Notícia

Correio Popular

O ateu virtuoso

Publicado em 20 maio 2003

"Por que, nas teses acadêmicas, existe o materialismo vulgar, se ninguém fala em espiritualismo vulgar?" A pergunta foi-me endereçada por um colega erudito e refinado, em conversa livre após nauseante reunião departamental. As melhores perguntas surgem assim, quando as pessoas se cansaram das taxinomias e das análises estereotipadas, ou dos seminários onde a disciplina proíbe questões impertinentes, as únicas necessárias. No mundo dos "especialistas" ocorre uma divisão territorial inabalável. Nele, indivíduos são donos dos espaços. Na filosofia, itens foram postos num fichário onde ficam presos os teóricos, como borboletas de entomologista. Os donos do idealismo proclamam virtudes de seus heróis. Os que vendem produtos na bolsa acadêmica de valores celebram a cotação diária, que significa aumento no montante de bolsas, ajuda à pesquisa etc. O sucesso do investimento requer golpes baixos e não pode ser ignorada a técnica que desvaloriza as ações adversárias. Essa via responde a dúvida do meu colega. O materialismo é "vulgar" para que os espiritualistas do mercado no ético tenham lucro. Fichas em "ismo" levantam a suspeita: é propaganda em favor desta ou daquela mercadoria, no armazém filosófico? Nada que já não tenha sido esculhambado por Luciano de Samosata em A Feira dos Filósofos. Ali, o satírico gargalha com a venda das vidas filosóficas que forneceriam aos compradores um modelo curricular para... subir na vida! O fracasso levanta novas ondas de riso, prêmio da tolice. Falar em materialismo na universidade é arriscado. O bom tom exige o estudo de Rousseau, sem Diderot, Kant, sem La Mettrie, Hegel, sem Marx. Autores como o gênio da Enciclopédia foram desprezados, pelos vulgares espiritualistas, como "literatos" sem relevância filosófica. Uma reação se esboça. Estudos sobre Diderot ressaltam o peso de suas posições epistemológicas (I. Prigogine e I. Stengers); os nexos do materialismo e da estética mais refinada (G. Stenger); as inflexões da atitude materialista sobre a ética moderna (F. Salaün); a liberação dos sentidos (lógicos e somáticos) numa filosofia que brinca e joga no mundo das artes e da política (Eric-Emmanuel Schmitt). Tais análises unem ateísmo e moral, considerados como antiéticos pelo cristianismo. No Brasil, Paulo Jonas de Lima Piva publica belo ensaio sobre a ética diderotiana. Em O Ateu Virtuoso, Materialismo e Moral em Diderot (Fapesp/ Discurso Ed.), ele apresenta uma análise original do tema. As principais obras do imaginário entram no seu debate sobre o materialismo. A escolha dos romances, pelo autor, não foi aleatória. Diderot inscreve-se no horizonte que, desde o Renascimento, valoriza as letras e as artes como as mais belas flores do trabalho humano. O programa de Diderot amplia a Instaurado magna baconiana: todos os poderes do intelecto e do corpo se concatenam. Assim, as minuciosas e bem sucedidas análises de Lima Piva sobre A Religiosa, O Sobrinho de Rameau e outros livros, levam à tese de que as virtudes éticas, no mundo pós-cristão, podem ser viáveis, desde que a ciência e as artes cumpram seu alvo civilizador. As ambigüidades do programa iluminista são exploradas por Lima Piva, em páginas bem fundamentadas, a partir de comentadores competentes. Importantes, sobretudo, as passagens que discutem A religiosa, uma das fontes mais ricas para o estudo da mentalidade social, mística, política do século 18. Ali, o materialismo diderotiano atinge dimensões sublimes, ao contrário do esquematismo idealista e transcendental. A freira encarcerada reúne, na alma e no corpo, os tormentos de uma sociedade onde domina a hipocrisia e a má fé, onde a vida sexual, o lesbianismo por exemplo, não pode dizer seu nome e se esconde sob a máscara das "virtudes". Leo Spitzer, o mais fino analista dos textos do bom Diderot que eu conheço (a ignorância é o meu limite), diz ser apenas "um pretenso conhecedor do estilo diderotiano" (The Style of Diderot). E depois nos brinda com soberbo exame do filósofo. É insuperável sua descoberta de que o ritmo da frase, em Diderot, materializa os mais delicados e violentos atos do ser humano, do beijo à cópula. A modéstia de Spitzer nos choca quando lemos, em resenhas jornalísticas, elogios a notórios remendões da escrita, bem postos nas cátedras acadêmicas e nos comitês que distribuem benesses e bolsas de estudo. No caso do jovem Lima Piva, fica ao leitor a certeza de que o mundo universitário, apesar dos ridículos, merece confiança. Se nele surgem trabalhos como O Ateu Virtuoso, as taxionomias não dominam absolutamente, as fichas que dividem o mundo intelectual perdem o sentido.