Notícia

Diário do Rio Claro

Nova formiga é descoberta na Unesp em Rio Claro

Publicado em 31 agosto 2014

Uma descoberta feita por um pesquisador da Unesp, Campus Rio Claro, ganhou grande destaque no cenário científico internacional. O Prof. Dr. Maurício Bacci Júnior, do Centro de Estudos de Insetos Sociais (CEIS) do Instituto de Biociências (IB) descobriu uma nova espécie de formiga parasita jamais observada em outro lugar no mundo. A formiga, batizada de Mycocepurus castrator, aponta novos caminhos para o surgimento das espécies, além da teoria clássica de que o processo evolutivo acontece por meio do distanciamento geográfico de um grupo.


A nova descoberta foi publicada na revista Current Biology, na edição do dia 21 de agosto. De acordo com o pesquisador, a grande novidade trazida pelo estudo foi a comprovação de que a Mycocepurus castrator surgiu por meio de especiação simpátrica, ou seja, através de indivíduos de uma mesma colônia sem que houvesse isolamento geográfico entre o grupo. O nome foi escolhido porque a nova formiga inibe a procriação da hospedeira impedindo a formação de ninhos reprodutivos.


Especialista em evolução, Bacci conta que a castrator foi vista pela primeira vez em 2004 quando começou o estudo. A parasita foi localizada durante a escavação de um formigueiro de Mycocepurus goeldii, próximo ao prédio do CEIS no campus da universidade. O fato chamou a atenção do pesquisador pois havia duas formigas diferentes numa mesma colônia. Uma amostra então foi enviada para e especialista em taxonomia, Christian Rabeling, que na época trabalhava na Universidade do Texas, em Austin, nos Estados Unidos. Ele comprovou que a formiga era mesmo diferente e a partir daí Bacci e Rabeling iniciaram os estudos para comprovar se realmente se tratava de uma parasita ou de um erro originário de mistura durante a coleta.


Em 2010, Rabeling e Bacci publicaram um artigo descrevendo a nova espécie Mycocepurus castrator como sendo parasita. De acordo com Bacci, a origem da parasita foi confirmada por meio de procedimento de datação com base em biologia molecular, relacionando o número de mutações a referências geológicas. O teste estatístico determinou que a formiga M. goeldii surgiu há cerca de dois milhões de anos enquanto a M. castrator apareceu há 27 mil anos. “A origem mais recente que a espécie hospedeira ajudou a comprovar que a castrator surgiu a partir da espécie hospedeira”, destaca.


Essa é a tese defendida no artigo “A Social Parasite Evolved Reproductive Isolationfrom Its Fungus-Growing Ant Host In Sympatry”, publicado no periódico Current Biology. Nele, os autores demonstram que a castrator surgiu através de especiação simpátrica e que o surgimento de uma nova espécie pode decorrer de um parasitismo. “É como se a gente desse origem ao nosso próprio parasita”, comenta. Ele acredita que com o estudo as pessoas começarão a olhar para o parasitismo de forma diferente, procurando evidências de especiação simpátrica.


O pesquisador afirma que a descoberta reforça a teoria da evolução que propõe que as coisas não são estáticas, que as espécies surgem e desaparecem constantemente. Esse processo ocorre através de vários mecanismos, sendo a especiação simpátrica um deles. Por ser mais raro, quando é descrito um novo caso desperta curiosidade. O cientista explica que o próximo passo da pesquisa é procurar outros casos de formigas parasitas para verificar se elas também representam casos de especiação simpátrica. Segundo Bacci, existem ainda muitas perguntas sem respostas. Qual a frequência do parasita? O parasitismo representa uma ameaça ao ninho? Há evidências de que às vezes as hospedeiras conseguem matar as parasitas, mas não se sabe se elas conseguem se curar do parasitismo.


O estudo foi realizado em parceria com Ted R. Schultz, do Museu de História Natural da Smithsonian Institution; Christian Rabeling, da Universidade de Rochester; e Naomi E. Pierce do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade de Harvard. A pesquisa foi financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).