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Agência C&T (MCTI)

Numa inaugura nova sede e impulsiona inovação industrial

Publicado em 01 novembro 2007

Os dez anos de pesquisa e inovação tecnológica do Núcleo de Manufatura Avançada (Numa) formaram o pano de fundo das apresentações, palestras e homenagens que reuni ram cerca de 100 pessoas, entre pesquisadores, empresários, estudantes e lideranças acadêmicas e políticas, ontem, na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP. Os depoimentos, pela manhã, e um simpósio e demonstrações técnicas, à tarde, revelaram casos de sucesso e o potencial dos grupos de pesquisa ligados ao Numa no desenvolvimento e aplicação de inovações tecnológicas para a indústria nacional.

O evento marcou a inauguração da nova sede do Numa, que abriga uma fábrica modelo, laboratórios de pesquisa, salas de informática e reunião, além de um auditório multimídia. O prédio, com arquitetura moderna, paredes envidraçadas e amplos espaços de trabalho e circulação, teve um investimento de R$ 1,4 milhão em instalações e mais R$ 3,4 milhões em equipamentos, com 40% desse total vindo de empresas parceiras.

Os principais destaques da programação foram as palestras do empresário e pesquisador japonês Masahiko Mori, presidente da indústria Mori Seike, uma das maiores fabricantes mundiais de máquinas-ferra mentas, e do professor Jorge Guimarães, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que recebeu, na ocasião, o título de cidadão são-carlense do prefeito Newton Lima Neto (PT) e do presidente da Câmara Municipal, Edson Fermiano (PR).

Estiveram presentes, também, o vice-reitor da USP, Franco Maria Lajolo, o coordenador do Instituto de Estudos Avançados de São Carlos (Ieasc) da USP Sérgio Mascarenhas, o chefe-geral da Embrapa Instrumentação, Alvaro Macedo, o reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Oswaldo Batista Duarte Filho, o diretor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Glaucius Oliva. O evento fez parte também do ciclo de comemorações pelos 150 anos de São Carlos, celebrados no próximo dia 4 de novembro.

NUMA — O evento foi aberto pelo coordenador do Numa e professor da EESC Henrique Rozenfeld, que apresentou um panorama histórico das pesquisas e projetos de transferência de tecnologia conduzidos em torno do Núcleo, criado em 1997, em tomo do Programa de Núcleos de Excelência (Pronex), com trabalhos volta dos principalmente à otimização de processos de fabricação e gestão da produção. Hoje, o órgão conta com 12 professores, 60 pesquisadores de pós-graduação e outros 60 de iniciação científica, tendo recebido, em dez anos, cerca de 500 pesquisadores e aproximadamente R$ 11 milhões em investimento de pesquisa, entre recursos de em presas parceiras, recursos próprios da universidade e agências de fomento, como a Fapesp (estadual), Capes, Finep e CNPq (federais).

As ações de intercâmbio de conhecimentos e transferência de tecnologias do Numa envolvem mais de 50 empresas, do Brasil e do exterior, como TRW, Embraer, Eaton, Lego, Volkswagen, Rodhia, entre outras. Essa experiência deu origem, nos últimos anos, ao Instituto Fábrica do Milênio (IFM), uma rede de pesquisa financia da pelo CNPq — agora em sua segunda fase — com presença em 32 instituições acadêmicas, no Brasil e no exterior, envolvendo mais de 600 pesquisadores e que já gerou 14 patentes.

Alguns resultados práticos dessa interação puderam ser conhecidos com o depoimento de ex-alunos ligados ao Numa e que hoje dirigem empresas de tecnologia geradas a partir de trabalhos acadêmicos, no pro cesso conhecido como spin off. "Trazemos esse DNA de inovação e empreendedorismo", disse Carlos Bremem, da Axia, empresa de consultoria em gestão da produção. "No Numa, aprendemos a aprender", completou Cristiano de Oliveira, Spring Wireless, empresa que desenvolve soluções em computação móvel para o mercado corporativo.

Palestras - O mercado mundial de máquinas - ferramentas foi o tema da palestra do empresário Masahiko Mori, da Mori Seike. Com doutorado pela Universidade de Tóquio, ele é considerado o maior especialista mundial em automação de plan tas industriais, com aplicação de sistemas computadorizados de fabricação na indústria automotiva e aeronáutica, por exemplo. "O doutor Mori está para o mundo das máquinas assim como Bill Gates está para os computadores", comparou, em tom descontraído ao apresentar o convidado, o coordenador do IFM e também professor da EESC, João Fernando Gomes de Oliveira, um dos principais especialistas brasileiros no segmento.

Em sua apresentação, Mori destacou estatísticas que revelam o crescimento da produção e das vendas de máquinas - ferramentas no mundo. O mercado consumidor é dominado pe los Estados Unidos, com 14,9% de participação. A produção de máquinas, porém, concentra-se no Japão, com 27,1%, e na Ale manha, com 19,3%. "Há potencial para o Brasil entrar também nesse mercado", indicou Mori, que ressaltou o trabalho de excelência realizado pelo Numa. Hoje, o país responde por 1,9% do mercado consumidor de máquinas - ferramentas, sem participação expressiva em produção.

Fundada em 1948, em um Japão abalado pelo fim da segunda Guerra Mundial, a Mori Seike fatura hoje cerca de US$ 1,5 bilhão. "A saúde financeira de uma empresa é muito importante", disse. "Mas o principal é a qualidade e a eficiência dos produtos que ela desenvolve. Por isso temos uma preocupação constante em inovar e aprimorar nossa produção", completou o industrial, apresentando gráficos sobre aspectos técnicos de desempenho e funcionamento das máquinas.

Após receber homenagem do prefeito municipal e do presidente da Câmara Municipal, o presidente da Capes, Jorge Guimarães, apresentou um panorama da produção científica brasileira, sua crescente projeção internacional e comentou os desafios que o país deve enfrentar para alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento científico e tecnológico. Um deles é induzir e promover novos pro gramas de pesquisa na área de biocombustíveis, considerada de interesse estratégico pelo governo federal, diante da crise climática e energética mundial.

A receita para fomentar esse desenvolvimento, segundo Guimarães, é conhecida. "O ciclo virtuoso é formado por iniciação científica, pós-graduação, formação de grupos de pesquisa e cooperação internacional", apontou. O presidente da Capes lembrou que o Brasil responde, hoje, por cerca de 2% da produção científica mundial, em 15º lugar no ranking mundial, ten do ultrapassado a Suécia, no ano passado. "Devemos cegar no ano de 2010 com 2,6%, na 13ª posição", aposta.

Guimarães ressaltou que, apesar dos avanços, o país ainda precisa investir mais na qualificação de recursos humanos, uma das principais missões da Capes, órgão que ele preside. "Precisamos multiplicar por cinco, pelo menos, o número de cientistas por habitante, que ainda é muito menor do que nos países desenvolvidos", lembrou. Esse índice, aliás, tem em São Carlos sua melhor expressão, com um doutor para cada 180 habitantes. Citando o exemplo de sucesso do Numa, ele destacou, por fim, a importância das engenharias para o desenvolvimento nacional. "A de manda por engenheiros no Brasil é brutal", indicou. "A velocidade do desenvolvimento da indústria depende da disponibilidade de engenheiros".