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Jornal da USP online

O audiovisual sobe os palanques

Publicado em 01 fevereiro 2016

Por Leila Kiyomura

Rever a cultura dos discursos políticos e observar promessas em altos brados que jamais desceram dos palanques é uma das análises que o livro Um Bandeirante nas Telas – O discurso adhemarista em cinejornais propicia. O leitor/eleitor vai voltar no tempo e caminhar, com o historiador Rodrigo Archangelo – mestre e doutor pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP –, entre as pedras da democratização. E acompanhar, a partir de 1946, as estratégias das mensagens para convencer o eleitorado. A edição, publicada pela AlamedaEditorial, será lançada no próximo dia 25 na Livraria Martins Fontes (avenida Paulista, 509).

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“O livro aborda a construção do discurso do político Adhemar de Barros através das edições semanais de seu cinejornal Bandeirante da Tela (BT), exibido em São Paulo e em outros estados brasileiros entre 1947 e 1956”, observa o autor. “Nesta proposta, procuro analisar traços de uma cultura audiovisual calcada em signos latentes da sociedade paulista/paulistana – como a figura do bandeirante, por exemplo – através de um tipo de documento que ainda merece ser mais aprofundado pelos estudos históricos envolvendo cinema no Brasil: o cinejornal”, conta Archangelo.

O autor argumenta que, apesar de intensos e extensos trabalhos que relacionam história e cinema, o cinejornal no Brasil ainda não foi muito pesquisado. “Digo isto em comparação aos estudos estrangeiros, e diante da enorme presença dessa categoria de filme em nossa cinematografia: quase um terço do que hoje se conhece sobre a filmografia brasileira; e praticamente a metade do que foi filmado no Brasil até meados dos anos 1980, quando o cinejornal deixa de existir efetivamente. Por outro lado, trago ao público interessado uma leitura que julgo inédita sobre a construção do ‘populismo’ adhemarista, uma vez que nenhum trabalho sobre Adhemar de Barros havia lançado mão dessa fonte de pesquisa.” Rodrigo Archangelo reafirma que sua meta foi contribuir para apurar o olhar crítico sobre o uso político e propagandístico das imagens em movimento, algo cada vez mais necessário nos dias de hoje.

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Acirramentos ideológicos Na avaliação do historiador, Um Bandeirante nas Telas é lançado em um momento oportuno: “Hoje, presenciamos acirramentos ideológicos banhados na desinformação, no fiel consumo de imagens massificadas e na credibilidade atribuída às mensagens telegráficas veiculadas pelos grandes meios de comunicação”.

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Mostrar criticamente fragmentos de um discurso político exageradamente paulistano, até então esquecido dentro dos muros da Cinemateca Brasileira, na avaliação do autor, é necessário para uma revisão cultural da política brasileira. “Isso me faz pensar no quanto uma pesquisa histórica com os cinejornais pode contribuir. Primeiro, por alavancar a dimensão de patrimônio audiovisual dessas imagens, que só assim podem ser entendidas enquanto tal, ou seja, no seu efetivo contato e troca com a sociedade. E, em segundo lugar, por demonstrar como certo contrato social, insistentemente mostrado nessas imagens dos anos 1940/1950, com os lugares-comuns da ‘tradição paulista’, os preconceitos com os ‘de fora’, os valores morais e éticos na representação de diferentes camadas sociais, ainda se faz presente, sempre tentando prevalecer sobre a realidade que cerca o político – como a própria tensão nas imagens do cinejornal Bandeirante da Tela em relação ao seu contexto”, reflete.

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O estudo de Archangelo, pontuado pela pesquisa e ética, foi apresentado em 2007 em seu mestrado, orientado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro. Revisto e atualizado, destaca-se pelo ineditismo da fonte, do tema, e como ele próprio analisa pela consequente contribuição para a aferição do olhar crítico sobre qualquer imagem em movimento apresentada pelos meios de comunicação em massa. “Seja qual for o contexto histórico, as imagens têm uma historicidade que não pode ignorada, bem como os interesses que as compõem.”

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Diante das denúncias sobre a atual crise econômica, política e cultural, o historiador pondera: “O ano de 2016 promete trazer fortes cenários para a verificação dessas contribuições que os cinejornais podem dar aos olhos do século 21”.

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Rever a própria história

Ao resgatar a cultura e a política de São Paulo, o paulistano Rodrigo Archangelo revê também a própria história. “Sou descendente de imigrantes italianos e migrantes nordestinos. Sempre estudei em escola pública, inclusive na universidade. Minha formação acadêmica foi toda no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde sempre me interessei pela pesquisa em arquivos.”

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Na iniciação científica, Archangelo se dedicou à disputa sindical nos anos 1930-1940 nas oficinas da Light em São Paulo, onde o avô trabalhou por toda a vida. “Já no mestrado e doutorado, as imagens dispersas e fragmentadas dos cinejornais sempre me atraíram, quis meio que ‘fazer justiça’ a elas sobretudo porque foram relegadas ao status marginal. Nas sessões cinematográficas, críticos e parte do público o tinham como um estorvo exibido antes do longa principal.” No momento, o historiador atua no Centro de Documentação e Pesquisa da Cinemateca Brasileira.

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Para Boris Kossoy – coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Imagem e Memória (NEIIM-Leer) e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP –, o livro Um Bandeirante nas Telas apresenta-se como uma obra sugestiva de análise histórica do discurso e da propaganda política. No cinejornal têm-se, como principais elementos, o documento e a propaganda, ambos atuando em conjunto visando à criação e construção de realidades, processo regido pelos donos da informação e do poder. Desvendar essa trama é a tarefa a que se dedicou o autor há anos, cujos resultados têm contribuído para reavaliações importantes de natureza multidisciplinar.

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Lançamento

Um Bandeirante nas Telas – O discurso adhemarista em cinejornais, de Rodrigo Archangelo, publicado pela Alameda Editorial, será lançado no próximo dia 25 na Livraria Martins Fontes (avenida Paulista, 509). Apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer/USP) e da Cinemateca Brasileira. Preço: R$ 48,00.