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Novas espécies de formigas recebem nomes em homenagem a grandes mulheres - Portal Saúde no Ar

Publicado em 12 novembro 2021

A ´pesquisadora e pós doutoranda do Museu de Zoologia da USP, Mônica Ulyssea, descreveu 14 novas espécieis de formigas do gênero Hylomyrma, grupo de insetos da família Formicidae. E para homenagear os povos índigenas e as mulheres, ela batizou o nome de 11 espcecies homenageando 11 mulheres por suas ações e histórias de lutas em defesa da sociedade. A iniciativa busca chamar atenção à desigualdade de gênero na sociedade, que também é uma realidade dentro dos laboratórios, e “exaltar e reconhecer a vida e obra de mulheres incríveis”, como afirma a pesquisadora ao Jornal da USP.

Dandara dos Palmares, um dos principais nomes da luta negra no Brasil; Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assinada; Miraildes Maciel Mota, jogadora de futebol conhecida pelo apelido “Formiga”, foram algumas das homenageadas.

O artigo com a descoberta das novas espécies foi publicado na revista Zootaxa, em outubro deste ano, em colaboração com Carlos Roberto Ferreira Brandão e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O grupo do gênero Hylomyrma, que antes abrigava apenas 16 espécies, agora compõe 30 formigas que vivem na região chamada de Neotropical, do Sul do México ao Norte da Argentina e ao Sul do Brasil. Apesar de pequenas, as formigas representam uma importante peça no conhecimento acerca da biodiversidade do planeta por desempenharem papel em diversos processos ecossistêmicos. “Dar nomes a esses bichos é também reconhecer a diversidade que existe em determinado espaço. Sabendo isso, dá pra dizer se a espécie é endêmica de uma região, por exemplo”, afirma Mônica.

Hylomyrma adelae – Espécie em homenagem a educadora, feminista, ensaísta e poeta Adela Zamudio (1854–1928), nascida em Cochabamba, Bolívia, que – não à toa – é o local de registro desta espécie. Adela nasceu em 11 de outubro, dia em que hoje comemora-se o Dia da Mulher Boliviana, pelo pioneirismo dela na luta contra a discriminação às mulheres na América Latina;

Hylomyrma dandarae – Espécie em homenagem a Dandara dos Palmares (?–1694), que atuou na resistência contra escravidão praticada no Brasil Colônia. Dandara fez parte do “Quilombo dos Palmares”, o maior quilombo que existiu na América Latina, reunindo cerca de 20 mil habitantes, e um dos grandes símbolos da resistência dos escravizados.

Hylomyrma jeronimae – Espécie em homenagem a Jerônima Mesquita (1880–1972), mineira, enfermeira e líder feminista brasileira. Nasceu em 30 de abril, data em que é comemorado o Dia Nacional da Mulher, devido sua importância na luta contra a desigualdade de gênero no Brasil.

Hylomyrma macielae – Espécie em homenagem a Miraildes Maciel Mota, baiana, jogadora de futebol, mais conhecida por seu apelido: Formiga. Formiga é a única futebolista a ter participado de sete edições dos Jogos Olímpicos e de todas as edições da Copa de futebol feminino. Sua trajetória até se tornar rainha é de superação de preconceitos – por ser uma mulher, negra, nordestina e integrante da comunidade LGBTQIA+ e também de luta pela valorização, reconhecimento, desenvolvimento e profissionalização do futebol feminino.

Hylomyrma margaridae – Espécie em homenagem a Margarida Maria Alves (1933–1983), paraibana, defensora dos direitos humanos e dos direitos das trabalhadoras rurais. Foi a primeira sindicalista mulher do País. Em 12 de agosto de 1983, Margarida foi assassinada por sua luta.

Hylomyrma mariae – Espécie em homenagem a Maria do Espírito Santo da Silva (1956–2011), paraense, extrativista, ambientalista e sindicalista, reconhecida por sua luta em prol da preservação da floresta Amazônica, do extrativismo sustentável, e em defesa da reforma agrária.

Hylomyrma marielleae – Espécie em homenagem a Marielle Francisco da Silva (1979–2018), mais conhecida como Marielle Franco, carioca, socióloga e política filiada ao PSOL. Marielle defendia o feminismo, os direitos humanos, a população LGBTQIA+ e os moradores de comunidades carentes. A política era crítica da intervenção federal no Rio de Janeiro, assim como criticava e denunciava constantemente abusos policiais e violações aos direitos humanos. Como vereadora, em pouco mais de um ano, elaborou 16 projetos de lei, dois dos quais foram aprovados: regulamentação do serviço de mototáxi e a Lei das Casas de Parto. Em 14 de março de 2018, foi assassinada a tiros junto de seu motorista, Anderson Pedro Mathias Gomes. Um crime até hoje impune. “

Hylomyrma mitiae – Espécie em homenagem a Mítia Heusi Silveira (1984–2010), amiga pessoal de Mônica, “uma mulher incrível e inspiradora”, que, na graduação em biologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), desenvolveu projetos com fungos e besouros. Mítia trabalhou também na Fundação Nacional do Índio (Funai). Mítia foi vítima do feminicídio.

Hylomyrma primavesi – Espécie em homenagem a Ana Maria Primavesi (1920–2020), engenheira agrônoma austríaca radicada no Brasil. Primavesi foi pioneira no estudos dos solos em florestas tropicais, particularmente sobre o manejo ecológico dos solos. Revolucionou a visão sobre a agricultura ao considerar o solo enquanto um organismo vivo, lançando assim as bases para a agroecologia e agricultura orgânica.

Hylomyrma virginiae Espécie em homenagem a Virginia Leone Bicudo (1910–2003), paulistana, socióloga. Virginia buscou na ciência defesas para lidar com o racismo e foi pioneira no Brasil ao tratar do estudo das relações raciais na sua dissertação, em 1945. Da sociologia adentrou na psicologia à procura de respostas para as causas do sofrimento, sendo a primeira não médica a ser reconhecida como psicanalista.

Hylomyrma wachiperi – Esta espécie ocorre na floresta amazônica peruana, numa região em que vive o povo indígena da etnia Wachiperi. “Esta é nossa homenagem para eles e para todos os povos indígenas, por sua resistência, por sua defesa da floresta, por sua proteção à biodiversidade e manutenção de variedades e sementes criolas”, afirma a cientista.

Hylomyrma lopesi – Espécie em homenagem ao professor Benedito Cortês Lopes, que lecionou no Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além de orientar inúmeras pesquisas no âmbito da graduação e da pós-graduação. “Benê”, como era chamado, foi quem apresentou para Mônica “o mundo encantador das formigas e da ciência”.

Hylomyrma peetersi – Espécie em homenagem ao pesquisador belga Christian Paul Peeters (1956–2020). Fez graduação e doutorado na África do Sul e pós-doutorados na Austrália, no Japão e na Alemanha. A partir de 1993, fixou-se em Paris, França, onde continuou a desenvolver suas pesquisas na Universidade Pierre e Marie Curie. Christian contribuiu para o conhecimento acerca da biologia e morfologia das formigas. Em especial, no doutorado da Mônica Ulysséa, colaborou no entendimento das intercastas.

Fonte: Jornal da USP

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