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Novo pró-reitor de Pesquisa da USP quer estimular pesquisas integradas e levar conhecimentos científicos ao público leigo

Publicado em 07 fevereiro 2002

Com graduação e mestrado em física pela USP de São Carlos, doutorou-se pela Universidade de Cornell, nos EUA, com tese sobre ligas magnéticas diluídas. Antes de assumir a Pró-Reitoria de Pesquisa, era vice-diretor do Instituto de Física. Veja a seleção de declarações que fizemos de sua entrevista: Planos - Há uma série de diretrizes e três grandes prioridades. Um delas é estimular iniciativas integradas de pesquisa. Na prática, isso quer dizer formar redes de pesquisadores que trabalhem em torno de um mesmo tema, de uma mesma linha de pesquisa. Há três condições para isso funcionar. Em primeiro lugar, é preciso que se escolham temas de interesse para a sociedade. Problemas ligados ao meio-ambiente, à saúde. Além disso, precisa ser uma área em que a USP tenha competência. Não adianta querer insistir em áreas que ainda são emergentes. E, terceiro, tem que ser um tema multidisciplinar para atrair pesquisadores de diferentes áreas, que possam trocar experiências. Isso vai criar um ambiente muito construtivo. Multidisciplinariedade - Em primeiro lugar, este foi um dos pontos levantados durante a série de debates que levou à eleição do reitor. O professor Melfi identificou este como sendo um dos anseios da comunidade. Coincide com o que eu achava, já tinha experiência com isso na Fapesp. Quando ele me convidou para ser pró-reitor, esta foi uma das coisas de que eu particularmente gostei. Pesquisas multidisciplinares - Isso foi naturalmente propiciado pela Internet, que traz uma facilidade de contato. E os pesquisadores estão aproveitando. Esse trabalho em rede está ficando muito comum e é enriquecedor. As pessoas que têm essa experiência gostam muito. Acho que vai ser o método de trabalho do futuro. Trabalho em rede - Uma área que tem muitas oportunidades é tratamento de lixo. Há várias coisas associadas. Desde sociologia do lixeiro até como uma fábrica pode melhorar seu procedimento para produzir menos lixo. Outro tema em que estamos interessados está ligado à pesquisa forense. Já temos até algumas linhas definidas. Pode-se associar violência, uso de drogas, riscos ambientais e ocupacionais. (...) Em relação a drogas, há um estudo em Ribeirão Preto que estuda a ligação entre mortes acidentais e drogas. Outras prioridades - A segunda é estimular a interação entre pesquisa e gradução. Não na pós-graduação, onde já existe muito. Mas na graduação a situação é diferente. Temos estudantes que têm bolsa de iniciação científica e oportunidade de fazer pesquisa. Mas existe uma grande massa que não aproveita esta oportunidade. É preciso chamar a atenção do estudantes para a importância dessa atividade. Estudantes e pesquisa - Alguns não sabem. Outros acham que é muito mais importante fazer estágios profissionalizantes do que iniciação científica. Os anos básicos de um aluno da Escola Politécnica, que vai ser engenheiro, não são muito diferentes dos que um matemático ou um químico têm. Depois, nos últimos três anos, ele tem uma formação mais profissionalizante. Seria muito natural que nos dois primeiros anos esse aluno se engajasse na iniciação científica. Mais para a frente, faria estágios em empresas, que obviamente também são importantes. Mas uma coisa é complemento da outra. Me parece que não há esse aproveitamento. (...) Normalmente, a pessoa recém-formada acha que o que interessava na faculdade eram os conhecimentos práticos. Depois, com a maturidade, vê que o mais importante é aquilo que não está na sala de aula, mas o que vem agregado ao curso. Temos que fazer um esforço para que mais gente aproveite essas oportunidades. A terceira prioridade - Para nós, é divulgar mais a pesquisa que é realizada dentro da USP. Vários pesquisadores dizem que têm pouca oportunidade de expor suas idéias para o grande público. Há trabalhos muito bons que foram feitos dentro da Universidade, que acabaram conhecidos apenas por um pequeno círculo de especialistas e poderiam ser de interesse maior. Há necessidade de ser fazer esse tipo de serviço. (...) Muitas vezes a pessoa não conhece os canais, não sabe como fazer isso. Tem uma vida corrida e não tem tempo de fazer essas atividades. Acho que é papel da Pró-Reitoria ajudá-la nessa direção. Há várias coisas que se pode fazer. Em primeiro lugar, procurar identificar trabalhos que são importantes. Às vezes, o próprio pesquisador, naquele afã de fazer a pesquisa, não percebe a importância que a sociedade daria para seu trabalho. Então, é importante a gente garimpar as pesquisas e tentar identificar aquelas que são interessantes. A sociedade é capaz de entender? - Trabalho de pesquisa básica em muitos casos é atraente. Só que precisa ser traduzido para uma linguagem que a sociedade possa digerir. Isso não são as revistas técnicas que vão fazer. É um papel da Pró-Reitoria, não digo do pró-reitor especificamente, ter contatos com pessoas que possam fazer essa tradução. Trabalho de divulgação - Um projeto é de que cada unidade da USP - falo a Politécnica, os Institutos de Química, de Psicologia etc - tenha um catálogo de pesquisa, que também traga destaques. Seria um volume bienal, metade da Universidade neste ano e metade no ano que vem. Depois, em 2004, voltaria aos que publicaram em 2002. Seria útil para estabelecer uma base para podermos, cada vez que saísse uma novidade, fazer um trabalho de divulgação. (...) Cada faculdade tem a sua comissão de pesquisa. O papel dessa comissão seria rastrear essas informações. Apareceu uma pesquisa interessante, eles trazem para a reitoria e nós enviamos para publicação. É um trabalho complexo, mas tem que ser começado. Outros projetos - Acho que há certos temas que precisam ser levados ao público leigo. Aí tem que ser numa linguagem simples mesmo, para que todo mundo possa entender. Vou dar um exemplo, no qual estamos começando a trabalhar. É o problema da energia nuclear. Na época em que houve aquele acidente em Goiânia, eu estava no exterior. Achei que aquela teria sido uma oportunidade muito boa para se explicar pelo menos o que o símbolo de radiação significa, quais são os perigos associados, coisas desse tipo. Existem mais itens nesse assunto que é preciso explicar. O que é uma usina nuclear, quais tipos existem, as vantagens dela em relação a uma hidrelétrica, as desvantagens. Esse é um tema que precisa ser explicado. Como divulgar e distribuir esse material - A idéia é distribuir em escolas. Talvez as televisões se interessem em divulgar. Há um projeto bem diferente, mas dá uma idéia do modelo que queremos. O (Instituto) Butantan fez um livro para divulgação (Serpentes da Mata Atlântica. Guia ilustrado para a Serra do Mar). Há uma explicação inicial, e depois tem fotos de cobra por cobra, com uma tabelinha explicando se ela é venenosa, se não é, se ovípara, vivípara etc. É uma coisa fantástica, acho que esse modelo tem que ser seguido. Serve para pessoas que andam no meio do mato, para a população mais simples que tem medo de cobra e quer saber mais. (...) Existem informações riquíssimas aí. Estou sempre mostrando para as pessoas, falando que o que tenho em mente é uma coisa dessa qualidade, não um texto científico. O interesse do brasileiro em ciência hoje - De maneira geral, parece que cresceu muito. Por exemplo, esse projeto genoma, o sucesso que teve estimulou um interesse grande pela ciência. Há um interesse genuíno por essas coisas. No fundo, se pensar bem, embora tenha sido vendido o lado aplicado, o projeto genoma é de pesquisa básica, que tem conseqüências depois. As pessoas se interessam pela lado básico da ciência, apesar de que é mais fácil entender a pesquisa aplicada. Se eu começar a falar de elétrons e mecânica quântica, é complicado entender. Mas falar que isso vira um microcomputador ou um telefone, fica mais fácil de a pessoa seguir . É por isso que eu acho que a tradução da linguagem da ciência para o cotidiano das pessoas é muito importante. (O Estado de SP, 27/1) JC EMAIL