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Novo exame diagnostica crianças com dificuldade de fala

Publicado em 17 março 2012

SÃO PAULO (Agência USP) - Um novo exame permite que crianças com problemas na percepção e

 

processamento de informações auditivas possam ser precocemente

 

diagnosticadas, mesmo quando não possuem recurso de fala ou o apresentem

 

de maneira prejudicada. O método foi desenvolvido nos Estados Unidos há

 

cerca de dez anos e acaba de ser validado no Brasil pela pesquisadora

 

Caroline Nunes Rocha Muniz, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

 

"Foi importante conseguir trazer este equipamento para o Brasil e

 

testá-lo em crianças brasileiras. Ele se mostrou ser um exame eficiente e

 

sensível, que pode ser aplicado em qualquer parte do mundo, pois são

 

ondas elétricas cerebrais em resposta a estímulos", diz Caroline.

 

O equipamento para realizar o exame foi importado com o auxílio da

 

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e se

 

encontra no laboratório de investigação fonoaudiológica em processamento

 

auditivo da FMUSP.

 

O estudo Processamento de sinais acústicos de diferentes complexidades em crianças com alteração de percepção da audição ou da linguagem foi realizado no Centro de Docência e Pesquisa em Fisioterapia,

 

Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP, no Laboratório de

 

Investigação Fonoaudiológica em Processamento Auditivo. A tese foi

 

defendida em 2011 e orientada pela professora Eliane Schochat.

 

Exame

Para validar o exame, Caroline selecionou 75 crianças, com idades entre 6

 

e 12 anos. Elas foram divididas igualmente em grupos de "crianças

 

normais", que não apresentam nenhuma dificuldade de fala;  "crianças com

 

Distúrbio Específico de Linguagem", que apresentam alterações no

 

desenvolvimento de linguagem, sem possuir nenhuma causa ou razão

 

aparente; e "crianças com Transtorno de Processamento Auditivo", que

 

possuem audição normal, mas apresentam dificuldades em perceber e

 

processar sons, em compreender a fala na presença de ruídos, têm

 

dificuldade em concentrar-se em uma informação e podem apresentar

 

problemas escolares, como na escrita e na leitura, por exemplo.

 

Todas foram submetidas aos mesmos testes, que consistiam na exposição

 

a ruídos e a diferentes estímulos, como cliques e o som de fala (sílaba

 

/da/). Essa exposição acontecia por meio de fones de ouvidos e a

 

captação da resposta era feita pelos eletrodos, colocados em pontos

 

específicos da cabeça dos pacientes.

 

No primeiro teste, chamado supressão das emissões otoacústicas, as

 

crianças ouviam um estímulo em uma orelha e um ruído na outra. O cérebro

 

libera uma série de ondas em resposta a esses sinais e, dependendo da

 

forma que o cérebro processa esses sons, é possível monitorar o padrão

 

das respostas. "O cérebro é bastante fiel àquilo que ouve. Ele reproduz

 

perfeitamente aquilo que conseguiu ouvir através de ondas. Dessa forma,

 

eu podia comparar o quadro de ondas de sons emitidos para a criança e a

 

resposta que o cérebro delas deu àquilo. Por isso, pudemos ter a noção

 

de como os sons de fala estavam sendo codificados pelas crianças",

 

explica Caroline.

 

Quando se tratava de crianças normais, os dois quadros de ondas eram

 

extremamente similares, as ondas do som e as ondas de resposta do

 

cérebro. Já quando havia alguma alteração na audição, certos pontos

 

divergiam entre os quadros de ondas. "Os dois grupos que apresentavam

 

alguma deficiência mostraram problemas da decodificação dos sons. Os

 

picos de ondas não se pareciam com o pico de ondas das crianças com

 

desenvolvimento normal, por exemplo".

 

Diagnóstico

Ao contrário da metodologia tradicional, esse exame permite que crianças

 

com extrema dificuldade de fala fala, linguagem e percepção auditiva

 

sejam mais precocemente diagnosticadas. O processo usual consistia na

 

percepção que os pacientes diziam ter do que tinham ouvido, era uma

 

observação comportamental deles durante a realização dos testes. "Agora

 

nós podemos fazer um estudo eletrofisiológico, por meio das respostas

 

elétricas que o cérebro do paciente emitiu. Nesse caso, não precisamos

 

da resposta comportamental do paciente, por isso o exame pode ser

 

realizado em pacientes com dificuldades ou não de se comunicar".

 

O novo equipamento permite colocar as crianças em grupos mais

 

específicos. "Alguns desvios de fala não necessariamente tem a ver com

 

problemas auditivos. Há uma série fatores que podem influenciar essas

 

alterações e é importante saber onde eles se encontram, da maneira mais

 

específica possível", explica Caroline.

 

O exame poder ser feito em qualquer parte do mundo, por não variar de

 

acordo com a língua da população. Além disso, ele também pode ser

 

aplicado antes mesmo do paciente aprender a falar. "Futuramente, podemos

 

realizar os testes em bebês, apenas monitorando os sinais de

 

codificação neural que eles emitem. Assim, um trabalho fonoaudiológico

 

já poderia começar a ser desenvolvido, de modo a impedir a evolução da

 

deficiência".