Notícia

Jornal do Brasil

Novo ambiente da tecnologia

Publicado em 21 julho 1997

Por ROSÂNGELA BITTAR
Parece equivocada a insistência de alguns técnicos do governo nos estudos que visam juntar, em uma só estrutura, a universidade e todo o setor da ciência e tecnologia, assuntos hoje tratados por diferentes ministérios do organograma da administração pública. Esse modelo, que está em estágio avançado de formulação no Gabinete Civil da Presidência da República, desconhece o alerta sobre o perigo de preservar alguns erros do sistema que vigorou até há pouco. Entre eles, o de conceber que ciência e tecnologia só se faz em universidade. Desconsidera, também, um munido de idéias, projetos e novas discussões que estão ocorrendo do outro lado da esplanada, no Ministério da Ciência e Tecnologia, exatamente neste momento. Há ali uma ebulição provocada pelos movimentos mais consistentes feitos até agora pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, criado em agosto de 96. Perto de completar um ano de funcionamento, o conselho apresenta-se com uma agenda de trabalhos própria aos novos objetivos da política tecnológica que traçou. O conselho é dirigido pelo presidente da República e seu secretário executivo é o ministro da Ciência e Tecnologia. O professor Hélio Barros, assessor especial do ministro Israel Vargas e encarregado da coordenação dos projetos do conselho, anota alguns sinais de que realmente as coisas estão mudando nessa área. Está havendo, por exemplo, um encontro da ciência e tecnologia, no Brasil, com o setor empresarial. O assunto deixou de ser apenas tratado entre cientistas e professores universitários, a agenda de trabalho do ministro já abriga hoje mais empresários que professores, e as empresas começam a investir seriamente em pesquisa. Foi nesse novo ambiente que, segundo análise do professor, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia montou seus programas. Foram criadas, duas comissões no conselho, a de Desenvolvimento Regional, presidida por Fernando Bezerra, e a de Informação e Desenvolvimento, presidida por José Midlin. Esta última já definiu um caminho de trabalho totalmente prospectivo, constituído por três grandes projetos. Um deles, mais simples e já em andamento, é uma ampla radiografia do que existe de estudos sobre ciência e tecnologia no país, tudo o que já foi escrito pelos principais cientistas, todos os trabalhos já reunidos pelos analistas. É um projeto mais voltado para o resgate do que foi realizado e a análise do seu.significado como forma de impulsionar os estudos daqui para a frente. Ainda este mês, será levado ao conselho um documento básico sobre outro dos projetos dessa comissão. Preparado pelo conselheiro Carlos Lucena, da PUC do Rio, que é hoje considerado o papa da informatização acadêmica no país, o projeto trata da criação de sociedade da informa que possibilitará ao país contar, para seu desenvolvimento, inclusive político, com procedimentos eletrônicos realmente transformadores. E o terceiro trabalho, este totalmente olhando para a frente, que tem o objetivo de dar respostas às perguntas: O que o Brasil precisa fazer para ganhar a corrida tecnológica nos próximos dez anos? Em que áreas deve estar preparado? Muitos países, segundo os estudos comparativos realizados no conselho, já fizeram esse trabalho. O projeto exemplar é o do Japão, que há 25 anos estuda o que precisa fazer para estar à frente dentro dos próximos dez anos, e a cada ano faz o mesmo, sucessivamente. "O importante no projeto japonês não foi o fato de ter sido o primeiro, mas de vir sendo feito há 25 anos", destaca Hélio Barros. "Em lugar de olhar para o passado e avaliar quantos físicos gestão em um projeto, quantos departamentos estão fazendo "pesquisas, e pedir aos próprios cientistas que digam o que estão fazendo e para que servirá o seu trabalho, queremos inverter esta ordem", assinala o coordenador. Num exemplo comum isto significa que, se o país quiser ir ao espaço, precisa ter imediata resposta da comunidade científica e tecnológica sobre o que precisa fazer para alcançar esse objetivo. "Esse é o caminho que vamos trilhar. De uma forma que, quando o projeto terminar, possamos ter as tecnologias-chave "para os próximos dez anos", resume Hélio Barros. O governo não quer, então, desenvolver a ciência e tecnologia, como no passado, mas voltar a ciência e tecnologia para o desenvolvi-' mento do país. No jantar que reuniu, na quarta-feira da semana passada, o presidente Fernando Henrique e os principais parlamentares e ministros do PMDB, no Palácio da Alvorada, o ministro do Desenvolvimento Regional, Fernando Catão, contou à mesa uma cena bem brasileira. Estava ele no interior da .Paraíba, região do Cariri, vendo na TV de antena parabólica um jogo que se realizava no Rio, depois de ler todos os jornais que quis na Internet. Mas na cidade que não tem água. É nesse sentido que se torna mais difícil, agora, uma meia-volta da ciência e tecnologia em direção à vida acadêmica da universidade, que é apenas mais um dos seus ambientes. E mais difícil ainda a reunião dos dois setores sob o mesmo ministério. Um experimento de resultados previsíveis: por serem instituições caras, com grande poder de fogo nas crises, as universidades acabarão certamente engolindo essa ciência e tecnologia que se arruma em modelo ainda pouco consolidado.