Notícia

Correio da Bahia

O alfabeto da vida

Publicado em 28 dezembro 2000

Em 26 de junho, o anúncio de que 97% das informações do código genético humano já haviam sido decifradas - feito ao mesmo tempo em Washington, pelo presidente Bill Clinton, e Londres, pelo primeiro-ministro Tony Blair, cujos governos lideraram o consórcio internacional de instituições de pesquisa do Projeto Genoma Humano foi recebido com rebuliço em todo o mundo. Não era para menos: tratava-se de uma verdadeira revolução científica, de conseqüências ainda imprevisíveis, mas que representa o primeiro passo na vitória contra algumas das 11 mil doenças de origem genética conhecidas. Os resultados das pesquisas ainda estão longe de ser compreendidos pelos cientistas e as terapias baseadas nas informações do nosso alfabeto genético ainda levarão anos até estarem disponíveis. Mas a medicina acaba de ganhar todo um novo horizonte, que deve levar a novos métodos de prevenção, tratamento e cura. Aplicações na produção de alimentos também estão previstas para a próxima década. A conquista do genoma foi, talvez precipitadamente, comparada à invenção dos antibióticos, à descoberta da penicilina e à chegada do homem à Lua. Exageros à parte, em 2000, as ações das empresas que mapeiam genes - como a Celera, a Human Genomic Sciences (HGS) e a Incyte Genomics - tenderam a ser mais lucrativas do que os papéis das empresas tradicionais e até as da chamada nova economia (que desde abril vêm amargando uma queda na espiral especulativa). Em fevereiro, por exemplo, quando anunciou o seqüenciamento de 97% dos genes da mosca-de-fruta cujo organismo tem milhares de genes iguais aos do homem - a Celera (www.celera.com), empresa norte-americana que participou do projeto, teve uma valorização de US$ 1 bilhão em suas ações na bolsa de Nova York num único dia. Os negócios com biotecnologia serão o principal novo filão da economia no século que se inicia. Em 1994, a indústria do setor nos Estados Unidos obteve US$ 7 bilhões em vendas, numa época em que empregava 97 mil trabalhadores. No ano passado, as vendas chegaram a US$ 13 bilhões e o número de empregados no setor, a 153 mil. Além da Celera, empresas como a Human Genomic Sciences (HGS) e a Incyte Genomics estão mapeando genes e desenvolvendo os bancos de dados que serão usados - mediante pagamento, é claro - pela indústria farmacêutica a fim de criar novos tratamentos para doenças genéticas. A engenharia genética também foi responsável pelo reconhecimento da ciência brasileira no exterior. A divisão nacional do Projeto Genoma, conhecida como Rede Onsa (sigla de Organização para Seqüenciamento e Análises dos Nucleotídeos) conquistou matéria de capa da prestigiada revista inglesa Nature de julho e a aclamação da comunidade científica internacional. O Seqüenciamento do DNA da bactéria Xylella fastidiosa, praga agrícola responsável pelo "amarelinho", doença que afeta os laranjais, causando prejuízos de US$ 100 milhões por ano ao país, foi o primeiro genoma" de micróbio causador de doenças de plantas seqüenciado no mundo e o primeiro genoma decifrado na América Latina. A pesquisa durou dois anos e custou US$ 15 milhões, financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do , Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), por meio do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, da Suíça. A rede, que reúne 35 laboratórios e 192" pesquisadores de 30 universidades paulistas, desenvolve agora novas etapas de projetos para decifrar o código genético de micróbios nocivos, do câncer de mama e da cana-de-açúcar. A convite do Departamento de Agricultura do governo norte-americano, que investiu US$250 mil no projeto, a rede Onsa DNA também está seqüenciado uma espécie de Xylella que ataca plantações da Califórnia.