Notícia

Revista Hospitais Brasil

Nova técnica pode dobrar número de transplantes de pulmão no país

Publicado em 01 fevereiro 2012

O Incor - Instituto do Coração de São Paulo registra hoje uma fila de espera para transplante de pulmão com 70 pacientes. O índice de morte nas filas é de 30%. Pesa nesses números, principalmente, o índice de aproveitamento dos órgãos doados. Hoje, apenas 20% dos pulmões que são ofertados estão, a princípio, aptos a serem captados e, destes, apenas 50% mostram-se efetivamente em condições de serem transplantados. Isso resulta, ao final, em apenas 5% de aproveitamento dos pulmões notificados para doação. Esse baixo índice de aproveitamentos decorre da sensibilidade do pulmão, assim como do coração, à deterioração natural do processo de morte encefálica, ao contrário do que ocorre em outros órgãos, como fígado e rins.

Essa condição exige um alto investimento na manutenção do doador até o momento da retirada desses órgãos mais sensíveis, de maneira que eles possam ser efetivamente transplantados com uma taxa superior de sucesso. Dr. Paulo Pego, Cirurgião Cardiotorácico do Incor, conta que o primeiro grande problema com relação ao transplante de pulmão é que, entre os potenciais doadores, "Após a morte cerebral, o organismo aumenta a susceptibilidade a infecções, fazendo crescer a agressão aos pulmões. Há um acúmulo de líquidos que pode deteriorá-los rapidamente", explica o doutor. Em uma comparação em nível mundial, a cada 10 rins utilizados, usa-se apenas um par de pulmões. "No Brasil, a situação é um pouco pior devido ao sistema de saúde não satisfatório. Também há o problema da distância entre os centros de armazenamento do órgão e o paciente que o receberá", acrescenta.

Felizmente, há uma boa notícia. Para diminuir a taxa de mortalidade dos receptores em lista de espera, o grupo do Doutor Stig Steen, na Suécia, desenvolveu uma técnica inovadora de recuperação de pulmões com o auxílio de uma solução hiperosmótica, que permite que órgãos com excesso de líquidos, atualmente inviáveis para transplante, sejam drenados e adequadamente hidratados.

No Brasil, esta técnica já pode ser realizada pelo Incor, que levou especialistas para treinamento na Suécia e desenvolveu o experimento aqui no país em um processo que levou cerca de dois anos e meio. "Estamos prontos e no aguardo de um doador adequado para realizar o primeiro procedimento do tipo", declara o Dr. Pego. Todo o projeto, mais humano que financeiro, foi financiado pela FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Em termos de custo, a nova técnica aumenta os gastos em 7 mil reais por paciente, valor considerado baixo, segundo o especialista. O Incor realiza 25 transplantes por ano em São Paulo. Com a nova técnica, a expectativa é chegar a 50 procedimentos anuais.

Como funciona

Após a chegada dos pulmões na unidade de recondicionamen-to, eles são colocados em circuito de circulação extracorpórea e infundidos com uma solução hiperosmótica rica em albumina, a chamada solução de Steen. Convém lembrar que esse processo só é realizado em pulmões livres de infecções. Após a drenagem do órgão, são feitos exames radiográficos, de biópsia e análise laboratorial para verificar a possibilidade do transplante, procedimento que leva de 3 a 4 horas.

"Caso seja possível o uso, já é realizada a cirurgia. A esta hora, o receptor já foi comunicado e está preparado para receber os órgãos. Toda uma equipe é mobilizada para que não se perca os pulmões e eles cheguem ao receptor corretamente", descreve o Dr. Pego. As tecnologias utilizadas com o novo procedimento, na verdade, são praticamente as mesmas dos transplantes de coração. São elas: máquina de circulação extracorpórea, oxigerador de membrana, cânulas arteriais e venosas, bomba centrífuga, além da solução de Steen (hiperosmótica).

A expectativa é utilizar 70% dos pulmões que forem captados e possam ser recuperados com a nova técnica, mesma porcentagem obtida em Toronto, no Canadá, local que mais utiliza o procedimento. Os 30% que não são viáveis, mesmo após a aplicação da nova técnica, são descartados.

Doações de órgãos têm o melhor janeiro da história em SP

O número de doadores de órgãos no Estado de São Paulo cresceu 33,3% no primeiro mês de 2012, na comparação com o mesmo período do ano passado. É o que aponta balanço da Secretaria de Estado da Saúde com base nos dados da Central de Transplantes.

Houve 96 doadores em janeiro, contra 72 no primeiro mês de 2011. Foi o melhor janeiro da história em doações e o segundo melhor mês de todos os tempos, perdendo apenas para março de 2010, quando houve 99 doadores no Estado. Em janeiro foram feitos, no total, 243 transplantes de órgãos, contra 193 no mesmo período de 2011. Houve 10 transplantes de coração, 5 de pâncreas, 162 de rim, 60 de fígado e6de pulmão. "Mantido este ritmo poderemos ter um novo recorde de doações e transplantes no Estado em 2012", afirma Luiz Augusto Pereira, Coordenador da Central de Transplantes da Secretaria.