Notícia

Gazeta Mercantil

O asteróide Eros é o novo alvo da NASA

Publicado em 08 março 1996

Ele subiu com um dia de atraso, mas ainda pode se dizer que marca o início de uma nova era para a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) dos Estados Unidos. Para a NASA, o lançamento de mais um foguete Delta, no Cabo Canaveral, no dia 17 de fevereiro, não representou apenas uma nova missão espacial. A operação também lançou a NASA em direção a um encontro com a realidade. A missão da nave NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) é visitar um asteróide chamado Eros. Mas a forma como a missão foi criada e administrada também é importante. Embora se trate oficialmente de um projeto da NASA, ele foi concebido por uma equipe do Laboratório de Física Aplicada (APL) da Universidade Johns Hopkins, sediado em Laurel, em Maryland; e o projeto também está sendo administrado pelo laboratório. Essa é a primeira missão dentro da série de naves a serem lançadas em um sistema de convênio, conhecida como a série "Discovery", que representa, portanto, um teste da política adotada pelo administrador da NASA, Daniel Goldin, de que as missões espaciais devem ser "menores, mais rápidas e mais baratas". Até o momento, a equipe do APL, liderada por Thomas Coughlin, honrou sua parte do acordo. A NEAR é uma sonda menor do que as lançadas anteriormente, pesando apenas 805 quilos, em comparação com os 2.380 quilos da sonda Galileu, há três meses colocada em órbita em torno de Júpiter. Ela leva consigo apenas seis instrumentos científicos, enquanto a Galileu carrega dezesseis, mas o número é suficiente para a tarefa da qual está encarregada. Observar uma pedra gigantesca é, sem dúvida, uma tarefa bem menor do que estudar o maior planeta do sistema solar. A NEAR é, também, mais rápida. A viagem a Eros levará 35 meses, mas o período entre a concepção e a execução do projeto foi de apenas 27 meses, o que se ajusta confortavelmente ao prazo de três anos permitido pela doutrina de Goldin às missões Discovery. E quanto ao ser mais barato? Também foi cumprido o último dos três critérios de Goldin (mas, provavelmente, o mais importante para ele na hora de enfrentar os congressistas ávidos por cortar os gastos governamentais). A NEAR custou apenas US$ 122 milhões (a preços de 1992) para ser desenvolvida e lançada. Os quatro anos de custos operacionais acrescentarão mais US$ 40 milhões, mas, ainda assim, o preço total será apenas um décimo do que custou a Galileu. Que retorno dará a missão para a NASA? Até hoje, as sondas lançadas pela agência espacial visitaram o satélite da Terra e todos os grandes planetas exceto Plutão (que, coincidentemente, está levando os astrônomos a questionar se deve ser classificado, de fato, como planeta). As sondas passaram, também, por cometas e asteróides. Mas nunca houve uma sonda que se fixasse para realizar uma observação pormenorizada de um desses corpos celestes de pequeno porte. Desde que não aconteça nenhum acidente, a NEAR preencherá essa lacuna. Ela foi projetada para permanecer em órbita baixa ao redor de Eros durante nove meses. No final desse período, cada formação da superfície do asteróide, com mais de cinco metros de extensão, estará armazenada nos computadores que controlam a missão. Eros foi escolhido por três razões. Primeiro, ele está relativamente perto de nós. A maioria dos asteróides encontra-se a várias centenas de milhões de quilômetros de distância da Terra, entre as órbitas de Marte e Júpiter. Eros, em comparação, praticamente corta a órbita da Terra durante a sua peregrinação de 642 dias em torno do Sol. Em segundo lugar, com um comprimento de 40 quilômetros, ele é grande o suficiente para ser interessante e pequeno o suficiente para ser totalmente mapeado antes que o dinheiro da missão se esgote. E, finalmente, ele pode ajudar a solucionar um mistério sobre as possíveis origens do sistema solar. O mistério está no fato de que a maioria dos meteoritos (pequenos asteróides que chegaram relativamente intactos à superfície da Terra) parecem não ter semelhança com os seus irmãos maiores do espaço. Alguns meteoritos são compostos de substâncias que mostram claramente que foram fundidas, o que sugere que tenham se formado nas profundezas de um corpo celeste semelhante a um planeta. Mas a maioria dos meteoritos é composta de minúsculos grãos arredondados de rocha de silicato, chamados de côndrulos, que parecem ser remanescentes inalterados da poeira cósmica da qual os planetas se formaram. Esses meteoritos são conhecidos como condritas. A maioria dos asteróides também parece se constituir de silicatos. Suas composições podem ser determinadas, de forma aproximada, examinando-se a luz solar que eles refletem (diferentes minerais absorvem e refletem a luz de formas diferentes). Mas, entre as sete classes de asteróides siliciosos identificadas, nenhuma reflete a luz solar exatamente da mesma forma que a maioria das condritas. O asteróide Eros, nesse aspecto, pertence à classe que mais se assemelha às condritas. Os pesquisadores estão ansiosos para saber se a rocha de Eros é formada por substâncias que foram fundidas ou se o asteróide é, na verdade, uma condrita de tamanho grande. Se a rocha de Eros mostrar que já passou por um processo de fusão, sua matriz pode se assemelhar a um planeta verdadeiro. Se a pesquisa indicar que Eros é uma grande condrita, a dedução será de que a sua matriz foi nada mais do que um monte de entulho cósmico inalterado. As teorias atuais sobre a formação dos planetas sugerem que eles não se originaram diretamente da poeira cósmica primitiva, mas sim que se formaram através da fusão de corpos celestes menores, os chamados corpos planetesimais. Segundo a lei de Bode (que prediz a distância de cada planeta do sol), deveria existir um planeta verdadeiro entre as órbitas de Marte e Júpiter. Mas a gravidade de Júpiter parece ter impedido que um planeta se desenvolvesse nessa região. Ali se formaram corpos planetesimais mas, em vez de se unirem para dar origem a um planeta, eles passaram os 4,6 bilhões de anos seguintes colidindo uns com os outros e espalhando fragmentos pelo espaço. A maioria dos astrônomos acredita que Eros é um desses fragmentos. Sua curiosa órbita - além de estar muito distante do cinturão de asteróides, ela segue um ângulo pronunciado em relação ao plano das órbitas dos principais planetas - também seria, presumivelmente, um resultado de um evento catastrófico como esse. Os pesquisadores do APL esperam que Eros solucione essa questão rapidamente. A sonda NEAR está equipada com espectrômetros de luz visível e infravermelha, para estudar a reflexão da luz solar, além de um terceiro espectrômetro de raios X e gama para detectar a fluorescência dos minerais sob a radiação solar. Confrontando essas informações com fotografias do asteróide, os pesquisadores poderão verificar, dentro de um mês após a chegada da NEAR, se Eros é apenas uma grande condrita ou se ele passou pelas alterações químicas que caracterizam o processo de fusão.