Notícia

Biodiversidad en América Latina y El Caribe (Argentina)

Novas pesquisas mostram é o quanto a ciência básica no campo da genética está distante de suas aplicações técnicas

Publicado em 27 janeiro 2014

POR UM BRASIL ECOLÓGICO, LIVRE DE TRANSGÊNICOS & AGROTÓXICOS

Número 660 - 24 de janeiro de 2014

Car@s Amig@s,

No início da década de 2000, o Projeto Genoma Humano, desenvolvido em consórcio entre vários países, mostrou, entre seus resultados, que apenas 2% dos genes humanos codificam a produção de proteínas. O restante – 98% de um total de 22 mil genes identificados – foi então classificado pela ciência como “DNA lixo”, ou “DNA não codificante”. Assumiu-se o pressuposto de que essa “quase irrelevante” parcela do nosso genoma não atuava no funcionamento do organismo.

Apenas no final do ano passado, com a descoberta de algumas funções de parte do chamado “DNA lixo”, essa visão começou a mudar. Matéria publicada no jornal O Globo em dezembro de 2013 abordou a série de estudos realizados por centenas de cientistas de 32 instituições ao redor do mundo reunidos no projeto ENCODE, que na sigla em inglês significa “Enciclopédia de Elementos do DNA”, que revelou que “uma boa parcela, se não todo, esse ‘lixo’ tem sim função, regulando o funcionamento, a chamada expressão, dos genes, algo como um imenso painel de controle instalado no genoma humano.”

Ainda segundo a matéria, “Agora, pesquisadores da Universidade de Washington envolvidos no ENCODE descobriram que um grande número de códons [sequência de três nucleotídeos] nos nossos genes pode ter função dupla, servindo tanto para codificar pedaços das proteínas quanto para regular a expressão do gene. Batizadas ‘duóns’, estas sequências de nucleotídeos fazem parte de um tipo específico de mecanismo regulatório genético conhecido como fator de transcrição, essencialmente ‘falando’ as duas línguas do DNA, codificante e não codificante.”

A descoberta está descrita em artigo publicado em 13 de dezembro de 2013 na revista Science. O líder da pesquisa e principal autor do artigo, John Stamatoyannopoulos, declarou: “Por mais de 40 anos assumimos que mutações no DNA que afetam o código genético só tinham impacto sobre a forma como as proteínas são fabricadas. Agora sabemos que esta forma básica de ler o genoma humano deixou de fora metade do quadro. Essas novas descobertas evidenciam que o DNA é um poderoso mecanismo de armazenamento de informações que a natureza explorou completamente de formas inesperadas.”

Outro estudo recente – este desenvolvido por pesquisadores brasileiros – encontrou novas evidências da expressão do “DNA lixo”. Conforme descrito em matéria publicada em 21/01 pela Agência Fapesp, a pesquisa mostrou que a expressão alterada de genes não codificadores de proteína pode estar relacionada à agressividade tumoral. A pesquisa foi descrita em artigo publicado na revista Molecular Cancer em novembro de 2013.

Sergio Verjovski-Almeida, pesquisador do Instituto de Química da USP e coordenador da pesquisa, declarou à Agência: “Pela primeira vez, mostramos que RNAs não codificadores de proteínas podem estar relacionados à biologia de um tumor mais agressivo e, portanto, ser alvos potenciais para novos medicamentos”. “Novos estudos têm mostrado, porém, que a partir desse DNA se expressam RNAs que atuam modulando o funcionamento de genes vizinhos”, completou o pesquisador.

Mudando um pouco o foco, mas ainda sobre este tema, reportagem publicada pelo jornal New York Times relata outras incríveis descobertas recentes que colocam por terra crenças básicas da genética. Segundo o jornal, cientistas estão descobrindo ser bastante comum um indivíduo possuir múltiplos genomas. Por exemplo, algumas pessoas possuem grupos de células com mutações que não são encontradas no resto do corpo. Algumas possuem genomas que vieram de outras pessoas.

Os cientistas até agora acreditaram que poderiam olhar para o genoma de células tiradas do interior da bochecha com um tipo de cotonete e assim conhecer o genoma das células do cérebro, do fígado ou de qualquer outra parte do corpo. Mas evidências recentes estão mostrando que isso não é verdade.

A matéria apresenta as diversas possíveis origens da ocorrência do que chama de quimeras genéticas e de mosaicos genéticos e, entre muitos outros exemplos, traz o caso de um cientista forense do Laboratório da Divisão de Crimes do estado de Washington que em 2012 descreveu como as amostras de saliva e de esperma de um mesmo suspeito de um crime sexual não batiam.

Outro exemplo capaz de confundir cientistas forenses está relacionado a transplantes de medula óssea. Segundo a matéria do NYT, pesquisadores da Innsbruck Medical University, na Áustria, pegaram células da bochecha de 77 pessoas que haviam recebido transplantes no período que compreendia os nove anos anteriores. Em 74% das amostras, eles encontraram um mix de genomas, que incluía o genoma do receptor e o do doador da medula. As células-tronco transplantadas não apenas substituíram células sanguíneas, mas também se transformaram em células que revestem a bochecha.

Em suma, o que essas novas pesquisas mostram é o quanto a ciência básica no campo da genética está distante de suas aplicações técnicas.

É preciso ressaltar que a chamada “engenharia genética”, que se refere ao corta-e-cola de genes entre seres de diferentes espécies para a produção de organismos transgênicos, é até hoje realizada de maneira bastante “empírica”: não há controle sobre o lugar de inserção do novo gene dentro da cadeia de DNA e centenas de tentativas são feitas até que o gene inserido expresse no organismo receptor a característica desejada, e que esse organismo, aparentemente, não apresente outras alterações. Os cientistas têm ainda pouco conhecimento sobre os motivos que levam uma determinada inserção – e não outra – a funcionar e, muito mais grave, desconhecem quase por completo os efeitos imprevisíveis que a mudança no genoma pode provocar ; por exemplo, não seria de se esperar que o novo gene influenciasse o comportamento dos genes no seu entorno?

Diversas pesquisas recentes têm mostrado que o consumo de alimentos transgênicos no longo prazo pode representar um risco maior para o desenvolvimento de tumores e outros problemas incluindo infertilidade e desregulações hormonais. Infelizmente, entretanto, o poder econômico das grandes empresas tem sido capaz de abafar essas evidências e conformar esse grande experimento global.

Fonte: AS-PTA