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Grão Especial

Novo porta-enxerto de café IAC (Instituto Agronômico do Café) resistente a nematoides (parasitos que atacam a raiz do café) está em fase final de pesquisa

Publicado em 23 junho 2020

O professor e pesquisador do IAC, OIiveiro Guerreiro Filho, responsável pelo experimento, diz que o Coronavírus atrasou as visitas ao campo

O café é a bebida mais consumida no mundo Ocidental, depois da água. No Oriente, é a segunda, atrás dos chás. Originário da Etiópia, na África, possui inúmeras variedades, como Mundo Novo, Catuaí, Laurina etc. Se fizermos uma analogia com os vinhos, a maneira como é preparado, o terroir, a cepa, entre outras características, permite que cada garrafa de vinho produzida apresente características completamente diferentes uma das outras. O mesmo acontece com o café. No Brasil, existem duas espécies cultivadas de café: Arábica, com 75% da produção e Canephora, com 25%.

O IAC é considerado o mais importante centro de pesquisa do café no mundo, e só em seus anais estão registrados 126 cultivares de café arábica. O IAC lançou, em 1987, um cultivar de Canephora porta-enxerto para as cultivares suscetíveis de café arábica. Essa cultivar se chama Apoatã IAC 2258, resistente a essas pragas.

A grande maioria é suscetível a uma praga de solo chamada nematoide, os parasitos do café. “Quando as pessoas compram seus cafés nos pontos de venda, poucos conhecem o longo processo de pesquisa e produção de café. A imensa maioria, com certeza, desconhece toda a pesquisa e o tempo dedicados para se chegar ao café na xícara.

Mas, acredite: são necessários cerca de 25 anos para o desenvolvimento de uma nova cultivar de café. E mais dois ou três anos para a planta começar a dar frutos”, explica o pesquisador Oliveiro Guerreiro Filho, responsável pelo estudo de um novo porta-enxerto constituído por clones com resistência múltipla a diferentes espécies de nematoides, uma praga de solo que ataca as raízes do café, comprometendo o desenvolvimento vegetativo e reprodutivo da planta, levando à redução da produtividade das lavouras e à queda no preço do grão (commoditie). “Os cafeeiros debilitados são menos produtivos e seus frutos e grão são pequenos, com menor valor de mercado. O produtor, muitas vezes, convive com o problema, tendo um sócio permanente, levando uma parte importante de sua produtividade””, explica Oliveiro.

Agora, o pesquisador está em fase de conclusão um novo porta-enxerto constituído por clones com resistência múltipla a diferentes espécies de nematoides. Esse novo porta-enxerto será usado no plantio de cultivares copa de café arábica (o mais utilizado na casa dos brasileiros), que é suscetível às três espécies de nematoides.

Uma nova cultivar de café pode demorar até 30 anos para ser criada

Oliveiro explica ainda que para o novo porta-enxerto foi utilizada a espécie Coffea Canephora, que possui resistência simultânea a algumas raças de nematoides das galhas radiculares.

Um porta-enxerto tolerante ou resistente aos nematoides é extremamente importante, diante do difícil controle do problema. “Em casos severos, especialmente relacionados à incidência de nematoides das galhas radiculares, a lavoura acaba sendo eliminada”, afirma Guerreiro. Como a erradicação da praga é praticamente impossível, as plantas vão aos poucos, morrendo e as ‘reboleiras’, que são manchas de solo onde são observadas plantas com sintomas, vão aumentando nas lavouras.

A pesquisa ainda não está finalizada e encontra-se no estágio de caracterização dos clones a partir dos descritores mínimos para o cafeeiro. Os próximos passos serão registrar o novo material e protegê-lo junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), além da multiplicação vegetativa destinada à implantação de campos de produção de sementes.

“Em realidade, essa pesquisa foi iniciada há 40 anos, com a participação de alguns produtores e viveiristas, sob a responsabilidade do agrônomo Wallace Gonçalves que, no meio do trabalho, se aposentou. É uma grande honra pra mim, dar continuidade a essa excepcional pesquisa”, finaliza.

A pesquisa é financiada pelo Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Ouça o Podcast da entrevista com o pesquisador Oliveiro Guerreiro Filho