Notícia

Agência C&T (MCTI)

Novo método permite planejamento eficaz de campanhas contra a raiva

Publicado em 26 junho 2008

Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) desenvolveram nova metodologia para o planejamento eficaz de campanhas de vacinação contra a raiva animal. Ela permite a identificação das áreas em que a cobertura da vacinação é crítica, a partir de dados sobre a população de cães e gatos de um município.

Coletados com o auxílio de sistemas de informação geográfica, esses dados levam a conclusões sobre a densidade populacional dos animais e o número de postos de vacinação móveis necessários para se atingir uma cobertura de imunização contra a doença de 70% em cada região. A literatura sobre o tema sugere que uma cobertura nessa proporção previne cerca de 96% das epidemias rábicas nas grandes cidades.

A criação do método partiu de estimativas feitas na capital paulista: sete habitantes por cão e 46 habitantes por gato. E a validação teve como base informações da campanha de vacinação contra a raiva de 2002, fornecidas pelo Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde. Os setores censitários foram agrupados de forma a compor os 96 distritos administrativos e as 31 subprefeituras da capital.

Distribuição espacial

A partir daí, os pesquisadores apuraram a existência de aproximadamente 1,49 milhão de cães e 226,9 mil de gatos na cidade, totalizando uma população em torno de 1,7 milhão de animais. As estimativas do estudo não incluíram a população de cães de rua, cuja cobertura vacinal é mais baixa. As conclusões foram tiradas de uma série de mapas de densidade animal, elaborados para organizar a distribuição espacial dos postos de vacinação na capital: são de que 1.729 é o número total de postos necessários no município para alcançar a cobertura vacinal de 70%.

 “Além de evitar as epidemias de raiva e a formação de filas nos postos, com essa distribuição é possível deslocar a quantidade exata de recursos financeiros e humanos para cada posto de vacinação”, afirma o coordenador do trabalho e professor do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da FMVZ, Marcos Amaku.

Segundo ele, os municípios interessados na aplicação do método podem utilizar bases de dados censitárias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Qualquer município que tiver a base de dados do IBGE pode fazer estimativas da população animal, utilizando os programas de informações geográficas e a razão de habitantes por animal, que pode ser estimada pelos Centros de Controle de Zoonoses de cada cidade”, explica.

Os sistemas de informação geográfica integram softwares que podem ser baixados gratuitamente pela Internet, permitindo a associação dos dados cartográficos – como ruas, setores censitários e distritos administrativos – com dados não geográficos, como tamanho da população animal e número de postos de vacinação. Um software de sistemas de informações geográficas que pode ser usado para a aplicação do método, segundo Amaku, é o TerraView, disponibilizado gratuitamente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Serviço de qualidade

A raiva é uma zoonose causada por vírus do gênero Lyssavirus, que ataca o sistema nervoso de todos os mamíferos, principalmente bovinos, eqüinos, suínos, cães, gatos e morcegos. Uma vez iniciada a sintomatologia, não há tratamento efetivo conhecido, o que faz com que, na zona urbana, a prevenção da raiva canina e felina seja feita por meio de campanhas de vacinação. O Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo considera que, para não haver prejuízo da qualidade do serviço prestado, cada posto deve atender no máximo 700 animais por dia. Em 2002, cerca de 25% dos postos da capital paulista vacinaram um número superior a mil animais. Essa grande quantidade, em um único posto, compromete a qualidade do serviço prestado e dá margem a problemas, como brigas entre animais, informa Amaku.

Dados de literatura estimam uma soroprevalência para raiva de 16,5% para os cães de rua da cidade de São Paulo. Ou seja: apenas 16,5% dos cães de rua da capital, cujo tamanho da população é ainda desconhecida, estariam protegidos contra a doença. “Essa baixa soroprevalência, associada à possibilidade de reintrodução do vírus rábico por outras espécies animais, é um fator que deve motivar o planejamento estratégico de vacinação e a manutenção de um sistema eficaz de vigilância epidemiológica nos municípios brasileiros”, constata o professor.

O projeto de pesquisa que originou o método teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na modalidade Auxílio à Pesquisa, e foi desenvolvido em parceria com pesquisadores do Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo. Um artigo com a descrição da metodologia foi aceito e será publicado na Revista de Saúde Pública, editada pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Mais informações sobre o método, no site amaku@vps.fmvz.usp.br.