil (eles precisam de lítio boliviano ou afegão, além de terras-raras chinesas, chumbo, cádmio e muita energia elétrica), enquanto se asfixia a produção de etanol;

E) Incentivam a geração eólica de energia elétrica, mas sofismas ambientalistas impedem (desde 1986) a implantação de grandes reservatórios de acumulação voltados à hidroeletricidade e à própria estocagem da energia dos ventos. Resultado: água e vento serão igualmente voláteis no Brasil, muito mais se admitirmos as mudanças climáticas em curso. O País cairá na dependência dos hidrocarbonetos combustíveis (fato que convém ao pré-sal).