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Veja Saúde

Novos rumos para a perda de peso

Publicado em 01 junho 2021

Por Thaís Manarini

Os índices de sobrepeso e obesidade só sobem. Nesse cenário desafiador, as medidas de controle vão muito além de dieta e exercício. De partida, o tratamento de sucesso exige empatia e foco no emocional

No final do ano passado, o IBGE divulgou os resultados da última Pesquisa Nacional de Saúde, conduzida antes de sonharmos com o coronavírus. De acordo com o levantamento, entre 2003 e 2019, a ocorrência de obesidade entre brasileiros acima de 20 anos passou de 12,2 para 26,8% - mais que dobrou! Na mesma faixa etária, o excesso de peso saltou de 43,3 para 61,7%. "Esses índices são alarmantes. Eu diria que, entre as doenças crônicas, nenhuma outra vem crescendo na mesma velocidade, e no mundo inteiro", analisa o endocrinologista Bruno Geloneze, principal investigador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista.

Não é de hoje que a classe médica enxerga a obesidade como uma doença, já que ela é o estopim para uma série de outras desordens. Recentemente, a representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) no Brasil chegou a fazer um apelo pela união da sociedade para prevenir e controlar essa condição nas Américas, a região do globo com as maiores taxas. Mas parece que a ficha só caiu para valer quando a Covid-19 pintou na história.

Diversas pesquisas apontam que quilos extras elevam o risco de encarar uma versão mais grave da infecção. Segundo uma revisão de estudos publicada no periódico Obesity Research & Clinical Practice, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), isso ocorre independentemente de fatores como idade e presença de outras doenças. É que a inflamação crônica típica de um organismo inflado de gordura deixaria o corpo mais suscetível aos estragos do vírus. "Essa situação colocou uma lente de aumento na obesidade como um problema de saúde, e não como uma questão estética", afirma Geloneze.

Só que, com a pandemia, veio a necessidade de ficar em casa - e uma sensação crescente de medo e ansiedade, capaz de bagunçar o estilo de vida. Em pesquisa exclusiva para VEJA SAÚDE com 826 brasileiros, a maioria de 18 a 54 anos, a Toluna descobriu, em maio, que 63% dos participantes engordaram durante esse período turbulento (veja outros dados ao longo da matéria). Entre eles, 31% relataram que ganharam de 1 a 3 quilos, e 37% disseram que a balança acusou de 4 a 10 quilos adicionais. "É muita coisa", espanta-se o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Reverter a situação ou impedir que ela se descontrole de vez depende de uma atuação em diversos pilares. É hora de percorrê-los.

Imagine um sujeito de 80 quilos acumular mais 7, por exemplo — uma média entre 4 e 10 quilos. Mudar para 87 significa um incremento de quase 10% em seu peso. “ Esse ganho é preocupante, porque já aumenta o risco de diabetes e doenças cardiovasculares ”, informa o cirurgião Ricardo Cohen, coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HAOC), na capital paulista. Para Couri, o crítico desse dado é lembrar que a pandemia completou mais de um ano. “ O corpo começa a achar que se trata do novo normal. E, quando ele se acostuma, essa passa a ser a sua linha de base ”, explica. Quer dizer que, diante dos esforços para emagrecer, o organismo sempre tentará voltar â que le patamar. E não podemos nos esquecer de que muita gente enfrentava o excesso de peso antes de a crise começar, como demonstrado pelos números do IBGE. “ Logo mais a Covid vai embora, mas essa epidemia não ”, dispara Cohen.

O perigo de os indicadores de sobrepeso e obesidade apontarem para o alto e avante vai muito além do descontrole do açúcar no sangue e do maior risco de infarto e AVC — como se fosse pouco! Gelo nez e observa que incontáveis problemas encontram terreno fértil para aparecer ou se intensificar. “ Falamos de glaucoma, quadros mais graves de enxaqueca, apneia do sono, esteatose hepática[ gordura no fígado], infertilidades masculina e feminina, doenças articulares, queda de cabelo entre as mulheres, distúrbios respiratórios, artrite reumatoide, além de vários tipos de câncer ”, enumera o médico. Infelizmente, a lista é mais extensa. Daí a inquietação dos profissionais de saúde.

Quando a Toluna questionou os participantes da pesquisa online sobre os grandes desafios para cuidar do peso e da saúde na fase pandêmica, manter a prática de atividade física e a alimentação equilibrada foram os comportamentos mais citados. Não dá para dizer que a dobradinha surpreendeu. Em levantamentos feitos em seu laboratório na Faculdade de Medicina da USP, o fisiologista Bruno Gual ano também reparou que alterações nesses hábitos ajudam a explicar o agravamento do sobrepeso e da obesidade. Por outro lado, há uma parcela que conseguiu incorporar comportamentos bacanas, como abrir mão de dietas restritivas, comer à mesa com a família e priorizar deslocamentos ativos, a pé ou de bicicleta. “ Devemos atacar aquilo que mudou para pior e encorajar o que ficou melhor ”, resume Gualano.

Na linha de incentivar rotinas saudáveis, não vá concluindo que a responsabilidade cai toda nas costas do sujeito. “ Precisamos de programas de políticas públicas que deem conta desse cenário de transformações ”, aponta Gual ano. Ora, comer bem e se exercitar são decisões que transpassam uma vontade individual. E reconhecer isso é o ponto de partida para tratar a obesidade do jeito certo, sem perpetuar traumas. Em primeiro lugar, o ganho de peso é fortemente influenciado por características genéticas — percepções de fome e saciedade podem ter a ver com o DNA, por exemplo.

A endocrinologista Cíntia Cercato, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), nota ainda que as escolhas que fazemos dependem muito do ambiente que nos cerca. E olha o drama: hoje é comum chamá-lo de obesogênico. Para ficar no campo da alimentação — um dos aspectos que mais interferem no peso —, é só citar a oferta cada vez maior de itens ultraprocessados. “ Eles são cheios de gorduras saturadas, açúcar e sódio ”, descreve Cíntia. O combo os torna altamente palatáveis. Para completar, não machucam o bolso. Basta comparar 0 preço de uma lasanha congelada com o de um prato de arroz, feijão, carne e salada. Para os especialistas, passou da hora de subir o valor dos pacotes engordativos e garantir subsídios para a comida mais caseira dominar a mesa.

Na esfera da atividade física, Gual ano conta que ao redor de 4% da população tem acesso a academia de ginástica. E só! “ O fechamento desses estabelecimentos durante a pandemia pode até ser uma barreira para se manter ativo, mas não é determinante ”, raciocina. Muitas vezes, a falta de exercício está ligada à ausência de iluminação na rua — o que acende o medo de caminhar e ser vítima de violência. “ Essa é uma questão pessoal ou de segurança pública? ”, provoca Gelo nez e. Para o médico, ignorar adversidades desse gênero empobrece a discussão sobre obesidade. “ E denota uma falta de visão humana ”, crava.

Se o próprio indivíduo acreditar que a obesidade é uma opção dele, como se bastasse fechar a boca e se mexer, mais difícil será tratá-la — e por vários motivos. Há a tendência de recorrer a estratégias malucas, de dietas a treinos. “ Quando não dão certo, há estresse e mais ganho de peso. O sofrimento é contínuo ”, lamenta a endocrinologista Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). E o bem-estar emocional é ponto-chave para virar o jogo.

Para a nutricionista Marcela Kotait, coordenadora da equipe de nutrição do Ambulatório de Anorexia Nervosa do Programa de Transtornos Alimentares (Ambuli m) do Hospital das Clínicas de São Paulo, enquanto o excesso de peso e a obesidade forem ligados a desleixo e preguiça, continuaremos rodando em círculos. Entenda: não é que modificar o padrão alimentar, por exemplo, seja dispensável. Mas as estratégias devem ser pensadas para cada pessoa, mirando em uma mudança comportamental possível de ser mantida ao longo da vida. “ Quando o foco é em dietas restritivas e punição, não é sustentável ”, afirma Marcela.

Pior: em termos de saúde, a coisa até degringola. De acordo com Gelo nez e, ao seguir um regime radical, a tendência é que a pessoa elimine gordura e, ao mesmo tempo, músculos. Mas, invariavelmente, esse peso é recuperado — os experts são taxativos quanto a isso. “ Nesse momento, praticamente só a gordura retorna ”, ensina o endocrinologista. Em resumo, a cada ciclo de perda e reganho, a composição do corpo se modifica, com aumento de tecido adiposo e redução da massa muscular. “ Isso é altamente prejudicial. Se for para chegar a esse resultado, melhor nem começar ”, declara o médico da Unicamp. “ Todo emagrecimento muito rápido é perigoso ”, reforça Marcela.

Lidar com a obesidade como uma doença é, inclusive, uma maneira de tirar do paciente o tal estigma de que ele só precisa ter força de vontade para emagrecer — protegendo-o, assim, das armadilhas. “ A gente começa a entender a complexidade da situação ”, avalia a nutricionista do Ambuli m. Cintia, presidente da Abeso, concorda e acrescenta: “ Uma doença complexa nunca vai depender de um tratamento simples ”. Como a gente já pontuou, não ter essa noção pode destrambelhar as emoções, o que prejudica a manutenção do peso.

“Sob estresse, a alimentação muda, não conseguimos fazer exercícios, e por aí vai ”, avisa Maria Edna. Não é coincidência que, na pesquisa da Tolun a, 50% dos entrevistados constataram que passaram a comer mais na pandemia. Ora, comida traz conforto. Isso não é necessariamente um problema, desde que os momentos de fartura e prazer à mesa sejam conscientes e planejados. Fora impactar os hábitos, o abalo emocional decorrente do sentimento de fracasso é mais um motivo que afasta as pessoas com obesidade dos consultórios. “ Elas não têm motivação para dar esse passo. Sentem-se envergonhadas ”, analisa a psicóloga Rogéria Taragano, de São Paulo.

Em maio de 2020, Cohen publicou um artigo na revista científica Obes ity Surgery no qual aborda justamente os desserviços da estigmatização. No texto, ele chama a atenção para as suposições de que o indivíduo com obesidade não possui autocontrole e não “ come com sabedoria ”. Segundo o médico, responsabilizá-lo dessa forma é o mesmo que condená-lo a não tratar a condição, deixando-o suscetível a graves sequelas — inclusive ansiedade e depressão. O preconceito, conhecido como gordo fobia, muitas vezes é corroborado dentro dos próprios consultórios, já que há médicos e nutricionistas que endossam o raciocínio de que emagrecer é uma mera questão de empenho. Somado a isso, há os que prescrevem intervenções com o único e exclusivo propósito de modificar a forma física. “ Quando o objetivo é a aparência, o que menos interessa no processo é a saúde ”, critica Marcela.

Nas entrevistas para esta reportagem, ao debater o tratamento apropriado da obesidade, uma palavrinha foi unanimidade: empatia. “ Mudar os hábitos de vida não é algo fácil ”, adverte Maria Edna. “ É preciso ouvir o paciente ”, acrescenta Gelo nez e. Embora essas afirmações soem um tanto quanto óbvias, nunca fez tanto sentido frisá-las. Em 2020, um consenso internacional publicado no periódico Nature Medicine chamou a atenção para as evidências de que os clínicos gastam menos tempo em atendimentos de pacientes acima do peso e dão mais orientações aos magros. Assinado por cerca de 100 instituições, o documento ainda revela que quem se sente estigmatizado por causa do corpo tende a obter piores resultados no tratamento e a evitar futuras consultas.

Portanto, ao buscar um especialista, é importante ser criterioso. Para Couri, um atendimento que dure aproximadamente dez minutos já é um mau sinal. “ Conhecer o paciente toma tempo ”, esclarece o médico de Ribeirão Preto. Rogéria também acha que esse é um tópico sensível: a necessidade de escuta. “ É fundamental conhecer as dificuldades da pessoa, saber o que ela já tentou, entender o que deseja naquele instante e o que acha que dá conta de fazer ”, ilustra a psicóloga. Se o paciente perdeu alguém da família ou está amamentando, não é a melhor ocasião para tentar emagrecer, por exemplo. “ O tratamento deve ser encarado como uma parceria entre o paciente e a equipe de saúde ”, sintetiza Couri. Ele conta que há circunstâncias em que a pessoa claramente se beneficiaria da prescrição de um medicamento. Contudo, até isso deve ser decidido em conjunto.

Em cooperação, médico e paciente também traçam as metas em relação a mudanças de hábitos e expectativa de emagrecimento. Nesse sentido, todos os especialistas ressaltam que o tratamento não deve almejar tornar o cidadão magro. “ Não existe um peso-padrão. A redução precisa ser individualizada ”, avisa a nutricionista Ana Feoli, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul () e coordenadora dos grupos de pesquisa em estilo de vida e saúde da instituição. “ Uma redução de 5% no peso já impacta os níveis de pressão arterial e glicemia ”, afirma.

Se um paciente de 100 quilos consegue chegar a 80, a vida já melhora demais em termos de doenças, funções mecânicas e disposição. E isso deve ser celebrado, mesmo que o excesso de peso siga presente. “ Caso contrário, a pessoa desanima e larga tudo, como se o resultado fosse insatisfatório ”, diz Maria Edna. “ O grande problema de estipular o peso como desfecho principal é que, ao não atingi lo, há frustração ”, comenta Gual ano.

Aliás, esse é outro viés da gordofobia: associar o excesso de peso obrigatoriamente a uma saúde miserável. “ Uma parcela das pessoas, especialmente as mais jovens, não apresenta problemas ligados à obesidade ”, diz Gelo nez e. “ Nesse caso, não há razão para bombardeá-la de estratégias para emagrecer ”, raciocina. Para o médico, basta indicar comportamentos que são saudáveis para todo mundo, como fazer exercícios, comer bem, cuidar do sono e não fumar. “ Não é para abandonar esse indivíduo, lógico. Tem que acompanhar. Mas é preciso entender que, naquele momento, abordagens mais intensas não são prioridade ”, reforça.

É crucial que esse cuidado seja iniciado na infância e na juventude. Dados do Ministério da Saúde indicam que três em cada dez meninos e meninas de 5 a 9 anos estão acima do peso em nosso país. Calcula-se que, em 2030, ocuparemos a quinta posição no ranking de países com o maior número de crianças e adolescentes com obesidade. “ Precisamos protegê-los desde já ”, sentencia Cintia, lembrando que, para essa turminha, ainda há um marketing abusivo em favor de itens ultraprocessados. “ Nessa idade, não há discernimento para julgar o que é adequado ou não ”, assinala. Enquanto isso, a criançada adoece. “ A obesidade diminui anos de vida em longo prazo ”, enfatiza Cohen. Não dá para fechar os olhos nem botar para tocar somente o disco da dupla dieta e exercício. “ Estamos lutando contra algo maior ”, pontua o médico. Por isso, devemos ajustar as táticas, dando mais espaço a uma abordagem humana e amistosa.

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