Notícia

Jornal do Brasil

Novo corte na carne da Ciência

Publicado em 24 setembro 1998

Por WANDERLEY DE SOUZA*
Desenvolver atividade científica no Brasil tem se tornado atividade de elevado risco. O cientista brasileiro aprendeu, por força das circunstâncias, a trabalhar como um agricultor em terreno árido e sem apoio técnico, isto é, contar com a sorte, as condições "climáticas" etc. As nossas autoridades governamentais, principalmente aquelas que comandam o setor econômico, ainda não estão conscientes de que pesquisa científica se faz sobretudo com gente treinada durante muitos anos e com grande experiência nacional e internacional em um determinado tema. É fundamental que se conte ainda com a importante participação do estudantes de diferentes níveis, em geral bolsistas de iniciação científica, mestrado e doutorado. Por este motivo, quando se fala em corte no número de bolsas os pesquisadores que coordenam projetos de pesquisa ficam assustados, prevendo o desmoronamento de todas as projeções feitas, alteração nas metas definidas previamente e nos compromissos assumidos com agências nacionais e internacionais e, em muitos casos, a perda da competitividade com grupos do exterior que trabalham na mesma área. No final do ano passado a comunidade científica se assustou com os cortes ocorridos nos programas de bolsas do CNPq e Capes e o posicionamento do CNPq no sentido de se retirar gradualmente do apoio a programas de mestrado. Tal posição, ainda que defensável para certas áreas do conhecimento, e mesmo assim em determinadas regiões do país, não pode ser ampliada para todas as áreas. O mestrado continuará a ser por muitos anos um componente importante do processo de capacitação científica do país, principalmente em certas áreas do conhecimento nas quais ainda não dispomos de uma massa crítica suficiente para atingirmos posição de destaque no cenário científico internacional. A simples eliminação do mestrado levará ao aumento forçado e artificial de programas de doutorado sem a menor condição básica de funcionamento e vai prejudicar claramente os centros universitários localizados em regiões onde a atividade científica é incipiente. As medidas tomadas no ano passado tiveram forte impacto em várias instituições e, de uma maneira muito clara, atuaram como sinalizador de dificuldades à vista, fazendo com que muitos bons alunos abandonassem a idéia de se dedicar a uma carreira científica, optando por atividades profissionais com remuneração mais certa a curto e médio prazos. Acompanhamos neste último ano um processo de abalo sísmico na economia de vários países emergentes, com maior repercussão internacional em países como a Coréia do Sul, Malásia. Tailândia etc. Os dados publicados não deixam dúvidas quanto à profundidade da crise nestes países. Por outro lado as autoridades que comandam estes países deram um atestado claro de que acreditam realmente que ciência e tecnologia são elementos fundamentais para o desenvolvimento sustentável quando, no epicentro de uma conjuntura adversa, aumentaram os recursos destinados à ciência e tecnologia. Outros países mais avançados, como Japão e Estados Unidos, também têm aumentado substancialmente os recursos destinados à pesquisa científica. O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos aumentou os recursos para pesquisa médica em cerca de 9% entre 97 e 98. Somente este aumento, da ordem de US$ 1,23 bilhão, 6 bastante superior a tudo que o Brasil investe de fato na comunidade científica brasileira em todas as áreas do conhecimento. Neste momento a comunidade científica brasileira está chocada com a medida tomada na última semana em que, em resposta à crise financeira atual, o governo resolveu cortar mais R$ 116 milhões do orçamento de 98 do Ministério de Ciência e Tecnologia, cujo orçamento inicial é sabidamente insuficiente para atender a todas as demandas qualificadas da comunidade científica. É inacreditável que se opte pela medida fácil, para aqueles que não pensam, de fazer cortes lineares nas diferentes áreas, assumindo posições irresponsáveis de comprometimento do futuro do país. *Professor titular da UFRJ, membro da Academia Brasileira de Ciências