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Brasil Econômico

Novas aplicações para os resíduos da cana

Publicado em 30 julho 2010

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) divulgou uma estimativa para a safra 2010/2011 de 585 milhões de toneladas, sendo essa produção utilizada para obtenção de álcool e açúcar. Contudo, esse processamento gera resíduos, como a palha, o bagaço, a torta de filtro e a vinhaça, dos quais o bagaço é o que se encontra em primeiro lugar em quantidade.

Além disso, a expectativa é de que a colheita da cana seja integralmente mecanizada até 2017 e a palha não seja mais queimada, transformando-se também em outro resíduo interessante para ser utilizado como matéria prima.

Por esses fatores, a disponibilidade e composição do bagaço de cana têm impulsionado pesquisas para desenvolver tecnologias de modo a aproveitar esse ingrediente de forma mais racional.

Por isso, após finalizar uma pesquisa que propunha o uso de celulose obtida do bagaço da cana para a produção de papel corrugado, usado em embalagens de papelão, tive a oportunidade de dar continuidade aos estudos que contemplam o aproveitamento dos resíduos da cana por meio do projeto "Desenvolvimento de novas fibras têxteis à base de celulose regenerada e quitosana para aplicações médicas", com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto vislumbrava o desenvolvimento de fibras têxteis a partir de celulose de madeira, adicionando propriedades medicinais com a quitosana, obtida da quitina, substância presente em crustáceos como lagosta e camarão. A ideia residia em utilizar a celulose do bagaço de cana para a obtenção de fibras têxteis celulósicas destinadas a aplicações na área médica, que contivessem propriedades cicatrizantes e bactericidas — isso seria proporcionado pela quitosana, resíduo da indústria da pesca. Concebeu-se então o projeto "Desenvolvimento de fibras têxteis a partir de celulose de bagaço de cana-de-açúcar com incorporação de fármacos e enzimas para aplicações médicas", novamente com apoio da Fapesp, sob a

coordenação do professor Adalberto Pessoa Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. No desenvolvimento do projeto, além da quitosana, avaliaram-se outras substâncias para agregar propriedades medicinais ao produto: a lisozima, enzima extraída da clara de ovos e que possui propriedades bactericidas, e a bromelina, enzima obtida da casca do abacaxi para limpeza de feridas.

Os resultados promissores no uso da celulose do bagaço e palha de cana-de-açúcar como matéria-prima para a fabricação de fibras têxteis promoveram o depósito de uma patente do processo. Para a obtenção da polpa do bagaço de cana e as avaliações de desempenho mecânico das fibras têxteis obtidas, utilizou-se a infraestrutura de um dos laboratórios do Centro de Têxteis Técnicos e Manufaturados do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do estado de São Paulo, no qual trabalho atualmente como pesquisadora. O objetivo agora é avançar nos estudos voltados ao desenvolvimento de fios, tecidos, malhas que contenham funcionalidades especiais. Estes produtos deverão atender à expectativa sempre crescente dos consumidores por produtos mais efetivos, confortáveis e ecologicamente corretos.