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Núcleo estuda caminhos para criar um Brasil menos violento

Publicado em 05 setembro 2019

Por Redação

Desde os anos 1980, o Núcleo de Estudos da Violência desenvolve pesquisas e forma pesquisadores que estudam assuntos relacionados à violência, democracia e direitos humanos

Quando pensamos em Ciência, normalmente imaginamos um conjunto de métodos e raciocínios aplicados para a solução de mistérios ou de problemas enfrentados pela humanidade. Aprender a tratar doenças graves ou criar soluções tecnológicas que melhorem nossas cidades são alguns dos grandes objetivos da Ciência.

No entanto, entender a complexidade que cerca nossas relações sociais e tentar solucioná-los também faz parte dessa nobre empreitada. Para isso, existem centros de pesquisa como o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP que, desde 1987, desenvolve pesquisas e forma pesquisadores que estudam assuntos relacionados à violência, democracia e direitos humanos.

De acordo com o professor Sérgio Adorno, docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e coordenador do NEV, o núcleo foi um dos primeiros centros com o objetivo principal de estudar o “fenômeno da violência”.

Criado em parceria com o professor Paulo Sérgio Pinheiro, no final dos anos 1980, o NEV teve início em uma pequena sala no próprio Departamento de Sociologia da FFLCH. Nos anos seguintes, o núcleo cresceu, ganhou nova sede e autonomia para formar e receber pesquisadores de outras áreas do conhecimento, como a professora Nancy Cardia, especialista em Psicologia Social.

“Tínhamos objetivos muito claros, primeiro construir uma base de documentação e contribuir para melhorar a qualidade dos dados primários obtidos através de pesquisas de campo”, lembra Adorno ao explicar que a atenção do grupo se concentrou inicialmente em mapear, por exemplo, os homicídios desde o final dos anos 1970 até décadas mais recentes, verificando os indicadores sociais dos envolvidos, ou seja, dados como escolaridade, ocupação, profissionalização e até acesso aos direitos básicos.

Segundo o professor, desde seu desenvolvimento inicial, o grupo tinha como uma de suas principais metas realizar pesquisas “cujos resultados pudessem contribuir para formular políticas públicas mais condizentes com o controle da violência”. Para ele, era essencial promover pesquisas que pudessem contribuir para fomentar mudanças de mentalidades em relação aos direitos humanos e que, de alguma maneira, também contribuíssem para a formação dos recursos especializados para trabalhar nas áreas de justiça e direitos humanos.

Ao agregar pesquisadores de diferentes níveis de formação, o NEV nasceu com foco de estudar a violência no Brasil, mas sempre a partir de comparações, inclusive com demais países da América Latina. A ideia era “comparar com outras sociedades, em diferentes estados de desenvolvimento econômico e social, para saber como experiências bem sucedidas poderiam iluminar não só a nossa pesquisa, mas também os formuladores de políticas públicas de segurança”, relata.

Por que estudar violência?

Saído de uma Ditadura Militar, o Brasil do final dos anos 1980 enfrentava uma onda de diferentes tipos de violência. “Nós estávamos vindo de uma sociedade que estava transitando de um regime autoritário para um regime democrático. E, se por um lado havia uma retração da violência política, por outro, aconteceu uma explosão de diferentes tipos de violência, como a delinquência comum”, afirma.

Conforme o estudioso, as grandes cidades brasileiras, com a chegada do chamado “crime organizado”, começaram a ver seus índices de homicídios aumentando, ao mesmo tempo em que continuaram a crescer as violações de direitos humanos, praticadas também por agentes do Estado, somado ao aumento da violência nas ruas, nas habitações populares e nas prisões.

Para Adorno, a transição de um regime autoritário para um sistema democrático ter sido acompanhada de ondas de violência era um paradoxo que o NEV se dispôs a entender. Afinal, o Brasil caminhava “para uma expansão de direitos sociais, para assegurar direitos políticos fundamentais, como universalidade do voto, liberdade de expressão, organização e participação, mas, ao mesmo tempo, vivia uma enorme explosão de conflitos nas relações interpessoais, entre vizinhos, pais, filhos, no trabalho, nas ruas que, muitas vezes, convergiam para incidentes fatais”, ilustra ele.

Criado nesse contexto, o núcleo permaneceu atento às variações no aumento e na queda de crimes violentos das últimas três décadas. As pesquisas acompanharam a evolução e qualificação de crimes como o feminicídio, por exemplo, que antigamente não era legalmente reconhecido por essa terminologia.

Um trabalho de décadas

Ao se debruçar atentamente sobre dados da violência no Brasil, o núcleo reuniu e formou pesquisadores que hoje atuam em órgãos públicos, seja como assessores parlamentares ou de programas governamentais. Além disso, o NEV formou especialistas que se tornaram professores e estão em diferentes universidades, formando seus próprios núcleos que expandem o estudo da violência e dos direitos humanos para além de São Paulo.

Com apoio da Fapesp, nos anos 2000, o núcleo se tornou parte da rede dos chamados Cepids, Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão. O suporte “permitiu que nós pudéssemos desenvolver uma pesquisa diferente em subprojetos, porém cada vez mais integrada”, esclarece o professor.

A partir desse investimento, o grupo começou a expandir seus horizontes, seja participando de debates públicos, seja atendendo a mídia ou escrevendo artigos que dialogassem com públicos não acadêmicos, “para que as pessoas entendessem como construir caminhos e promover mudanças e a redução da violência”, afirma.

Em 2012, o NEV concorreu e foi selecionado em um novo edital da pesquisa Cepid com a proposta “Building Democracy Daily: Human Rights, Violence and Institutional Trust”, um programa de pesquisa dedicado a investigar de que maneira a legitimidade de instituições fundamentais para a democracia é construída ou colocada em risco no cotidiano, a partir das relações entre cidadãos e responsáveis pelos serviços públicos em geral.

“Nós estamos cada vez mais profissionalizando nossos pesquisadores para constituição e o manuseio de bancos de dados, inclusive internacionais, de maneira que a nossa pesquisa esteja cada vez mais atualizada e conectada com os rumos das investigações feitas internacionalmente”, revela ele.

Nós continuamos a viver numa sociedade onde a violência é um grande desafio para a nossa qualidade de vida. Sabemos que a violência nas relações (domésticas, de gênero, bullying, entre outros) perturba essa qualidade de vida e a solidariedade de uns em relação a outros

Construindo cenários futuros

Apesar dos avanços e conquistas sociais dos últimos anos, o trabalho do NEV permanece fundamental ainda hoje.

“Nós continuamos a viver numa sociedade onde a violência é um grande desafio para a nossa qualidade de vida. Sabemos que a violência nas relações (domésticas, de gênero, bullying, entre outros) perturba essa qualidade de vida e a solidariedade de uns em relação a outros”, esclarece ele.

Para o professor, é preciso entender que as sociedades modernas, além de terem nascido a partir da divisão do trabalho, também são baseadas em cooperação. “E quando a cooperação é frágil, esses conflitos podem evoluir”, explica.

E para os especialistas do NEV, pesquisar a natureza desses conflitos ajuda a construir cenários para projetar e entender quais mudanças precisam ser realizadas na legislação, nas políticas públicas e nas áreas de investimento, para fomentar uma sociedade menos desigual e, consequentemente, menos violenta. “Temos que construir cenários futuros, como se faz no campo da economia”, exemplifica Adorno.

Por fim, na opinião do sociólogo, “é preciso minimizar a violência para que ela não nos separe ainda mais”.