Relógios e anéis inteligentes são normalmente vistos só como acessórios para contar passos, calorias ou monitorar o sono, mas no projeto Viva Bem: inteligência artificial para saúde e bem-estar, eles são fundamentais para avanços na medicina preventiva.
O novo Centro de Pesquisa Aplicada (CPA), uma parceria entre FAPESP, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Samsung, utilizará inteligência artificial para transformar esses dispositivos em ferramentas de diagnóstico precoce.
O objetivo é monitorar mudanças biológicas sutis para antecipar a identificação de doenças graves, como Parkinson e problemas cardíacos, antes dos sintomas aparecerem.
“Queremos, por meio desses dispositivos vestíveis cada vez mais comuns e acessíveis, detectar sinais invisíveis de doenças muito antes dos sintomas aparecerem”, afirmou Anderson Rocha , professor do Instituto de Computação da Unicamp e coordenador do Viva Bem, na cerimônia de lançamento do centro.
Hoje, smartwatches e smart rings têm sensores que medem frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, condutividade elétrica da pele, composição corporal, hidratação e movimentos.
Os pesquisadores planejam usar algoritmos de IA para processar todos esses dados juntos, identificando padrões sutis que permitirão monitorar diversas condições de saúde.
“Já comprovamos que ansiedade e estresse causam mudanças na condutividade da pele detectadas por relógios inteligentes”, disse Rocha .
Para Parkinson, IA pode analisar tremores, marcha e sono para detectar sinais anos antes do diagnóstico tradicional. Na saúde cardiovascular, pode funcionar como um eletrocardiograma contínuo, identificando arritmias, pressão anormal e riscos de infarto ou AVC pela variabilidade cardíaca.
Distúrbios do sono detectados por IA podem prever doenças neurodegenerativas e, em idosos, identificar perda de força e mobilidade antecipadamente para prevenir quedas.
“Essas áreas representam algumas das 11 pesquisas que desenvolveremos, todas com grande potencial de impacto”, disse o pesquisador. “Nosso foco não é substituir o médico, mas indicar quando o usuário deve buscar um especialista, para melhorar a qualidade de vida.”
Para garantir diagnósticos confiáveis, o sistema considerará que cada pessoa é única, evitando avaliações baseadas apenas em padrões médios, e será explicável, apresentando razões para cada conclusão, o que é essencial para que médicos confiem nas sugestões de IA.
A pesquisa desenvolverá algoritmos que rodem diretamente nos dispositivos, processando os dados em tempo real e aprendendo continuamente com os sinais brutos do corpo humano.
Uma vantagem dos relógios é coletar dados durante o dia a dia, revelando padrões que uma consulta rápida não detectaria. Diferente da medicina tradicional, baseada em dados pontuais, a IA fará monitoramento 24/7.
A privacidade dos dados será rigorosamente protegida, com coletas feitas só com aprovação ética e consentimento informado.
Especialistas da Unicamp e Samsung trabalharão juntos na análise dos dados, com foco nos sensores e dispositivos da Samsung, como Galaxy Watch e Galaxy Ring, integrados à plataforma da empresa sob protocolos do centro.
“Dados de saúde são extremamente pessoais”, destacou Rocha . Preocupação é evitar vazamento que poderia causar discriminação ou perda de emprego.
O CPA é um avanço significativo, com investimento inicial de R$ 20 milhões, resultado de uma parceria duradoura entre Unicamp e Samsung que já dura mais de uma década, explicou Rocha . O centro eleva a colaboração para o desenvolvimento de soluções reais para a sociedade.
Segundo Otávio Penatti, diretor de IA da Samsung no Brasil, este é o primeiro centro CPA da empresa no país, modelo que envolve universidade, empresa e fundação de pesquisa, com recursos da FAPESP que dobram o investimento da Samsung.
Outros 70 pesquisadores da Unicamp, de áreas diversas, participarão do projeto, que combina excelência científica e desenvolvimento de talentos com a experiência e visão de mercado da Samsung.
“O projeto junta ciência de ponta e visão comercial para criar soluções reais para a sociedade”, concluiu Mônica Alonso Cotta, pró-reitora da Unicamp.