Notícia

Jornal do Brasil

O ataque à pós-graduação

Publicado em 11 setembro 1997

Por REINALDO GUIMARÃES
Em ilustrados círculos para governamentais, desenha-se mais um ataque ao ensino público de nível superior. Nos últimos anos, a universidade pública foi por eles acusada de cara, ineficiente e tudo o mais, num bombardeio só comparável à indulgência com que, paralelamente, tratavam as históricas e notórias deficiências do setor privado de terceiro grau. O novo ataque dirige-se à pós-graduação. Poucas iniciativas brasileiras de caráter nacional foram, em sua origem e desenvolvimento, portadoras de características inovadoras em termos internacionais. Há algum consenso de que, no campo da saúde pública, o Dia Nacional de Imunização, e no campo ambiental-energético, o programa do Álcool Combustível foram duas delas. Pode-se agregar que o esforço brasileiro para a constituição de um parque de programas de pós-graduação possui também essas características, pelo menos ao sul do Equador. Hoje são cerca de 1.800 cursos de mestrado e doutorado onde estão matriculados quase 85.000 alunos. Em 1996, o país graduou 10.242 mestres e 2.951 doutores em todas as áreas de conhecimento. Em tomo a este parque que, com exceção da PUC-Rio e de umas outras poucas instituições privadas, está nas universidades públicas, gravita entre 80% e 90% da produção científica e tecnológica brasileira. Mas no que consiste o ataque? Não se pode dizer que a pós-graduação é ineficiente, pois é o único componente educacional brasileiro que se avalia continuamente há quase 20 anos. Não se pode dizer que criou grandes burocracias para gerenciá-lo, posto que a Capes - agência federal que cumpre este papel - é a mais enxuta de todas, Interditada a via crítica que foi utilizada para desqualificar o ensino público de terceiro grau, o caminho é acusar o parque de pós-graduação de ser... "muito grande para as necessidades brasileiras". Provavelmente, estabelecida pelo MEC a correta prioridade pela educação básica e, dado que o governo federal não se dispõe a aumentar o volume do componente social do orçamento, vêm rapidamente os ilustrados áulicos buscar explicações "teóricas" para o injustificável corte de recursos para a pós. "O Rei não gosta de ovos? Costure-se a bundinha das galinhas". No terreno da análise da educação, desenvolveu-se no Brasil um largo capítulo de falsas disjuntivas. Primeiro foi a educação básica versus a educação superior. E vinham os relatórios do Banco Mundial a dizer que os gastos brasileiros com universidades foram gastos "de luxo", como se algum estudo sério houvesse em algum tempo estabelecido que a falência do primeiro grau pudesse ser creditada a gastos excessivos com universidades (incidentalmente, vale dizer que a falência do segundo grau, majoritariamente privado, igualmente trágica, costuma ser deixada de lado nessas análises). Mais recentemente, apareceu a disjuntiva da educação superior de graduação versus a de pós-graduação. E, finalmente, começa a se esboçar a última, a dizer que a pós-graduação "é grande demais" face à situação de todos os demais níveis educacionais, do primeiro ao terceiro. Ao contrário, a pós-graduação no Brasil é ainda pequena e precisa crescer mais. Foi criada há 30 anos, essencialmente para formar professores e pesquisadores capacitados. O fato é que, apesar de vir cumprindo seu papel, a proporção de mestres (40% do nosso corpo docente) e, principalmente, doutores (20%) é ainda muito baixa e está concentrada no setor público. Não foi por outro motivo que a nova Lei de Diretrizes e Bases estabeleceu metas de capacitação para os anos vindouros. Vale ainda notar que as vagas para o terceiro grau, faz tempo crescem pouco e que há indícios de um novo boom previsto para os próximos anos. A se confirmar, o corpo docente precisará crescer, bem como as ferramentas para qualificá-lo: a pós-graduação. Há ainda um outro aspecto a ser discutido. Há 30 anos, o mercado das profissões não acadêmicas ignorava a pós-graduação. Hoje não pode mais fazê-lo. Em particular nas engenharias, mas também em outras áreas, este mercado precisa mais e mais da pós-graduação para propiciar incrementos reais de produtividade nas empresas. Logo... É com este espírito de crescimento e ampliação de funções que, sob a liderança da Capes, vem sendo elaborado o 4o Plano Nacional de Pós-Graduação. Será ainda objeto de várias rodadas de debate no âmbito da comunidade científica, mas seu perfil procura responder a estas preocupações. Numa frase, o anteprojeto aponta para proporcionar as condições para o aumento de alunos matriculados, diminuir o tempo de titulação, aperfeiçoar a avaliação e manter a qualidade do sistema. Mas parece que os donos do cofre governamental não estão interessados em nada disso. Pois, sabe-se lá baseados em que critérios, estabeleceram pesados cortes no orçamento da Capes para 1988 (também nos do CNPq e Finep, instrumentos igualmente importantes para o desenvolvimento da pós-graduação). Na proposta enviada pelo ministro Kandir ao Congresso, em números redondos, foram subtraídos R$ 130 milhões da solicitação original da Capes. Ou cerca de R$ 75 milhões em relação aos gastos previstos para o ano corrente. Quanto aos guardiães do cofre, não se esperaria outra coisa. E mesmo de sua natureza cortar e cortar (não me esqueço da imagem do mesmo Kandir na TV, no início do governo Collor, seqüestrando a poupança de todo mundo). Mas seria esperado que a autoridade superior a eles pudesse botar cobro à farra cortadora. Mas não foi isso que aconteceu. Sob o argumento de que o cobertor está curto para todos - embora se vá gastar, segundo o mesmo orçamento, R$ 35 bilhões para cobrir as despesas com a dívida interna - os cortes permaneceram. E, portanto, chega a hora dos ilustrados áulicos, costureiros de traseiros de galinhas, construir os argumentos com que tentarão justificar a destruição da máquina que, na imensa maioria dos casos, os ensinou a pensar. Professor do Instituto de Medicina Social e sub-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da Uerj À UNIVERSIDADE DE UM PAÍS TROPICAL CLÁUDIO DE MOURA CASTRO Visitei um país tropical, pobre, simpático e meio descarrilhado. Não, desta vez não é o Brasil. É um país pequeno, cujo nome menciono para não reincidir em incidentes diplomáticos. Reuni-me com um grupo de professores universitários, convocados para dar notícia de suas instituições. Comecei ouvindo os dois da Universidade Rural. Falaram de seus esforços para melhorar o abacaxi e a mandioca, visando mercados de exportação. A direção era boa. Passamos em* seguida para o representante da maior universidade do país. Era professor de farmacologia e contou de seu projeto de identificar ervas medicinais. As plantinhas são colecionadas nos matos e vão abastecer um grande projeto internacional. Em seguida, falou o decano da Universidade Tecnológica. Seu problema principal é que os professores em tempo integral não fazem pesquisa e não há maneira de empurrá-los a estas tarefas. A maioria simplesmente não tem o perfil para tal. Finalmente, ouvimos a narrativa de um físico recém-chegado, com seu reluzente PhD em robôs que simulam a caminhada humana. Tinha também uma atividade secundária em próteses de pernas mecânicas de última geração. Figura simpática e entusiasmada. Contudo, queixava-se de não haver qualquer tipo de automação industrial no país. De fato, nada de controles numéricos, robôs ou qualquer vestígio de processadores programáveis no parque industrial. Suponha o leitor que estivéssemos na pele de quem devesse gastar os recursos do contribuinte. Estaríamos dispostos a financiar estas três grandes universidades nacionais? Minha resposta teria sido até benevolente, não tivesse saído desta reunião para uma outra com banqueiros e homens de negócios. Nesta outra, estavam os atores que operam o país e que pagam os impostos que financiam os acadêmicos. Primeira notícia, à queima roupa: três quartas partes do produto nacional estão no setor serviços, que sequer foi mencionado pelos participantes das universidades. Ou seja, os representantes da ciência e tecnologia local não se dignam cuidar das áreas de mais relevo econômico.. Vá lá que se cuide das brocas do tomate e da mandioca, pois a agricultura local sequer consegue alimentar a população. Mas as perspectivas de desenvolvimento industrial são praticamente nulas, sobretudo agora que o país se abre à voragem das importações chinesas. Os esforços de cientistas pesquisando os bichos e plantas locais são meritórios, mas será esta a prioridade? Ouvi mais queixas do banqueiros. Se esta é uma economia de serviços, onde está a competitividade do setor? O domínio do inglês está caindo. Os graduados das escolas de administração não sabem ler um balanço. Usar uma planilha eletrônica nem se fala. A capacidade local para desenvolver software para o setor de serviços é ínfima. Como resultado, os bancos internacionais vão discretamente fazendo as malas. Bancos de países menores e muito mais pobres estão invadindo os mercados cativos dos locais, os mais antigos e tradicionais em toda a região. Sem bancos, sem seguradoras, sem a infra-estrutura de comércio, sem órgãos normativos, o que vai acontecer com a economia local? Ao mesmo tempo, as três universidades nacionais não descobriram que faz água o setor que mantém flutuando o país. Suas preocupações são com o software equilibrador de pernas de um robô que, se der certo, será fabricado em outro continente. Outros saem catando matinhos pelos bosques, aumentando o potencial curativo das drogas produzidas pelas grandes indústrias farmacêuticas. Joguemos pedras nesta caricatura de um mundo universitário desencontrado do setor produtivo. Mas nossos telhados s3o de vidro. Será que escapamos incólumes das críticas que se podem fazer contra o país que deixei anônimo? Será que os nossos operadores de cursos profissionais estão freqüentando as empresas para ver o que elas precisam? Será que os currículos destes cursos refletem o cotidiano das empresas ou apenas o lobby dos professores das disciplinas existentes, ou as últimas controvérsias teóricas? Das nossas 40 mil pessoas na área de ciência e tecnologia, quantas estarão somando a estes esforços e quantas estarão derrapando em programas de pesquisa que não estão fazendo um esforço honesto de servir ao setor produtivo? Temos um ensino superior caro e de inegáveis méritos. Não se trata de somar mais críticas às muitas fraquezas que não são de sua culpa, mas estimulá-lo a calibrar melhor sua pontaria. Chefe da Divisão de Programas Sociais do BID