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Novas metodologias para pesquisa com línguas indígenas serão apresentadas na Unicamp

Publicado em 27 janeiro 2016

Por Diego Freire, da Agência FAPESP

O conhecimento sobre as origens das línguas nativas da América do Sul e seus parentescos está diante de um desafio metodológico: a pesquisa tradicional não tem se mostrado capaz de fazê-lo avançar mais na história dos povos que deram origem às línguas indígenas faladas atualmente.

Para apresentar e discutir novas metodologias na área, pesquisadores de diversos países se reunirão na Escola São Paulo de Ciência Avançada Putting Fieldwork on Indigenous Languages to New Uses, de 21 de março a 6 de abril, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). As inscrições serão encerradas no dia 15 de fevereiro.

De acordo com os organizadores, os objetivos do evento, realizado com o apoio da FAPESP por meio da modalidade de auxílio Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), são apresentar a pesquisadores em início de carreira os últimos desenvolvimentos na coleta de dados para pesquisa linguística em línguas nativas e pavimentar o caminho para novos trabalhos no campo, com benefícios tanto para os linguistas como para as populações indígenas.

“Os métodos tradicionais de comparação histórica são bons, mas encontram limites que não permitem avançar muito mais nas raízes, na genética das línguas, de seus parentescos. Por conta disso, a história de nossas línguas não está ainda totalmente entendida. Novas metodologias, que foram aplicadas com sucesso a línguas europeias, por exemplo, podem fazer o conhecimento sobre as línguas nativas da América do Sul avançar mais”, explica Maria Filomena Spatti Sandalo, do IEL-Unicamp.

A programação terá foco na comparação sintática entre línguas nativas, na construção de corpora digitais – conjunto de informações para servir de base aos estudos na área – e na elaboração de desenhos experimentais para um conhecimento mais amplo da gramática das línguas faladas na América do Sul. Novas ferramentas de pesquisa podem contribuir, ainda, para projetos de alfabetização em comunidades locais, elevando a consciência dos nativos sobre sua cultura e linguagem de forma pouco invasiva.

Serão realizadas experimentações em psicologia do desenvolvimento com línguas em perigo de extinção, com foco nas línguas indígenas do Brasil, e apresentações sobre como construir corpora digitais para estudos e medidas de preservação dessas línguas, contemplando ferramentas para que os pesquisadores desenvolvam corpora próprios, com os atrativos mais adequados às suas necessidades de pesquisa antropológica ou linguística.

Também serão apresentadas novas metodologias em filogenética, que estuda o parentesco das línguas, em especial para aplicação no estudo das línguas de origem sul-americana.

“Temos apenas uma ideia das relações genéticas entre famílias linguísticas da América do Sul, que ainda estão entre as menos conhecidas do mundo. Pairam muitas questões sobre parentescos distantes entre elas e não tem sido possível avançar muito mais com a metodologia tradicional, com o método histórico comparativo. Há novas metodologias que usam ferramentas computacionais para olhar para a sintaxe, a gramática das línguas, e que podem ajudar a área a avançar”, conta Sandalo.

Novas abordagens computacionais poderiam, por exemplo, esclarecer se há algum parentesco entre a família linguística Guaicuru, dos grupos indígenas que migraram para o território brasileiro, na região dos estados do Mato Grosso do Sul e Goiás, fugindo da colonização na região do norte do Paraguai, e a língua Mataco, basicamente falada na argentina e no Paraguai. Os pesquisadores apenas intuem o parentesco entre tais famílias, que poderia, provavelmente, ser comprovado utilizando-se novas metodologias baseadas na sintaxe já experimentadas em estudos linguísticos na Europa.

Entre os pesquisadores confirmados na programação estão Giuseppe Longobardi e Susan Pintzuk, da University of York, no Reino Unido; Joel Wallenberg, da Newcastle University, também no Reino Unido; Myfany Turpin, da University of Sidney, na Austrália; Michael Becker, da Stony Brook University, nos Estados Unidos; Andrew Ira Nevins, da University College London, no Reino Unido, e professor visitante na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Bruna Franchetto e Suzi Lima, da UFRJ; Luciana Storto, da Universidade de São Paulo (USP); e Charlotte Galves e Angel Corbera Mori, da Unicamp.

A programação contará com palestras e atividades práticas, como sessões de hands on em que os participantes poderão experimentar metodologias de pesquisa filogenéticas, por exemplo, com as línguas Guaicuru e Karib, entre outras atividades. A ESPCA Putting Fieldwork on Indigenous Languages to New Uses deverá receber cerca de 100 estudantes do Brasil e do exterior, que poderão receber apoio financeiro da FAPESP para garantir sua participação.

Mais informações e inscrições em sites.google.com/site/pfilnu/home.