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O antipetismo como herança do anticomunismo

Publicado em 16 setembro 2020

Os objetos da política nem sempre se revestem de conteúdos programáticos, baseados em ações informadas dos cidadãos. Muitas vezes, os fenômenos que tocam esse universo são pautados por elementos simbólicos, presentes no imaginário social, que ajudam a moldar formas de pensamento e são reproduzidos por várias gerações. O exercício de poder, em verdade, não sobreviveria sem a criação de imagens que traduzem os valores presentes nas disputas cotidianas. A esse conjunto de anseios, atitudes, linguagens e crenças permanentes, fundamentais para conferir coesão e identidade a grupos sociais distintos, damos o nome de cultura política.

No Brasil, um exemplo marcante de cultura política é o anticomunismo. Como ressalta o historiador Rodrigo Patto Sá Motta no livro “Em guarda contra o ‘perigo vermelho’: o anticomunismo no Brasil (1919-1964)” (2002, Perspectiva/Fapesp), essa manifestação surge no país logo após a Revolução Russa de 1917 e tem sua primeira grande onda após a Intentona Comunista (1935), depois que Luiz Carlos Prestes declarou sua adesão ao pensamento marxista. À época, em resposta ao fato, houve aumento considerável de publicações com caráter anticomunista. Perdurando nos anos seguintes, a manifestação alcançou sua segunda grande onda a partir de 1961, durante a campanha da legalidade, e resultando no golpe civil-militar de 1964.

Passados mais de 50 anos dos acontecimentos de então, e mesmo após a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, esse imaginário volta à pauta do dia, associado a uma manifestação relativamente nova no contexto político nacional: o antipetismo. Não raro, portanto, o partido do ex-presidente Lula aparece sobreposto ao ideário em questão. A despeito, claro, da atuação moderada da legenda em temas econômicos — quase sempre colocando liberais na condução das políticas do Banco Central e do Ministério da Fazenda — e sociais. Exemplos disso são os discursos parlamentares que favoreciam o impeachment de Dilma Rousseff pautados por uma possível ameaça comunista, slogans como “a nossa bandeira jamais será vermelha” e um suposto plano de integração de países sul-americanos com regimes à esquerda, a Ursal, realizado pelo Foro de São Paulo.

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