Notícia

Gazeta Mercantil

Novas empresas de tecnologia de ponta

Publicado em 24 setembro 1998

Por Virgínia Silveira - de São José dos Campos
Depois de enfrentar uma dura crise, que atingiu suas indústrias fabricantes de material bélico e aeronáutico, São José dos Campos volta a se reafirmar como um dos mais importantes centros de tecnologia de ponta da América Latina. Das 24 empresas que compõem hoje a Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), 14 estão sediadas no município, entre elas as de maior destaque no setor, como a Embraer, Tec-telcom Aeroespacial e Avibrás. A recuperação financeira da Embraer e o bom desempenho das vendas de aeronaves no mercado internacional também incrementaram em quase 100% as atividades das empresas de pequeno e médio portes, fornecedoras de peças e componentes para o setor aeroespacial. Embora em uma proporção menor, o segmento de atividades espaciais, comandado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), continua sendo uma importante alavanca de negócios para as pequenas e médias empresas de base tecnológica. Elas surgiram no começo da década como alternativa à crise que atingia as grandes indústrias aeroespaciais. O incremento da cadeia produtiva da Embraer chamou a atenção da prefeitura de São José dos Campos quanto à possibilidade de criação de novas empresas satélites na cidade e de fortalecimento das já existentes. "Trata-se de uma parceria que vem sendo articulada entre a prefeitura, a Embraer e o BNDES, no sentido de apoiar o desenvolvimento dessas empresas", explica o assessor de Planejamento Estratégico, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico Agliberto Chagas. A idéia, segundo ele, é viabilizar uma linha de financiamento para que os fornecedores do setor aeroespacial, sobretudo a Embraer, possam investir em modernização e novas tecnologias de ponta. O investimento previsto para a capacitação desses fornecedores, diz Chagas, é de US$ 100 milhões. A estimativa da prefeitura é que mais de 200 micro e pequenas empresas instaladas em São José dos Campos e região sejam beneficiadas pelo projeto. As empresas terão chance de se qualificarem melhor e participarem de programas como o da Estação Espacial Internacional. Embora o foco do projeto seja o setor aeroespacial, a proposta incentiva a diversificação de atividades. "O objetivo do projeto é promover o desenvolvimento sustentado dessas empresas para que, no futuro, quando o mercado tiver uma retraída, elas tenham por onde escapar". Outro projeto de incentivo ao desenvolvimento das indústrias de base tecnológica instaladas na região está sendo coordenado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Em convênio com a Associação dos Engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Finep instalou no Vale do Paraíba o primeiro balcão avançado para financiar projetos de micro e pequenas empresas de alta tecnologia. O projeto está destinando recursos de R$ 5 milhões para serem repassados às empresas da região com esse perfil tecnológico. O valor mínimo do crédito é de R$ 30 mil e, o máximo, de R$ 170 mil e só se estende às empresas que tenham, no mínimo, um ano de funcionamento e no máximo 100 funcionários. O convênio entre a Finep e a Associação dos Engenheiros do ITA foi assinado em novembro de 1997, mas só passou a vigorar em 1998. Entre as empresas que conseguiram a aprovação de pedidos de financiamento estão a Akros Engenharia, Equatorial, Mectron e Tecnatel. A presença na região de instituições do nível do ITA, CTA e Inpe, além de um parque industrial especializado na fabricação de aeronaves, foguetes e satélites, foi o ambiente ideal encontrado pelos engenheiros Carlos da Silva, César Augusto da Silva e Ricardo Fontes para criar, em 1992, a Akros Engenharia. A empresa, com experiência no setor aeroespacial, de onde vieram seus atuais sócios, tem 90% de suas atividades voltadas para a prestação de serviços para a Embraer. Na fase de desenvolvimento do jato regional ERJ-145, a Akros foi a responsável pelo projeto, engenharia è certificação da empenagem vertical e horizontal do avião, a porta de passageiros, além dos desenhos de cablagem e ferramental do jato. "Só para o desenvolvimento das empenagens e porta de passageiro nós produzimos 1.030 desenhos, em oito meses e gastamos 25.000 horas de projeto e 12 mil horas de engenharia", comenta um dos diretores da Akros, Carlos da Silva. O projeto do avião Supertucano (ALX), que a Embraer está desenvolvendo para o Ministério da Aeronáutica usar no Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), também teve uma participação da Akros. "A fuselagem e a asa do Supertucano foram projetadas pelos nossos engenheiros", diz Silva. No programa espacial brasileiro, a Akros participa do projeto de desenvolvimento do satélite Sino-Brasileiro (CBERS), feito em cooperação com a China. A Akros fornece para o programa a estrutura usada nos testes de abertura dos painéis solares do CBERS. A Akros também se associou ao consórcio de empresas formado pela Andrade Gutierrez e Innobra Innocenti para fazer o outro projeto, montagem e testes da Plataforma de lançamento do Veículo Lançador de Satélites (VLS), em Alcântara (MA). O mercado aeroespacial é o mais importante hoje para a Akros, mas a empresa vem procurando diversificar suas atividades, prestando serviços na área de automação industrial, desenvolvimento e otimização de sistemas para empresas dos mais variados setores como o automobilístico, eletrônico, eletrodomésticos, químico, transportes e alimentício. O faturamento da empresa, em 1998, diz Carlos Silva, deve crescer entre 10% e 20%. No ano passado, a Akros faturou US$ 2 milhões. Na mesma situação encontra-se a Equatorial Sistemas Ltda, que apesar de estar iniciando um processo de diversificação nas áreas de integração de sistemas e telecomunicações ainda tem muito vínculo com o setor espacial. Criada era 19% para dar continuidade aos contratos da Esca com o Inpe, na área de satélites, a Equatorial está desenvolvendo novos campos de atuação para consolidar a marca da empresa em setores menos sujeitos a oscilações. "Hoje temos um contrato grande com a empresa Matra Marconi Space, da Inglaterra, que respondeu por 60% do faturamento em 1997. Com o fim do contrato temos que garantir novas alternativas de recursos para a empresa sobreviver", diz o presidente da Equatorial, César Ghizoni. O valor total do contrato com a Matra é de US$ 2,5 milhões. A Equatorial fornece peças e componentes de um sensor de umidade que a Matra está produzindo para equipar o satélite norte-americano EOS (de observação da Terra). Entre os produtos desenvolvidos pela Equatorial estão imageadores ópticos, propulsores para foguete e satélites, amplificadores de vídeo, fabricação eletrônica, estações de recepção de satélites e equipamentos para testes ambientais. O principal contrato da Equatorial com o Inpe é o de uma câmera imageadora, que será usada no satélite Brasil/China. Além disso, a empresa é responsável pela qualificação de equipamentos eletrônicos do satélite. Com o nível de especialização e a experiência de seus profissionais, a Equatorial decidiu migrar parte de suas atividades para o desenvolvimento de projetos de telecomunicações via-satélite. A Equatorial vem se dedicando ao desenvolvimento e fornecimento de sistemas VSAT , ou seja, terminais que usam antenas pequenas para se comunicarem com satélites. O sistema, de acordo com Ghizoni, é muito usado por redes corporativas e rodovias. É para as rodovias que a Equatorial está fornecendo sistemas de telefonia de emergência, via satélite. A empresa representa com exclusividade a STM Wireless. A Equatorial tem 22 funcionários e faturamento previsto para este ano de US$ 2,5 milhões. Do total, 50% virão do contrato com a empresa inglesa Matra Marconi. Com financiamentos da Finep e Fapesp, a Equatorial desenvolveu novos produtos: um refrigerador termo-acústico para ser instalado em sistemas detetores no espaço, como o de imagens em infra-vermelho e um mecanismo de acionamento e apontamento para satélite. Os três sócios da empresa, César Ghizoni, Marcos Antônio Andrade Siqueira, Luiz Carlos Pacola e Orlando Sanchez Padilha, são engenheiros que tiveram formação acadêmica e carreira profissional em instituições como o ITA, Inpe e outros centros nacionais e internacionais dedicados ao desenvolvimento de tecnologia de ponta e aplicações espaciais.