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O abacaxi universitário de Serra, texto de Vinicius Torres Freire

Publicado em 24 maio 2007

Por Vinicius Torres Freire

Governador deu canelada confusa na universidade e ouviu um urro corporativo, como resposta: debate é pífio

José Serra e seus secretários conseguiram arrumar ótimos pretextos para os grupos políticos mais retrógrados e corporativistas das universidades paulistas.

Muita gente já fazia biquinho devido ao veto do ex-governador Cláudio Lembo ao aumento das verbas para universidade e pesquisa (de 9,57% da arrecadação do ICMS para 10,4%), cerca de R$ 500 milhões extras. USP, Unicamp e Unesp gastaram R$ 4,2 bilhões no ano passado.

Depois, inventaram e desmentiram que José Aristodemo Pinotti, o secretário de Ensino Superior, seria o voto de Minerva no conselho dos reitores. Ainda houve a reação destemperada a um contingenciamento normal de verbas.

Um cerejão do bolo de abacaxi foram os decretos que mudam a maneira pela qual as universidades registram seus gastos na contabilidade estadual (teriam de fazê-lo como qualquer repartição).

A grande "torta de climão" é a dúvida ainda remanescente sobre a autonomia das universidades para remanejar dinheiros de uma rubrica para outra de seu orçamento.

Uma parcela dos estudantes suspeitos de sempre, das faculdades de humanidades e de comunicação, invadiu a reitoria, e os sindicatos de professores e funcionários aproveitaram para fazer campanha salarial. Serra e seus confusos secretários atiraram no próprio pé.

Governo, reitores e, aparentemente, ninguém sabe dizer ao certo o que será feito do remanejamento de verbas -se é enfim necessária autorização do governador ou não.

Portanto, passemos, por ora. Mas ficou claro que Serra pretende dar um cutucão na universidade, como que a dizer que a vida não será fácil com ele, que as universidades terão de prestar mais contas. Pode ser bom.

Mas, como Serra não divulgou os princípios da sua política para ensino superior, ciência e tecnologia (afora decretos administrativos e planos setoriais), o cutucão por ora equivale apenas a um canelada.

A resposta à canelada do governador foi o urro corporativo. Querem mais verbas para a universidade, que já levam 6,7% da receita corrente líqüida do Estado. Ou 8,6%, consideradas as despesas com Fapesp (a ótima fundação de pesquisa científica paulista), escolas técnicas e faculdades tecnológicas e outras faculdades do Estado.

A Secretaria de Educação, que lida com milhões de crianças, leva 19,5% da receita corrente líqüida. Em relação a 2004, um ano bom na economia, mais adequado para comparações, a receita líqüida estadual cresceu uns 26%, contra 18% da despesa das três universidades. Mas o gasto com educação básica de criança pobre aumentou uns 31%. Foi ruim?

De onde vai sair o dinheiro? A Assembléia Legislativa decerto gasta muito, cerca de R$ 410 milhões, e o paquidérmico Tribunal de Contas do Estado leva R$ 302 milhões. O resto é aperto puro e, se aumentarem a eficiência do gasto, a prioridade é a universidade? E os hospitais para o povaréu?

Ciência e tecnologia são, sim prioridades de política de desenvolvimento econômico, ainda mais em São Paulo. Mas a Universidade de São Paulo parece deitada em berço esplêndido e burocratizada. Decerto burocratizar sua contabilidade não vai torná-la mais eficiente. Mas a USP precisa acordar para a vida.

(Folha de SP, 24/5)