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Nubbe / Unesp- Cooperação universidade e empresa: trâmites jurídicos ainda representam um obstáculo importante à inovação

Publicado em 11 julho 2008

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP - A cooperação entre universidade e empresa não é mais um "diálogo de surdos", ao contrário, é uma realidade concreta sustentada na divisão de tarefas, no desenho participativo dos projetos e no desenvolvimento conjunto que aproveita capacitações complementares.  O aspecto jurídico, entretanto, ainda é um gargalo importante.

A análise foi feita na última terça-feira (8/7) por representantes das empresas parceiras do Núcleo de Bioensaios, Biossíntese e Ecofisiologia de Produtos Naturais (Nubbe), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), durante o 3º Workshop Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade de Plantas de Cerrado e Mata Atlântica: Diversidade Química e Prospecção de Bioprodutos.

No mesmo dia, durante o encerramento do evento que comemorou os dez anos de atividades do NuBBE, a fundadora do núcleo, Vanderlan da Silva Bolzani, professora titular do Instituto de Química da Unesp e presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), anunciou a assinatura de uma parceria com a empresa Natura, resultado de um projeto que terminou em 2007 e foi desenvolvido com apoio da FAPESP por meio do programa Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

Gilson Paulo Manfio, gerente da Plataforma Tecnológica de Fitoextratos da Natura, salienta que a parceria deve ser comemorada, pois considera que o aspecto jurídico é um ponto crítico nas parcerias entre universidade e empresa.

"Dentro das universidades os contratos passam por tantas etapas para aprovação que podemos levar entre seis e oito meses para fechar uma assinatura como essa.  Nesse período, o projeto fica estagnado: não podemos depositar patente sem contrato firmado e não podemos contratar a etapa de escalonamento industrial.  Sem a patente, também não dá para publicar os resultados", disse à Agência FAPESP.

Segundo ele, é preciso dotar a universidade de meios que agilizem as assinaturas de contratos.  A parceria com o NuBBE, que fez a prospecção e o protótipo preliminar da matéria-prima vegetal, continuará a partir de agora em caráter consultivo, enquanto a Natura faz o escalonamento industrial para produzir em larga escala e validar a matéria-prima, antes do desenvolvimento do produto cosmético.

"O conhecimento gerado na universidade foi fundamental para que houvesse inovação.  Um dos principais fatores de sucesso foi a integração efetiva entre as equipes da empresa e do NuBBE, utilizando as capacitações complementares de profissionais especializados dos dois lados", disse.

A riqueza da interação entre os recursos humanos com formações diferentes também foi apontada como um fator de êxito pela representante do grupo Centroflora, Célia Hibari Reimberg.  A empresa, que trabalha com extratos vegetais e atua no setor intermediário da cadeia produtiva, trabalhou com o NuBBE em dois trabalhos finalizados no início do ano, nos quais foram identificados dez fitomarcadores de dez plantas brasileiras desconhecidas na literatura.

"Como estamos no meio da cadeia, não trabalhamos com pesquisa, só com desenvolvimento.  O trabalho de geração de conhecimento da universidade é, portanto, fundamental para nós.  No caso da interação com o NuBBE, o ponto mais importante foi a aquisição de recursos humanos especializados, por meio de bolsas do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico].  Depois de finalizado esse projeto de dois anos, a parceria continuará por meio de alunos que trabalham na empresa", disse Célia.

A adaptação das idéias surgidas na universidade exigem, no entanto, muita discussão.  Segundo Célia, a realidade da produção industrial em larga escala com viabilidade econômica é bem diferente daquela dos laboratórios.

"Isso não é trivial.  Temos teses maravilhosas apresentando extratos com altos teores de ativos, mas que podem apresentar um valor mínimo quando produzidos em escala.  Às vezes a idéia é boa, mas aparecem dificuldades para viabilizá-la e transformá-la em matéria-prima cuja produção em escala possamos desenvolver para fornecer a empresas", afirmou.

Para Fabíola Spiandorello, gerente do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Unesp, a experiência do NuBBE mostra que, na relação entre empresas e universidade, os dois lados começam a falar a mesma língua.  "Ainda há arestas que devem ser aparadas, mas já entramos em uma fase em que os papéis de cada um estão mais claramente delimitados - a universidade não perde seu foco tentando desenvolver produtos", disse.

Segundo Rodrigo Spricigo, gerente de pesquisa da Eurofarma, as parcerias com as universidades conseguem obter êxito quando os planos de trabalhos são coesos, os cronogramas são assertivos, os orçamentos são realistas e as equipes são consolidadas.

"Diagnosticamos que, do lado da empresa, algumas das principais limitações são a falta de cultura de pesquisa e desenvolvimento, a morosidade das tomadas de decisão e a falta de habilidade na gestão tecnológica, assim como a dificudade de calcular e assumir riscos é um obstáculo para todos", disse.

Spricigo conta que a Eurofarma está estruturando um departamento de pesquisa e desenvolvimento que deverá entrar em operação dentro de quatro ou cinco anos.  "Já do lado da universidade, as principais limitações que identificamos são: ausência de certificação e validações, falta de procedimentos e infra-estrutura adequados, morosidade na execução das atividades, problemas de gestão financeira e burocracia defensiva", destacou.