Notícia

Diário do Comércio (SP)

Novo mundo, novo aluno

Publicado em 09 maio 2007

Por Paulo Ludmer

O que você faria, profissionalmente, se o nível do mar subisse "x" metros em curto tempo? No início dos anos 80, eu aplicava esta questão em provas, por sucessivos semestres, nas disciplinas que lecionava na Faculdade de Comunicação da FAAP. A pergunta calou fundo: vários ex-alunos, alguns já avós, relembram e celebram essas provocações. Outro de meus vaticínios em provas formuladas consistia em inquirir: qual será sua ação profissional, se se interromper uma linha de transmissão de energia elétrica proveniente de Itaipu (por vendaval), provocando um demorado black out no Sul e no Sudeste do Brasil?

No contexto da prova, cada um de meus alunos acompanhava a vida econômica e a imagem de um produto de consumo, à sua escolha, sob minha coordenação. Assim, eu induzia à mensuração e análise desses impactos externos, no âmbito das comunicações, com foco nas reações e na prontidão do futuro profissional. Desde então, os riscos da política energética e ambiental mantiveram-se graves no epicentro da vida nacional, continental e mundial.

Três décadas se passaram e meu oráculo, infelizmente, permaneceu crédulo. Tudo se intensificou. Acrescente a Bolívia, o Iraque, Afeganistão e Irã, além de Coréia do Norte e Venezuela, aos contornos do mapa global. E, no que concerne ao aquecimento do planeta, some-se a omissão da China (e o risco de toda a Ásia Maior e Menor) para delinear a transcendência dos problemas no Terceiro Milênio. O que somos senão múltiplas perspectivas em ebulição? Pois as mutações da realidade, tecnológicas ou comportamentais, requerem inventividade e qualificação no relacionamento professor-aluno.

No caminhar de três décadas, o fundamental tem sido investir no desenvolvimento do ato de pensar do estudante, reconhecendo que o progresso tecnológico traria obsolescência acelerada a quaisquer equipamentos. Ao mesmo tempo, urgia cumprir a constante atualização desses ativos materiais e humanos. Essa corrida com salto sobre barreiras é alucinante e sem fim, enquanto o aluno se enfeitiça pelo maquinário e resiste a pensar o pensamento.

Em 2007, configurada a mudança climática — que acompanho e denuncio pessoalmente a partir do World Energy Council (WEC), desde 1989, em Montreal; 1992, em Madri; em 1995, em Tóquio; em 1998, em Houston; em 2001, em Buenos Aires; em 2004, em Sydney e, de prontidão parto para Roma, no próximo mês de novembro — pergunto qual é o enigma que se apresenta ao educador, à escola e à escolaridade?

Minha resposta começa em uma judaica pergunta, neste cenário mutante, de vertiginosas ameaças e oportunidades: quem é o nosso aluno? Como estar em relação eficaz e eficiente com ele? Como percebê-lo, capturar e associar-se aos reais interesses? Como contribuir para a expansão de sua natural competência? Como instrumentá-lo para a alegria de criar? Como lidar com a exponencial exclusão da maioria dos jovens brasileiros do universo da informática, nanotecnologia, genética, química fina e bioquímica? Há que saber! Ignorar será letal. Qualquer postura distinta propiciará uma travessia no escuro.

O novo jovem faz escolhas desconsiderando, cada vez mais, a relevância do amanhã. Encantado pela regência do princípio do prazer, para ele o aqui e o agora reinam mal contestados. A urgência lhe cobra fruição e sucesso. Nesse ritmo e nessa forma, o emprego de seus diversos estoques — físicos e mentais — demanda um imediato retorno: mais gozo do corpo, melhor mente quimicamente turbinada e absoluta potência egóica. Ele aceita o convite de girar mais rapidamente sua máquina, desprezando o desgaste mais veloz. Confia cego na ciência que lhe promete longevidade.

Enquanto inesgotável seleção de informações impõe-se, para a meninada, ela quer abraçar a tudo e a todos, o mundo enfim, numa torturante compulsão. Faltam-lhe condições para o necessário metabolismo da informação, até sua conversão em conhecimento, enquanto dissemina-se o mito do conhecimento inútil (se é que ele existe).

Parodiando o poeta e professor Carlos Vogt (ex-reitor da Unicamp e atual presidente da Fapesp), em recente aula para o corpo discente da Faap, no projeto Reeducação , o conhecimento útil tem que agregar valor econômico; preservar o planeta e o meio ambiente; e, inovar a inovação.

Inovar a inovação? Eis o ponto, a logística, a estratégia e a tática para enfrentar o novo inaudito. O jovem atual lida angustiado com a morte e a pulsão de legar ou não legar. A historicidade nega-lhe o futuro previsível, na medida em que a Física titubeia entre a Teoria Quântica e a da Gravidade e a cosmogonia se rege pela Teoria das Incertezas. Se a Teoria da Relatividade acende sonhos, como o da possibilidade de lembrar do futuro, também não derriça a angústia de saber que o tempo é comprovadamente curvo.

Claro está que o estudante comum ignora essas teorias que, sub-reptícias, o atingem, como a qualquer pessoa, na rede de relações multidimensional, na qual cada um de nós é um ponto que vibra, recebe e irradia sua influência nos milhões de pontos ao redor. Essa miríade de redes inclui o poder da sedução (anônimo, sem endereço, uma estratégia) da comunicação, de fora para dentro, violando o que se batizou, cem anos atrás, como sendo nossa subjetividade falida. Terá restado nossa singularidade?

É irresistível a entrega do novo aluno ao premente definitivo, em atos explícitos e tácitos: bijuterias atravessam seus músculos (lábios, língua, vagina, umbigo, sobrancelha, orelha...). As tatuagens conspurcam o maior órgão do corpo, a fronteira do dentro e do fora, a pele. A gravidez precoce adiciona-se como tema onipresente a partir do ensino médio. Os usos de drogas, álcool e fumo avançam em relevo. A renúncia à melodia, que sumiu da música, mostra-se afinal gritada ou só instrumental, com frasal sonoro restrito, minimalista, a sepultar o resto do amor romântico...

Quem é essa figura à frente do mestre que teme a bala perdida até dentro de casa ou da classe? Que discute na mesa do bar a sua segurança ou como se inserir no mundo da impunidade? Que não dá conta de se informar, menos ainda de selecionar a informação e transformá-la em conhecimento? Quem é essa criança, adolescente precocemente sensual, que desde muito cedo, menina, veste roupas cavadas, maquiagem e bolsa, desafiando pedófilos, obrigada a consumir e multiplicar satisfações (inclusive dos pais)?

E seu par masculino, ainda menino, oprimido a se defender via artes marciais, ao mesmo tempo aterrorizado com as medonhas perspectivas de exaustão do planeta Terra?

O primeiro equívoco do professor a evitar é classificar esse novo ser como algo menor ou pior. O segundo erro é empregar critérios e códigos ultrapassados, sob a pretensão de decifrar seus instáveis hieróglifos, a nova linguagem. O terceiro é o mestre supor que sabe o que é o bom e o bem para o outro, convertido em demônio quando discordante.

Não vejo ação e diretriz coesas, articuladas, dominadas, sem perpetrar uma atitude na escola: de "com...preensão" e de "com... paixão" no ensino. Assim, em tempo integral, ao professor cumpre um empenho radical, fervoroso, sem prescrições, rastreando (detetive de interioridades) essa pessoa inalcançável, que se pode catalisar, promovendo seu acontecimento, incitando a consolidação de sua máxima dimensão, em busca da alegria de viver.

Ou o professor sonha junto, ou seu fardo o soterra. Ou o professor abdica do orgulho, ou fenece. Ou o professor olha o futuro, ou o passado estático o transforma em estátua de sal. Ou visita a história e a tradição fecundando-as, ou se afoga na areia movediça do improviso e da pulsão. Ou se livra do ressentimento e da conserva, ou sucumbe na fobia e na inveja da juventude.

Na usina da educação escolar, a matéria-prima é nova e impaciente, é agente. O alunato dita o arranjo do produtor do conhecimento e não vice-versa. A escola discute, critica, quer cooptar ou refutar toda e qualquer intervenção, entre a geração e a viajem dos dados, que lhe são transmitidos. A linguagem se recicla a cada realimentação que perpassa o aluno e volta efetivamente alterada ao gerador, determinando reciclagem.

Sobre tudo isso, o profético poeta Fernando Pessoa nomeou o presente ciclo de Outramento , em meio ao qual a mesmice se outra, permanentemente, distinguindo o que pudesse ser agora, do que foi outrora.

Paulo Ludmer é jornalista e professor de Criatividade da FACOM-FAAP