Notícia

Gazeta Mercantil

Nova reitora da Ufrgs quer interagir com as empresas

Publicado em 13 setembro 1996

Por Jussara Marchand - de Porto Alegre
Nos meios acadêmicos e políticos ela é freqüentemente identificada como socióloga, arquiteta e economista. Esta qualificação, porém, não revela a formação básica nem a amplitude do conhecimento da professora Wrana Panizzi, nova reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), primeira mulher a ocupar esse posto em uma das universidades públicas do País. A confusão - na verdade - tem motivos fundamentados. Formada em Filosofia e Direito, ela fez mestrado em Planejamento Urbano, tornando-se, assim, titular da Escola de Arquitetura da Ufrgs. Depois, concluiu doutorado em Urbanismo na Universidade de Paris XII Créteil, seguido de outro em Ciências Sociais na Universidade de Paris I - Panthéon-Sorbonne. Anos mais tarde, presidiu a Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (Fee), organismo que estuda a macroeconomia gaúcha e para o qual já desenvolvia trabalhos. É com essa diversidade de interesses que Wrana assume a segunda maior universidade brasileira em produção de pesquisa, disposta a traçar um novo figurino para a Ufrgs. "Não sou socióloga, economista ou arquiteta. Esta confusão é quase uma crise de identidade profissional. Mas acho que o conhecimento também se faz assim, através de múltiplas atividades, não é?", brinca a reitora que, aos 46 anos, passará a coordenar a vida acadêmica de quase 17 mil alunos, 3,2 mil servidores e 2,5 mil funcionários, a partir do próximo dia 17 de setembro. Prioridades Uma equipe liderada por Wrana, com cerca de 70 especialistas em vários temas, já se prepara para aplicar o plano que a levou à reitoria. Chamado pelo grupo de "Universidade Viva", o projeto é composto de cinco eixos centrais: excelência acadêmica em ensino, pesquisa e extensão, valorização de recursos humanos, reestruturação administrativa, planejamento como forma de ação e interação da Ufrgs com a sociedade. Na área da pesquisa, por exemplo, sua intenção é desvincular o setor da Pró-Reitoria de Pós-Graduação, à qual se subordina, atualmente, para melhorar a divulgação e o conhecimento das linhas de investigação que estão sendo trabalhadas. A Ufrgs tem 228 grupos de pesquisa e deve chegar ao final do ano com 260, representando mais da metade dos pesquisadores em atividade na região Sul. "Com essa providência poderemos projetar melhores ações para incentivar o financiamento ao setor", diz. Ela acredita que o meio empresarial terá interesse em conhecer e, possivelmente, em financiar pesquisadores da universidade, dez dos quais considerados pelo Instituto para Informação Científica, dos EUA, como dos mais produtivos do País. Em relação aos cursos de graduação, uma das prioridades já definidas por Wrana e sua equipe será a busca de um maior entrosamento entre a Ufrgs e vários segmentos sociais, entre eles o empresarial. Na área, porém, o objetivo da nova reitora não é de, simplesmente, facilitar o desenvolvimento curricular através de atividades práticas dentro das empresas, por meio de estágios. "O mundo andou rapidamente no desenvolvimento de novas tecnologias. O conhecimento científico supera-se rapidamente, as relações de trabalho evoluíram muito, enquanto a universidade esteve fechada. Agora, é preciso acelerar o passo para acompanhar esse mundo que está aí", comenta. Wrana pensa que o entrelaçamento com o mundo empresarial, assim como a aproximação com outras instituições, poderá colaborar na consolidação de um projeto mais ousado. Ela deseja que a universidade forme indivíduos adaptados às mudanças que a sociedade propõe, com bom nível de conhecimentos teóricos e altamente especializados no manejo das tecnologias da área escolhida. "E isto exige um projeto de abertura e conversações com empresários, associações técnicas, entidades que prestam serviços a essa sociedade", define. "Tempo perdido" Para dar forma a essa proposta, no entanto, a reitora traçou um caminho inicial que pretende seguir. Em primeiro lugar, diz que está na hora de promover, na Ufrgs, uma iniciativa do tipo "um olhar sobre si mesma". A ouvidos pouco acostumados com expressões que revelam reflexão, a frase pode soar como o fechamento da entidade dentro dos seus próprios muros. Apenas um equívoco de quem ainda não está acostumado com o temperamento da nova reitora. Depois de avaliar-se, o passo seguinte da universidade será, então, ouvir as demandas da sociedade. "Para recuperar o tempo que perdeu, a Ufrgs terá de estabelecer profunda interlocução com os agentes externos", afirma. Para essa perda de tempo, na sua avaliação, colaborou o período de ditadura, quando a evasão de professores e alunos fez das universidades centros de resistência voltados para dentro de si mesmos. Desta vez, o movimento que Wrana pretende imprimir na Ufrgs, a partir da sua posse, anda no sentido contrário. Na área dos cursos de graduação, outras mudanças já podem ser projetadas. Reivindicação antiga da comunidade acadêmica, os cursos noturnos devem ser incrementados, permitindo que os universitários também possam desempenhar uma atividade profissional enquanto completam a faculdade. O olhar arguto de Wrana já identificou outras necessidades de mudanças na instituição que comandará. Cursos outrora tradicionais e requisitados por estudantes de classe média, como Agronomia e Engenharia Civil, já não são os mais procurados pelos cerca de 36 mil alunos que disputam as 3,5 mil vagas que a universidade oferece em seus vestibulares. O interesse decrescente dos alunos por essas e outras áreas do conhecimento leva para dentro da universidade uma nova visão de mercado. "Na Engenharia", dizia-me um jovem professor, "teremos que incluir a questão da ecologia e da qualidade ambiental. A universidade não pode deixar de reconhecê-las enquanto o mercado está voltado para elas", sustenta. Eleita em três fases, o nome de Wrana Panizzi já chegou à mesa do ministro da Educação, Paulo Renato Souza, a quem compete a escolha dos reitores das universidades brasileiras, como o preferido pela comunidade acadêmica. Na primeira fase, concorrendo com outros quatro nomes, ela obteve 28% das indicações de estudantes, professores e funcionários. O segundo momento da escolha de Wrana aconteceu com a eleição do conselho universitário, quando conquistou 57% dos votos e passou a integrar a lista tríplice enviada ao ministro. Patrimônio desgastado No orçamento deste ano, a União destinou R$ 275 milhões à Ufrgs. Desse montante, 92% destina-se ao pagamento dos salários do pessoal ativo e aos aposentados. Restam poucos recursos (8%) para investimento e manutenção. A equipe de Wrana ainda está levantando, com a atual administração, a situação financeira global da universidade. Já sabe, no entanto, que terá de enfrentar situações no mínimo curiosas, a maioria por falta de manutenção de equipamentos e em várias de suas 25 unidades. O prédio que abriga os futuros engenheiros é um desses casos. Duas das três naves da Escola de Engenharia, espécies de cúpulas interligando departamentos dessa unidade, foram interditadas porque correm o risco de desabar. Trabalhando com esse cenário, a nova reitora deseja inicialmente repensar a Ufrgs - em conjunto com a comunidade - para ajudá-la a transpor o terceiro milênio. A gestão da equipe que assume em poucos dias estará encerrada no ano 2000.