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B2B Magazine

Novidades tecnológicas e o desperdício de conhecimento

Publicado em 01 junho 2003

A maioria dos problemas que surge em implementações tecnológica vem de resistências ou conflitos com as pessoas envolvidas. Somos resultantes de conjunto de relações sociais interconectadas e a reestruturação delas gera medos. A dor da passagem, do conhecido ao desconhecido, está mais relacionada ao fato de termos de refazer rotinas e relações existentes do que o receio do novo ser ruim. Se isso se dá em todos âmbitos da vida, não seria diferente no contexto profissional. E, se é amplamente conhecido que grande parte do valor de uma organização deriva de seus recursos humanos, que gestão de conhecimento é hoje fator de competitividade, por que o impacto social da tecnologia é o último que entra na agenda de uma mudança tecnológica? Um claro exemplo disso é a implementação de um sistema eletrônico de compras. Os compradores são os primeiros a resistirem à mudança. A tecnologia aumenta a transparência, traz eficiência, descentraliza e, por tudo isto, diminui o poder dos que dominavam o processo. Além disso, e não adianta esconder o óbvio, eles sabem que boa parte deles sairá da atividade, dispensada ou remetida para outras funções na empresa. Pareto, um economista italiano do início do século 20, formulou o que chamamos de regra 80-20. Segundo essa regra, 80% do esforço de um processo vem de 20% das entradas. Em compras, a maioria dos pedidos representa uma parcela mínima do volume comprado. Por isso a adoção de novas soluções, tecnológicas elimina o trabalho desnecessário e reduz o tempo e custo da operação. Em contrapartida, é nessa área na qual mais rapidamente serão eliminadas funções e pessoas. Como enfrentar esse problema? Em primeiro lugar reconhecendo que existe. Com a dispensa de funcionários, perdem-se os conhecimentos que serão ainda muito necessários para o sucesso do processo (padronização de produtos comprados, históricos dos fornecedores etc). Um processo que venho acompanhando é um exemplo de solução inteligente e bem-sucedida. Simultaneamente à implementação da nova solução de compras foi realizado um treinamento e a capacitação das pessoas que seriam demitidas. O objetivo era prepará-las para a nova situação e qualificá-las para o mercado. Gastar nos que serão demitidos? Sim, isso é responsabilidade social. Mesmo em uma dispensa, há lucro no processo. A informação e a colaboração dos profissionais são fundamentais para o sucesso da novidade tecnológica. As reduções pela automação das compras são de 15% no setor privado e até 30% no setor público. Por isso. os prejuízos com a demora na implementação e a importância de tornar os funcionários aliados são facilmente quantificáveis. Trabalhar os medos é garantia de uma rápida implementação. Deixar claras as regras do jogo sempre facilita e tornam as coisas mais claras. Reconhecer e enfrentar o óbvio são prioridades. Agir contemplando os envolvidos é boa parte do sucesso. Florencia Ferrer é PhD em sociologia econômica e pesquisadora da Fapesp florencia.ferrer@terra.com.br